Quando bandidos viram mocinhos: a democracia em perigo

“Depois de assistir ao triste espetáculo oferecido pelos deputados e deputadas federais na votação ocorrida no domingo, 17 de abril, fico muito preocupada com o que está sendo feito da educação brasileira, que tipo...

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“Depois de assistir ao triste espetáculo oferecido pelos deputados e deputadas federais na votação ocorrida no domingo, 17 de abril, fico muito preocupada com o que está sendo feito da educação brasileira, que tipo de formação nossos jovens estão recebendo e de que forma o ocorrido poderá se refletir nesta formação”. Confira o artigo de Maria Izabel Azevedo Noronha, presidenta do Sindicato dos Professores do Estado de SP (APEOESP)

Por Maria Izabel Azevedo Noronha*

Antes de receber críticas pelo conteúdo deste texto, quero lembrar que estou plenamente empenhada na campanha salarial dos professores estaduais de São Paulo, que certamente já receberam os materiais e logo receberão novas publicações. Outras lutas de interesse da nossa categoria profissional estão sendo encaminhadas.

Digo isso porque me sinto no pleno direito, como cidadã, de expressar minha opinião sobre o que está ocorrendo no Brasil neste momento. Como educadora, sinto-me na obrigação de comentar o que se passou na sessão da Câmara dos Deputados que decidiu pela admissibilidade do processo de impeachment da Presidenta Dilma Rousseff. Sinto-me, portanto, compelida a emitir minha opinião para não me omitir na minha condição de cidadã e educadora neste momento tão grave da nossa história.

Depois de assistir ao triste espetáculo oferecido pelos deputados e deputadas federais na votação ocorrida no domingo, 17 de abril, fico muito preocupada com o que está sendo feito da educação brasileira, que tipo de formação nossos jovens estão recebendo e de que forma o ocorrido poderá se refletir nesta formação.

Sim, porque o que se viu ali colabora para o desaprendizado dessa juventude. Não se ensina o exercício da cidadania acusando-se sem provas. Não se ensina cidadania com o tipo de comportamento apresentado por Deputados e Deputadas que votaram sim ao impeachment sem sequer se darem ao trabalho de abordar o conteúdo do parecer do relator ou se manifestar sobre as acusações de supostos crimes que teriam sido cometidos pela Presidenta.

Ouso dizer, neste sentido, que as assembleias dos professores, as assembleias convocadas e conduzidas pela APEOESP, contribuem muito mais para a formação da cidadania que sessões como esta do Congresso Nacional. Há quem tenha críticas à minha pessoa, mas não podem me acusar de ter o comportamento do deputado Eduardo Cunha. Nas nossas assembleias todos podem expressar-se de forma cristalina e tudo é decidido pelo voto democrático e soberano dos professores.

Deseducação

Fico estarrecida quando bandido se apresenta como mocinho e assim é visto por parte da população. Respeito todas as opiniões, mas gostaria muito de saber como está se sentindo alguém que torceu pelo sim ao lado do deputado Eduardo Cunha e de tantos outros parlamentares envolvidos em múltiplas irregularidades e casos de corrupção, como, por exemplo, Paulo Maluf. Também posso citar a deputada Raquel Muniz (PDT-MG), que votou “sim” ao processo de impeachment e bradou contra a corrupção. No dia seguinte seu marido, atual prefeito de Montes Claros (MG), foi preso por corrupção. A própria deputada também é acusada pelo Ministério Público Federal. Na Comissão Especial, 35 dos 38 Deputados que votaram pelo impeachment respondem a processos na justiça por corrupção!

Deputados que são réus perante diferentes instâncias judiciais ali estavam para julgar a presidenta da República, eleita democraticamente por 54 milhões de brasileiros e sobre a qual não se prova crime algum. Como é possível tal inversão de valores?

Creio que vimos nesta sessão da Câmara dos Deputados o triste resultado da maneira como a educação vem sendo tratada ao longo de décadas no nosso país. O não investimento na educação pública tem grande peso nesta situação. Vimos ali pessoas mal formadas, contaminados por um espírito utilitarista da coisa pública, que não expressaram a importância da matéria que estavam analisando e que preferiram abordar questões cotidianas de seus estados, de seus municípios, de suas localidades, num momento em que estavam sendo decididas questões fundamentais para o futuro do Brasil.

Este seria o momento em que deveria expressar-se no plenário a vontade e a opinião qualificada de brasileiros e brasileiras, mas o que se viu foram baixarias, palavras de baixo calão e um comportamento que deseduca os jovens. A juventude que está descontente com a atual situação brasileira merece ser tratada com respeito, com diálogo, com informações e esclarecimentos. Da forma como ela está sendo confrontada com esse tipo de política, irá desaprender e tenderá a se relacionar com base no “vale-tudo”, na impressão de que o crime compensa e de que esse é ordenamento natural das coisas.

O fato é que deputados e deputadas que votaram sim à admissibilidade do impeachment aludiram a tudo o que se possa imaginar, menos ao mérito do que estava em discussão. Fugiram totalmente da questão central de saber se houve ou não crime de responsabilidade que justifique a abertura de processo de impeachment. Fizeram total confusão entre o público e o privado, como se a Câmara dos Deputados fosse uma extensão de sua vida particular. Família, parentes, amigos foram mais citados mais do que a Constituição, a legalidade, a existência ou não de crime que conduza ao processo de afastamento. Vergonhosamente, esses parlamentares se esconderam para não responder à pergunta a que foram convocados a responder. Muitos deles não teriam mesmo a menor condição de se pronunciar sobre essa questão.

É preciso refletir sobre o que está em jogo no Brasil

Não abro mão, neste momento, do direito de realizar esta reflexão, para chamar a atenção dos que se deixam levar pelo conluio que se armou em torno deste golpe, indevidamente denominado de impeachment, para o fato de que a omissão de muitos está permitindo a volta da eleição indireta no Brasil. Vivemos 21 anos de ditadura militar e a derrotamos, conquistamos o direito de eleger diretamente o/a Presidente/a da República e deste direito não abro mão. E o que vemos são deputados que falam claramente quando pronunciam seu voto “sim” ao impeachment dizer que o fazem para tirar a presidenta Dilma do poder. Esta é a verdadeira motivação do golpe: retirar do governo quem obteve 54 milhões de votos populares para, de forma indireta, passar o poder a quem não teve voto algum.

Volto a dizer que respeito todas as opiniões, mas não posso evitar um sentimento de repulsa quando vejo pessoas festejarem o resultado da votação, colocando-se ao lado do presidente da Câmara, um homem acusado de ter recebido, em apenas um dos casos em que está envolvido, R$ 52 milhões em propinas.

É realmente assustador viver este momento em que bandidos são vistos como mocinhos e preparam o assalto ao poder para destruir todas as conquistas de 12 anos de lutas do povo brasileiros. Por isso continuamos lutando para que isto não aconteça.

*Maria Izabel Azevedo Noronha é professora e presidenta do Sindicato dos Professores do Estado de SP (APEOESP) 



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