Clóvis Gruner: Um governo nada surpreendente

Mas se são poucas as alternativas no campo institucional, é preciso fortalecer a oposição ao governo Temer nas ruas e pelos movimentos sociais (…) Duas coisas me parecem certas: não é mais possível superar...

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Mas se são poucas as alternativas no campo institucional, é preciso fortalecer a oposição ao governo Temer nas ruas e pelos movimentos sociais (…) Duas coisas me parecem certas: não é mais possível superar a crise sem traumas. E dessa vez a saída não é, não pode ser, a conciliação

Por Clóvis Gruner

No começo do ano passado escrevia, no blog “Desafinado”, do historiador Murilo Cleto, também colunista da Fórum, que muito provavelmente a segunda gestão de Dilma havia acabado antes mesmo de começar – não o mandato, deixo claro, mas a gestão. Assistíamos as primeiras manifestações pró-impeachment e o governo já se encontrava, de um lado, isolado e acuado por aliados cujos interesses fisiológicos suplantavam os políticos; e de outro, em confronto aberto com um Congresso abertamente hostil e na mira de uma imprensa e mídias dispostas a assumirem a função de oposição.

O quadro geral não era muito diferente do que vimos nos últimos meses, com o recrudescimento da crise política. Mas havia uma diferença significativa. O impeachment não era mais, então, mais que um desejo difuso e disperso, uma palavra de ordem bradada nas ruas, mas que pouco importava à oposição. Pelo contrário. Segundo o senador tucano Aloysio Nunes a intenção era, naquele contexto, criar um ambiente político instável o suficiente para fazer “sangrar o governo” pelos próximos anos e garantir em 2018 a eleição de algum nome, qualquer nome, sem a exigência de apresentar um projeto ou mesmo um mísero programa para o país.

Reler um texto escrito em março de 2015 à luz dos acontecimentos das últimas horas é um bom exercício para aqueles historiadores que, como eu, acreditam que a história precisa ser capaz não apenas de falar ao presente, mas também sobre o presente. Porque se a primeira vista há a perplexidade ante as muitas viradas na política brasileira desde a posse de Dilma Rousseff – que tomo aqui, um tanto arbitrariamente, como um evento a cumprir uma função simbólica, a de delimitar temporalmente o início da crise –, parte da perturbação se desfaz se lermos esse último ano e meio a contrapelo.

O impeachment como sobrevivência política – E da leitura a contrapelo surge um roteiro previsível, onde o impeachment se transformou em uma alternativa de sobrevivência política a partidos e lideranças atolados, em graus variados, na lama que jorrava da Lava Jato. Não por acaso a alternativa de novas eleições, bandeira erguida especialmente pelo PSDB desde a derrota de 2014, foi rapidamente posta fora à medida que não só o “candidato natural” Aécio Neves, mas qualquer outro nome tucano amargava uma virtual derrota em pesquisas de intenções de voto, independente do cenário sugerido. O cenário para instalar e acelerar o processo de impeachment foi viabilizado principalmente depois que a oposição atraiu a base aliada do governo, negociando com a moeda forte da impunidade.

Mas a farsa criada visava, por meio da reconfiguração de antigos pactos políticos, não apenas garantir a impunidade, mas também o reaparelhamento do Estado. Se é verdade que as administrações petistas não foram nem fizeram exatamente o que se esperava de governos de esquerda, também o é que o alinhamento entre os interesses e expectativas das elites tradicionais e os do Estado nem sempre estiveram integrados nas suas gestões. Em artigo publicado no “New York Times” em abril, o sociólogo Celso Rocha de Barros se referia ao impeachment de Dilma não como um “coup”, mas um “cover-up”, ou seja, não um golpe, mas uma estratégia para acobertar e encobrir a enormidade de falcatruas em que estão metidos muitos dos políticos brasileiros. E sugeria que, longe de ser o anúncio de uma “nova era”, ele é a maneira pela qual a velha classe política pretende retomar o controle do país. E escapar da cadeia.

Os arranjos começaram a aparecer cedo, logo depois da vergonhosa votação do domingo, 17 de abril, na Câmara dos Deputados. Já na segunda-feira, o ministro do STF Gilmar Mendes sugeria em entrevista concedida à noite no programa “Roda Viva”, que Michel Temer poderá ser absolvido no julgamento do TSE agora que Dilma, a cabeça de chapa, estava virtualmente deposta. Trata-se, Gilmar Mendes, do mesmo ministro que nesta semana, em 24 horas, autorizou e depois suspendeu o pedido de abertura de inquérito contra Aécio Neves, do PSDB, pela Procuradoria Geral da República – e para Waldir Maranhão resta ao menos a certeza de que fez escola em sua passagem pela presidência da Câmara.

Reinventar a oposição – O freak show chegou ao auge com a composição do ministério de Temer, anunciado na quinta (12), e composto por seis partidos que há até bem pouco tempo eram da base aliada de Dilma. Nele não há uma única mulher e nenhum negro. Mas entre os nomeados, sete são investigados na Lava Jato e, agora ministros, passam a ter foro privilegiado no STF. O ministro da Justiça e ex-secretário de Segurança Pública de São Paulo, Alexandre Moraes, já advogou, entre outros, para o PCC e Eduardo Cunha. E isso, é bom lembrar, é só o começo. O silêncio generalizado e conivente mostra que, afinal, a estratégia deu e tem tudo para continuar a dar certo.

Além de se apoderar dos mecanismos do Estado, o novo governo contará com a conivência cínica dos indignados que amassaram suas panelas e envergaram o uniforme verde amarelo da CBF não contra a corrupção, mas contra o PT. Além da disposição dos principais setores da mídia a cooperar com Temer e a nova situação em nome de uma intolerável “conciliação”. Restará, no parlamento, uma oposição à esquerda minoritária e fragilizada pela derrota, sem força para fazer frente a um esquema minuciosa e profissionalmente arquitetado para que tudo volte ao que sempre foi.

Mas se são poucas as alternativas no campo institucional, é preciso fortalecer a oposição ao governo Temer nas ruas e pelos movimentos sociais. Se há algo que esse processo está a nos ensinar, mais uma vez, é que as elites políticas e econômicas, ou parte expressiva dela, sabe manipular de forma competente o aparato simbólico do Estado, Constituição inclusa, e não vacila em usar os mecanismos democráticos contra a própria democracia. Duas coisas me parecem certas: não é mais possível superar a crise sem traumas. E dessa vez a saída não é, não pode ser, a conciliação.



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1 comment

  1. Mauro Silva Responder

    A saída é a ruptura institucional com er xpurgos generalizados no judiciário.


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