Umberto Eco, um espírito inquieto

O intelectual faleceu exatamente quando se abria para refletir, em sua linha literária, a barbárie crescente do mundo contemporâneo Por Antônio Carlos Mazzeo, da revista Margem Esquerda...

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O intelectual faleceu exatamente quando se abria para refletir, em sua linha literária, a barbárie crescente do mundo contemporâneo

Por Antônio Carlos Mazzeo, da revista Margem Esquerda

Quando falamos em Umberto Eco, imediatamente pensamos no escritor italiano de sucesso, autor de romances importantes como O nome da rosa e O pêndulo de Foucalt. Mas esse intelectual de espírito inquieto, nascido em 5 de janeiro de 1932, na cidade italiana de Alessandria, no Piemonte, foi um semiólogo, escritor e ensaísta que, além de seus romances renomados, abordou questões de estética medieval, linguística e filosofia.

Em sua juventude, militou na Ação Católica, que abandonou em 1954 durante seus estudos universitários sobre Tomás de Aquino, quando se tornou ateu. Muitos anos depois, em um artigo para a revista estadunidense Time, em junho de 2005, Eco saborosamente comentou: “Pode-se dizer que ele [Tomás de Aquino] me curou milagrosamente da fé”. Desses estudos e de sua tesi di laurea¹ resultou seu primeiro livro, Il problema estético in San Tommaso, de 1956.

No período em que foi editor da Casa Editorial Bompiani, de 1959 a 1975, publicou o livro Opera aperta [Obra aberta], em 1962, um importante ensaio que teve repercussão tanto nos meios intelectuais quanto nos movimentos de vanguarda literária, na Itália e no exterior. Nesse trabalho, Eco aborda a arte contemporânea a partir do conceito de indeterminação poética, no qual inclui a poesia, as artes plásticas e a música como manifestações indeterminadas que se mesclam e se completam, no contexto da contemporaneidade.

A partir de 1961, Umberto Eco inicia sua carreira acadêmica, passando pelas universidades de Milão, Florença e Turim, até a obtenção da Cátedra em Semiótica, na Universidade de Bolonha, em 1975, onde torna-se presidente da Escola Superior de Ciências Humanas e coordena as atividades do doutorado. Nesse período, Eco leciona como professor-visitante em diversas universidades do mundo, como as de Nova York, Northweatern, Columbia, Harvard, Oxford e Cambridge, além de Universidade de São Paulo, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Universidade de La Plata, Collége de France e École Normale Supérieure de Paris.

Após a publicação de Opera aperta, Eco escreve, em diversos jornais e revistas, os artigos que constituirão a base dos livros Diario minimo, de 1963, e Apocalittici e integrati, de 1964, nos quais analisa sociologicamente os meios de comunicação de massas, especialmente no primeiro, que inclui um conciso e célebre artigo, “Fenomenologia de Mike Bongiorno”, a respeito do ítalo-estadunidense que se torna um sucesso televisivo na Itália do boom econômico, ressaltando a massificação mental através dos meios de comunicação e da mediocrização do modelo a ser seguido pela sociedade: um homem esvaziado de cultura escolar e ignorante, cuja única virtude é a ausência de virtude e a inerente tacanhez do senso comum. Antecipa, assim, sua análise do fascismo cotidiano, que Eco definirá como “fascismo eterno” ou “Ur-Fascismo”, em seu livro Il costume di casa, de 1973, obra influente nos meios de contracultura e dos críticos do mass media, em que aborda o culto à tradição, a recusa do moderno, o machismo, o “populismo” na TV e a manipulação de massas.

Na crítica ao culto da tradição, Eco salienta que o tradicionalismo é mais antigo que o fascismo, pois já se fazia presente na reação à Revolução Francesa e, no fascismo, ganha expressividade. O tradicionalismo é um dos entraves para o desenvolvimento do saber, sedimentando o senso comum. Articulado a esse elemento, e como consequência, temos a recusa da modernidade. Se o fascismo e o nazismo aparentemente laudaram a tecnologia, por outro lado também cultuaram (e cultuam) a tradição, por meio da ode ao “homem comum” e da rejeição ao Iluminismo e ao espírito da revolução democrático-burguesa, materializado nas Revoluções Francesa e Americana, de modo que, para Eco, esse fascismo aparecia como expressão do irracionalismo, definido como o culto da ação pela ação, porque

[…] pensar é uma forma de castração. Por isso, a cultura é suspeita na medida em que é identifi cada com atitudes críticas. Da declaração atribuída a Goebbels (“Quando ouço falar em cultura, pego logo a pistola”) ao uso frequente de expressões como “Porcos intelectuais”, “Cabeças ocas”, “Esnobes radicais”, “As universidades são um ninho de comunistas”, a suspeita em relação ao mundo intelectual sempre foi um sintoma de Ur-Fascismo […].²

Assim, as consequências do irracionalismo ligam-se ao chauvinismo, ao elitismo e ao “populismo qualitativo”, em que os indivíduos não possuem direitos e o povo é compreendido como “uma entidade monolítica que exprime a vontade comum”, sendo o líder seu intérprete.

A partir de 1968, Eco abre um novo front de combate com a publicação de La struttura assente e, depois, Trattato di semiotica generale, de 1975, e Semiotica e filosofia del linguaggio, de 1984, centrando suas polêmicas na semiótica. Especialmente em La struttura assente, no qual debate com Saussure, Lévi-Strauss e Lacan, enfatiza que o conceito de estruturas já está presente no Ocidente desde Aristóteles. Esse conceito, portanto, não deveria ser um apanágio do estruturalismo linguístico e, nesse sentido, não basta falar de estruturas ou reconhecê-las, ou, ainda, operar estruturalmente para ser estruturalista, mas deve-se limitar o estruturalismo a um modelo hipotético de “estruturalismo ortodoxo”, propondo uma delimitação rigorosa do modelo estrutural e de sua aplicabilidade, colocada dentro do escopo metodológico e contrapondo-se aos estruturalistas ontológicos que, segundo Eco, não se limitam às formulações científicas porque vão para além das delimitações rígidas³. Eco propõe, ainda, superar o “mal da ontologização”, que, segundo sua concepção, “maneja falsamente as estruturas”, como se fossem verdadeiras, mas que são mistificadoras4.

Nos anos 1980, Eco debuta na literatura com seu primeiro e mais célebre romance, O nome da rosa, em que utiliza sua vasta cultura de medievalista para construir a trama do texto. O livro tornou-se um best-seller, sendo traduzido para mais de quarenta idiomas e tornado filme em 1986, com direção de Jean-Jacques Annaud e estrelado por Sean Connery, que interpreta o padre detetive Guilherme de Baskerville. Em 1988 publica O pêndulo de Foucault, definido como uma sátira da interpretação paranoica de fatos verdadeiros ou legendários da história. O pano de fundo é o invento do físico e astrônomo francês Jean Bernard Léon Foucault, que se utiliza de um pêndulo para demonstrar o efeito de rotação da Terra. Ainda retomando a crítica satírica das versões conspirativas da história, Eco escreve L’Isola del giorno prima, em 1994, e Baudolino, em 2000, em que retoma a temática feudal a partir de um personagem que se autointitula “o maior mentiroso do mundo” e que narra seus feitos ao historiador Nicetas Coniates, sempre mediados por situações fantásticas, de guerras e viagens extraordinárias dos venezianos, histórias ligadas ao personagem Barba Ruiva. Em 2010, publica O cemitério de Praga, no qual retoma a temática do misticismo a partir de um cemitério judeu, agregando discussões sobre satanismo, mortes, um prior que morreu duas vezes, sociedades secretas e os revolucionários italianos Giuseppe Garibaldi e Giuseppe Mazzini.

Sua última obra é Número Zero, de 2015, ambientada em 1992 na redação de um jornal fictício. O tema é o mau jornalismo e sua tentativa de confundir e manipular a opinião pública, diante de uma conjuntura bastante complexa na Itália, que envolve o escândalo da Loja P2 e do personagem sombrio Licio Gelli, ligado a Mussolini e a Franco, ex-informante da Gestapo e depois aliado da CIA durante a Segunda Guerra Mundial e que, juntamente à Otan, teria conspirado na famosa Operação Gládio, que tentou dar um golpe de Estado, de tipo jurídico-institucional, para “livrar a Itália dos comunistas”. O romance, que trabalha com fatos reais e ficção, envolve ainda tramas que vão desde membros das Brigate Rosse até a morte inexplicada do papa João Paulo I. Temática polêmica e adequada ao Brasil de hoje. Umberto Eco morreu em 19 de fevereiro de 2016, vítima de câncer, exatamente quando se abria para refletir, em sua linha literária, a barbárie crescente do mundo contemporâneo.

1 Na Itália, a chamada tesi di laurea é um trabalho científico obrigatório, de algum fôlego, apresentado após a conclusão das disciplinas obrigatórias para se obter a graduação em um determinado curso universitário. É um trabalho semelhante ao maîtrisse das universidades francesas.
2 Umberto Eco, “O fascismo eterno”, conferência proferida em Nova York, Columbia University, abr. 1995, disponível em: <www.pragmatismopolitico.com.br/2016/02/ur-fascismo-o-texto-historico-de-umberto-eco-traduzido-para-o-portugues.html>. 3 Ver Umberto Eco, La struttura assente (Milão,Tascabili Bompiani, 1980), p. v. 4 Ibidem, p. 355.
3 Ver Umberto Eco, La struttura assente (Milão,Tascabili Bompiani, 1980), p. v. 4 Ibidem, p. 355.
4 Ibidem, p. 355.
Foto de capa: https://www.flickr.com/photos/blogs4biz/


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