Do ‘Não vai ter golpe’ ao ‘Diretas Já’, por Emir Sader

Não basta resistir e contar com as contradições no campo golpista. O movimento precisa de propostas positivas, de denúncia e, ao mesmo tempo, de superação democrática da crise.

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Não basta resistir e contar com as contradições no campo golpista. O movimento precisa de propostas positivas, de denúncia e, ao mesmo tempo, de superação democrática da crise

Por Emir Sader, na Rede Brasil Atual

A luta democrática sofreu um duro revés com a aprovação pela Câmara da continuidade ao processo de impeachment da Dilma. É preciso considerá-lo assim, sem eufemismos, mas levando em conta os enormes avanços de mobilização popular que se deram – e que há fortes indícios que prosseguirão – e as dificuldades que o campo do golpe tem para avançar.

Essa situação coloca a questão de qual a melhor forma de dar continuidade à luta, considerando que não se pode abandonar a votação no Senado, mas levando em conta que suas possibilidades são bem pequenas, assim como que o STF abandone sua criminosa cumplicidade e considere a não existência de crime de responsabilidade no caso da Dilma.

A luta no Senado é uma obrigação de defesa do mandato legal e democrático que a Dilma tem, até suas últimas possibilidades. Mas a continuidade da luta e das mobilizações populares – seu principal oxigênio – não pode se manter no plano do “Não vai ter golpe” e nas denuncias do caráter monstruosamente antipopular, antidemocrático e antinacional que o Temer representa.

O processo no Senado deve terminar em meados de setembro, as denúncias devem se intensificar, para que cada vez mais setores da população se deem conta das extensão dos efeitos dos cortes nos recursos para a educação e a saúde, nos atentados contra a Consolidação das Leis do Trabalho, na privatização da Petrobras e do pré-sal.

Mas isso não basta para brecar o projeto golpista. Porque não basta resistir e contar com as contradições no campo golpista. O movimento precisa de propostas positivas, de denúncia e, ao mesmo tempo, de superação democrática da crise. Não basta ter razão, é preciso ter força para impor essa solução. Razões tem de sobra a Dilma quando denuncia a ausência de crime de responsabilidade, mas isso não foi suficiente para derrotar o projeto golpista até aqui e possivelmente não o seja até o final do processo. Se entende que o Lula esteja totalmente comprometido com a defesa do mandato da Dilma, até se esgotarem todas as possibilidades, mas a dinâmica das mobilizações e mesmo o cronograma dos enfrentamentos, não permitem permanecer somente com as orientações anteriores.

O “Não vai ter golpe” continuará soando pelas ruas e acompanhará todo o tempo em que o projeto golpista durar. Mas o golpe está em marcha, é preciso acompanhar essa orientação com outra mais, adaptada às circunstâncias que se terá que enfrentar a partir do momento em que se der o afastamento – ainda que provisório – da Dilma da presidência. O próprio governo já opera com essa possibilidade, ao buscar que o Brasil seja suspenso do Mercosul, caso se dê o afastamento da Dilma, e se evite a vergonha de o país ser representado por Temer na reunião desse organismo em junho, em Assunção, e de que o país tenha a Eduardo Cunha como presidente da República. Dilma admitiu a possibilidade da luta por eleições diretas, embora se compreenda que sua luta é pelo direito justo a exercer seu mandato até o seu final.

É preciso que a esquerda e o conjunto de forças que participam da luta contra o golpe discutam abertamente a possibilidade de luta por eleições diretas para presidente. Pode aparecer como renúncia à luta pelo mandato da Dilma, por isso se seguirá com o “Não vai ter golpe”, com a pressão sobre os senadores, com o escracho dos deputados que votaram pelo golpe. Mas é preciso ter uma atitude realista, que corresponda às novas condições de luta, de correlação de forcas e que se assimile o revés que tivemos na Câmara e que se avizinha no Senado.

Se chegar a tomar posse, Temer-Eduardo Cunha vão se valer da possibilidade de iniciativas que isso supõe e invadir a agenda com medidas, nomeações, denúncia, multiplicados pela mídia, que tentará passar uma imagem positiva do governo. Não basta cair de pé, defendendo uma causa justa até o final, mas se enfraquecendo na luta maior de defesa da democracia, dos direitos sociais, da Petrobras e do próprio Brasil, mas sofrermos uma derrota que, até agora foi tática, mas que pode se transformar em estratégica.

O objetivo da direita é usar o governo laranja Temer-Eduardo Cunha, alijar o PT do governo e impor duros retrocessos, contra o povo, no tema dos direitos sociais, contra o patrimônio público no caso da Petrobras, contra a democracia, porque vai ter que apelar para a repressão para tentar passar o violento ajuste fiscal com que ameaçam o país. E, claro, tentar tirar o Lula da vida política, porque sabem que, com eleições em 2018 ou mesmo antes, ele é favorito para ganhar, desfazer o que tratam de fazer e retomar o caminho iniciado em 2003, nesse caso com uma nova derrota da direita, que pagaria um preço caro pelo caminho da aventura em que está tratando de jogar o país.

Impedir esse projeto deve ser o objetivo maior do formidável movimento de defesa da democracia, que agora não pode apenas ficar na defesa do mandato da Dilma, mas se preparar para a possibilidade de um governo Temer-Eduardo Cunha. Tem que encarar a possibilidade de lutar por eleições diretas já, como forma não apenas de ressaltar o caráter antidemocrático da eleição de um presidente pelo voto indireto de um Congresso espúrio, como reafirmar que na democracia não se aceita um presidente que não seja escolhido democraticamente pelo voto direto do povo. Mas, ao mesmo tempo, propor uma saída democrática, a mais democrática possível, para a crise, impedindo um governo golpista e seu projeto abertamente neoliberal.

Seria uma orientação com a capacidade de aumentar ainda mais as mobilizações, isolar ainda mais o projeto Temer-Eduardo Cunha, ganhar novos setores que, ainda que tendo apoiado o golpe, não adiram ao projeto que surge dele, e de recolocar na agenda o direito do povo de decidir seus destinos. Sem contar que a alternativa democrática à crise conta com a liderança revigorada do Lula e propostas para a superação positiva da crise.

As mobilizações até o maior 1º de Maio que já tivemos vão se concentrar na denúncia do golpe e do programa que pretende empurrar goela abaixo do povo brasileiro, mas têm que ser acompanhadas das discussões sobre a continuidade da luta, para que o movimento siga unido e mobilizado, não se divida, nem perca impulso. O Brasil passa por um momento muito difícil, mas os golpistas também enfrentam enormes dificuldades. Só tem agenda negativa, só conversam com os empresários – e particularmente com os banqueiros -, sofreram grande desgaste com o circo de horrores da votação na Câmara, vão intensificar a recessão, o desemprego e a perda de poder aquisitivo dos salários, com as medidas que pretendem impor.

Mas o Brasil tem demonstrado que tem força de mobilização popular, de um movimento democrático unido e maduro, de liderança política indiscutível como o Lula, para derrotar o golpismo e a tentativa de retomada do neoliberalismo, e sair mais forte da crise atual. A recuperação do direito do povo de decidir o destino do país mediante eleições diretas, é uma possibilidade com grande potencial mobilizador que, mesmo que não consiga ser aprovado pelo atual Congresso, o desgasta ainda mais se tomar essa atitude, assim como acua e inibe ainda mais o projeto golpista do Temer-Eduardo Cunha.

E será a orientação politica que permite acumular forças, junto com propostas de futuro, que nos prepare para uma dura disputa em 2018.

Foto de capa: Mídia NINJA



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