Acampamento de protesto: Por que na Fiesp pode e na casa do Temer não?

Em conversa com a Fórum, o advogado Benedito Barbosa, que já foi agredido pela Polícia Militar em mais de uma ocasião por defender sem-tetos, evidenciou a arbitrariedade e os abusos cometidos pela instituição quando lida com...

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Em conversa com a Fórum, o advogado Benedito Barbosa, que já foi agredido pela Polícia Militar em mais de uma ocasião por defender sem-tetos, evidenciou a arbitrariedade e os abusos cometidos pela instituição quando lida com movimentos sociais ou estudantes. “São setores da burguesia apoiando o golpe de outra forma”

Por Ivan Longo

No último domingo (22), moderníssimos equipamentos de dispersão da Polícia Militar de São Paulo que mais pareciam um arsenal de guerra expulsaram sem-tetos e manifestantes da Frente Povo Sem Medo de uma praça em Pinheiros, na zona oeste da capital paulista. Aquelas dezenas de pessoas, que foram alvo de agressões físicas, balas de borracha, jatos d’água e bombas de gás estavam na manifestação contra o presidente interino Michel Temer e acordaram, junto ao comando da PM, em fazer um acampamento em uma praça próxima do ponto onde se deu o fim do protesto: a residência de Temer na capital. Contudo, não demorou muito tempo para que as barracas e os cartazes dessem lugar a uma nuvem de fumaça das bombas que disperçaram os manifestantes.

“Urgente! Tropa de choque do estado de São Paulo começa a jogar bombas de efeito moral, gás lacrimogêneo e jatos da d´água contra o acampamento em frente a casa do golpista Michel Temer”, anunciaram membros do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST) quando a repressão começou. Quase que de imediato dezenas de fotos e vídeos do ataque da PM, feitos por jornalistas independentes, começaram a ser publicados nas redes.

Enquanto perto da casa do vice-presidente sem-tetos eram violentamente atacados, as barracas do acampamento montado por manifestantes pró-impeachment continuavam de pé na calçada do prédio da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), na avenida Paulista. O acampamento já dura, no mínimo, dois meses.

Manifestantes pró-imeachment acamparam na calçada da Paulista por mais de 2 meses, se repressão policial. (Foto: Reprodução/Facebook)
Manifestantes pró-imeachment acamparam na calçada da Paulista por mais de 2 meses, se repressão policial. (Foto: Reprodução/Facebook)

“Alckmin covarde e hipócrita! Dois meses de acampamento na Paulista da FIESP e nenhuma palavra. Quatro horas de acampamento na casa de Temer e um massacre ordenado diretamente por ele”, escreveu o MTST em sua página no Facebook.

A Polícia Militar, por sua vez, divulgou uma nota com uma explicação genérica: “Houve a necessidade de uso moderado da força legítima para dispersão de manifestantes que interditavam ilegalmente a via pública”.

Para Benedito Barbosa, advogado de movimentos sociais e de moradia, mais conhecido como Dito, a diferença de tratamento que o governador Geraldo Alckmin (PSDB) dá a movimentos populares e a “manifestações coxinhas”, como faz questão de chamar, é evidente.

“Não agem da mesma maneira quando os coxinhas continuam acampados na Fiesp e não agem com o mesmo equilíbrio. São dois pesos, duas medidas. Tratam o movimento social com violência e criminalização. São setores da burguesia apoiando o golpe de outra forma”, avalia o advogado, que acredita ser possível ainda a execução de medidas legais contra a ação da PM.

Tropa de Choque da PM ataca acampamento próximo a residência de Temer. (Foto: Paulo Ermatino)
Tropa de Choque da PM ataca acampamento próximo a residência de Temer. (Foto: Paulo Ermatino)

“Cabe ao movimento fazer representação na Corregedoria da Polícia Militar contra a arbitrariedade cometida. E pode haver ainda representação no Ministério Público por não ter sido garantido o livre direito de manfestação das pessoas. Ainda mais de forma pacífica, em uma praça. Não tem cabimento que as pessoas sejam retiradas desta forma. Cabe representação nas duas esferas”, afirma.

Dito está bem acostumado a esse tipo de conduta das forças policiais em São Paulo e já viveu na pele

O advogado Benedito Barbosa já foi brutalmente agredido pela PM. (Foto: Reprodução/Facebook)
O advogado Benedito Barbosa já foi brutalmente agredido pela PM. (Foto: Reprodução/Facebook)

essa diferença de tratamento. Negro, o advogado já foi agredido por mais de uma vez enquanto acompanhava ações de desocupação de prédios onde estavam vivendo famílias sem-teto. Em uma delas, em junho de 2014, levou uma “gravata” de um policial militar que, segundo conta, quase o matou.

“A gente que é advogado popular sabe que, infelizmente, esse processo de criminalização e ataque da PM a manifestantes e ao direito de manifestar tem sido uma constante no estado. Haja vista também a retirada dos jovens de forma extremamente violenta, arbitrária e sem ordem judicial dos jovens que faziam manifestações nas Etecs. Outras manifestações de jovens secundaristas que ocuparam escolas no final do ano passado foram violentamente reprimidas pela PM. Sem contar os ataques da PM a jovens da periferia, a juventude negra”, argumenta. “A PM  de São Paulo age dessa forma contra os pobres, contra os sem-tetos, contra os jovens, estudantes, pessoas que se manfiestam, atacam jornalistas. E não agem da mesma forma quando o coxinha está na Paulista fazendo selfie com eles”, pontua.



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