“Jamais o capitalismo revelou-se tão destrutivo”

Para o sociólogo Fábio Mascaro Querido, autor de Michael Löwy: marxismo e crítica da modernidade, ainda que uma alternativa concreta ao capitalismo pareça distante do nosso horizonte imediato, há hoje ainda mais razões para...

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Para o sociólogo Fábio Mascaro Querido, autor de Michael Löwy: marxismo e crítica da modernidade, ainda que uma alternativa concreta ao capitalismo pareça distante do nosso horizonte imediato, há hoje ainda mais razões para se lutar contra o sistema capitalista

Por Glauco Faria

“Jamais o capitalismo revelou-se tão destrutivo, social e ecologicamente, acrescentando à “barbárie moderna” do século XX (guerras, fascismos, massacres, genocídios etc.) um novo rol de possibilidades de destruição social, do desemprego estrutural à situação dos imigrantes na Europa, passando pelo perigo da catástrofe ecológica, que coloca em risco as próprias condições para a vida humana no planeta.” A análise é do sociólogo Fábio Mascaro Querido, autor do livro Michael Löwy: marxismo e crítica da modernidade.

Para Mascaro, “embora possa parecer um paradoxo, já que uma alternativa concreta ao capitalismo parece longe do nosso horizonte imediato, há hoje ainda mais razões para se lutar contra o sistema capitalista, talvez mais do que nunca”. De acordo com ele, nunca o capitalismo se revelou tão destrutivo, social e ecologicamente, como atualmente. “Em vários cantos do mundo, vive-se na prática aquilo que Benjamin chamou de “estado de exceção permanente”, com a ascensão da extrema-direita e a redução das democracias à condição de gestão da econômico-policial de um sistema em crise. Basta ver, para dar um exemplo que nos toca, o que ocorre atualmente no Brasil, onde o golpismo neoliberal não hesita em tentar impor à força, via golpe parlamentar (com aparência e forma ‘legal’), um programa (liberal-conservador) que dificilmente seria chancelado pelas urnas.”

Na entrevista a seguir, o sociólogo fala sobre a importância da obra de Michael Löwy na atualidade e aborda o conceito de ecossocialismo. “Para Löwy, a questão ecológica constitui um dos principais desafios à renovação do marxismo, uma vez que coloca em causa aspectos centrais que pautaram historicamente uma parcela significativa da esquerda política.” Confira a íntegra da entrevista.

livro mascaro michel lowyFórum — Nos tempos atuais, qual a importância de recapitular e analisar a obra de Michael Löwy?

Fabio Mascaro Querido — Em sua trajetória intelectual e política, iniciada em meados dos anos 1950, Michael Löwy acompanhou, como testemunha e/ou participante interessado, os principais acontecimentos históricos e políticos das últimas seis décadas, vivenciando a ruptura de época pela qual passou o mundo entre as décadas de 1980 e 1990. Por isso, ele pode ser visto hoje como uma espécie de passeur [passante] entre duas épocas, entre aquela marcada pela “atualidade” (se não iminência) da revolução, nos anos 1960 e 1970, e aquela, ainda a nossa, caracterizada pela ascensão da mundialização neoliberal e pelo declínio do marxismo e das esquerdas intelectual e política de modo geral, a partir dos anos 1980.

Desta “passagem” pela vida intelectual e política mundial desde o início da segunda metade decorre, em grande medida, a relevância e a atualidade da obra de Löwy, em especial porque, diante das transformações histórico-políticas e culturais que se iniciaram na virada para os anos 1980, ele conseguiu escapar de um duplo perigo: 1) o abandono puro e simples de toda perspectiva radical – no sentido etimológico – e antissistêmica, isto é, anticapitalista, caminhando para alguma solução de compromisso com a ordem vigente, ou mesmo para a adesão sem culpa à direita política e/ou intelectual; 2) o apego a uma leitura dogmática e “fechada” do marxismo, para a qual a História ou a Razão inevitavelmente uma hora cumpririam seu papel, negando assim a necessidade de renovação ou atualização da crítica do capitalismo.

Ao mesmo tempo em que continuou reivindicando, política e intelectualmente, o marxismo e o anticapitalismo, Löwy estabeleceu como condição imprescindível a atualização destes a partir das novas condições que se impunham, e que haviam modificado as formas concretas da crítica e da luta contra o sistema. Não é por acaso que, em toda a sua obra desde os anos 1980, é possível perceber implícita ou explicitamente essa preocupação permanente com a renovação do marxismo, o que garante a ela, hoje, uma sensível atualidade, uma vez que exprime problemas e impasses que ainda são os nossos.

Nascido em São Paulo, em 1938, filho de pais judeus recém-chegados de Viena, Löwy vivenciou ativamente – tanto no Brasil quanto, a partir de 1961, em Paris – as esperanças político-revolucionárias da época, em particular na França pós-68, momento em que ocorre uma surpreendente ascensão dos grupos e correntes da esquerda revolucionária no país, dentre as quais aquela em que ele militava: a Liga Comunista, depois rebatizada, em 1974, Liga Comunista Revolucionária, de tradição trotskista mas temperada por algo do clima libertário de maio de 68. A obra de Löwy deste período carrega as marcas dessa atmosfera plena de esperanças na possibilidade de uma subversão revolucionária do capitalismo, embora ele jamais tenha alimentado qualquer crença na inevitabilidade histórica do socialismo. Tratava-se, à época, da “última geração de outubro”, como disse o autor franco-argelino Benjamin Stora, ou seja, da última geração da esquerda radical para a qual a revolução russa de outubro 1917 (greve geral, insurreição de massas e tomada do poder dirigida/liderada pelo partido) era o modelo inescapável.

Tanto em sua primeira tese de doutorado (1964) sobre o jovem Marx, quanto na segunda (1976), acerca do jovem Lukács, a leitura do marxismo que serve de base à análise de Löwy é deliberadamente voluntarista e antideterminista, ancorada na categoria da práxis como eixo da perspectiva teórica e política inaugurada por Marx nas Teses sobre Feuerbach (1845): é na práxis que os homens e mulheres transformam as condições objetivas e, no mesmo processo, transformam-se a si mesmos, isto é, sua própria subjetividade. É na práxis revolucionária, como mostrou o jovem Marx e, depois, o jovem Lukács em História e Consciência de Classe, que se tornaria possível subverter a objetividade reificada vigente, contribuindo ao mesmo tempo para a formação de uma nova subjetividade, de um “novo homem”, para utilizar a expressão popularizada por Che Guevara, outra das inspirações do jovem Löwy, desde a revolução cubana em 1959. Nesse período, até o final da década de 1970, o marxismo de Löwy assentava-se numa leitura singular da tríade Rosa Luxemburgo, Lukács e Goldmann, este último com quem realizou seu primeiro doutorado, em Paris.

Seria a partir da virada para os anos 1980, em meio às transformações do capitalismo e ao início crise do marxismo e da esquerda política e intelectual na França (em especial a partir de 1983, com a virada liberal do governo de Mitterrand) e na Europa, que a obra e a trajetória sofreriam seu maior impacto, em virtude da redescoberta e da incorporação da reflexão político-filosófica de Walter Benjamin. Desde então, Benjamin tornou-se uma referência central na obra de Michael Löwy, contribuindo para uma ampliação significativa tanto do seu horizonte teórico quanto temático, com a incorporação de novas referências e o interesse por formas variadas e inusitadas (alheias ao marxismo) de questionamento não propriamente do capitalismo como modo de produção, mas sim da civilização burguesa no seu conjunto. Pode-se destacar, nesse sentido, além de seu interesse pela constelação de intelectuais judeus “marxizantes” ou “anarquizantes” da Europa Central do início do século XX, sua valorização crítica das manifestações do que ele chamou de “visão de mundo romântica”, do cristianismo de libertação na América Latina, do diagnóstico weberiano da modernidade, ou, mais recentemente, da questão ecossocialista – temas por trás dos quais se nota a presença de Walter Benjamin, seja como matéria ou como inspiração para a análise.

Tanto quanto para Benjamin, para Löwy o marxismo se caracteriza, especialmente a partir de então, não pela crença em um progresso infalível da história, mas sim por uma atualização permanente – atualização, evidentemente, à luz do presente, horizonte inescapável a partir do qual interpretamos ou rememoramos o passado. Daí a sua “abertura” para os novos desafios impostos ao pensamento crítico pela mudança de época pela qual passava o mundo, uma abertura que o estimulou a avançar no conhecimento e na valorização destas formas imprevistas da crítica do capitalismo, tomando-as como elemento para uma espécie de oxigenação do marxismo, com o perdão da metáfora vital.

É por isso que, sob inspiração benjaminiana, o livro toma como ponto de partida a abordagem de Michael Löwy da questão ecossocialista (tema do primeiro capítulo), enquanto manifestação concreta da sua obra/trajetória intelectual mais recente. A acomodação expositiva do livro remete, assim, a uma opção metodológica deliberada: da obra mais “contemporânea” de Michael Löwy pode-se melhor visualizar o desenvolvimento de seu percurso intelectual desde os anos 1960, com ênfase nas suas transformações a partir do final da década de 1970 e começo da seguinte, quando ele transforma o tema da crítica da modernidade em eixo das suas proposições em defesa da renovação do marxismo.

Fórum — Walter Benjamin faz a crítica ao capitalismo além do seu sentido econômico, falando dele como sistema civilizatório. A visão anticapitalista nestes termos é a sua principal influência na obra de Löwy? Que outros aspectos poderíamos destacar?

Fabio Mascaro Querido — Para Benjamin, mais do que um modo de produção, o capitalismo moderno constitui uma forma de civilização, englobando não apenas um tipo específico de produção e reprodução da vida social, mas também uma modalidade particular de subjetividade, bem como de narrativa sobre o presente e o passado – isto é, sobre a história, rescrita à luz dos imperativos da dominação no presente. Na perspectiva benjaminiana, a principal tarefa do que ele chamava de “historiador materialista” é romper com as ideologias do progresso, elaborando uma nova visão da temporalidade histórica, na qual o primado do presente redefine o lugar e o papel do passado (que permanece “aberto”) e do futuro.

Na obra de Michael Löwy, ao lado desta compreensão do capitalismo como um “sistema civilizatório”, pode-se destacar o impacto que a influência de Benjamin teve na forma como ele passou a qualificar as diversas formas de resistência, no passado e no presente, ao progresso destrutivo. Em torno da noção benjaminiana de “tradição dos oprimidos”, Löwy buscou sublinhar os laços de continuidade entre as lutas do passado e as do presente contra o avanço violento da civilização capitalista-moderna. Por esta razão, longe de serem a “locomotiva da história”, como Marx chegou a caracterizá-las em imagem célebre, as revoluções são pensadas, por Benjamin e por Löwy, como um “freio de emergência” ativado pela humanidade a fim de interromper a marcha de um progresso que, na realidade, caminha na direção da catástrofe. É nessa perspectiva que, para Löwy, Walter Benjamin pode ser considerado uma espécie de precursor do ecossocialismo contemporâneo.

Não constitui um acaso, além disso, o fato de que Löwy, simultaneamente à redescoberta de Benjamin, tenha se voltado para a América Latina, região na qual a relação entre política, história e teologia, tão central no pensamento benjaminiano, é um elemento decisivo de vários dos movimentos sociais, da teologia da libertação ao MST e aos zapatistas. Assim, aquilo que na Europa aparecia como mais uma das idiossincrasias do pensamento de Benjamin podia ser visto – guardadas as devidas diferenças e proporções – de forma concreta na América Latina, região caracterizada pela resistência dos movimentos sociais ao avanço de uma modernização capitalista que, além de desigual, revelou-se profundamente destrutiva e violenta, deixando marcas presentes nas sociedades até hoje.

Na base de tudo isso, evidentemente, estava a interpretação específica que Löwy realizava da obra de Benjamin, compreendendo-a como uma articulação incomum entre marxismo (a partir de 1924/5), romantismo e messianismo, no âmbito da qual o elemento “político” estava não apenas presente como era central. Esta, aliás, a originalidade da leitura benjaminiana de Michael Löwy, ao lado daquela realizada por seu “cúmplice” nas “heresias marxistas” Daniel Bensaïd (falecido em 2010): para ambos, o marxismo heterodoxo de Benjamin é político e messiânico a um só tempo, na contramão, por exemplo, das interpretações marxistas da obra do filósofo alemão identificadas com sua faceta mais “materialista” e brechtiana. Ambos ocupam, assim, Michael Löwy e Daniel Bensaïd, um lugar único na história da recepção (marxista ou não) da obra multifacetada e complexa de Walter Benjamin, obra que hoje se revela portadora de uma intempestiva atualidade.

Fórum — Löwy vê o romantismo como uma visão de mundo e como protesto cultural contra a civilização moderna-industrial. Como esse conceito se destaca na renovação do marxismo defendida por ele?

Fabio Mascaro Querido — O interesse de Michael Löwy pelo romantismo começou já em sua tese sobre o jovem Lukács (1976), tese na qual ele analisou o processo de evolução da obra filósofo húngaro da sua fase niilista-romântica até a descoberta e adesão ao marxismo revolucionário por volta de 1916/7, em meio ao traumatismo ético-cultural da guerra e, sobretudo, à revolução russa. Para Löwy, longe de se constituir numa fraqueza, esse legado romântico, dialeticamente integrado ao marxismo do jovem Lukács, constituía uma das principais razões da sua acuidade crítica, tal como revelada, por exemplo, no estudo sobre a reificação em História e Consciência de Classe.

Na tese sobre Lukács, porém, Löwy ainda defendia que o marxismo implicava na superação do romantismo – hipótese criticada por Raymond Williams em uma resenha da versão inglesa do livro e que, segundo reconhece o cientista social franco-brasileiro, o ajudou a repensar a questão da relação entre os anticapitalismos romântico e marxista. É o que aconteceria a partir do início da década de 1980, primeiro em suas pesquisas sobre os intelectuais judeus anticapitalistas “marxizantes” ou libertários na Europa Central do início do século XX, em seguida num esforço de releitura sistemática e global do próprio romantismo, modificando a fundo a forma de enxergar a questão. Como se vê nos seus trabalhos sobre a temática – muitos dos quais realizados em conjunto com o sociólogo/crítico literário norte-americano Robert Sayre -, mais do que uma corrente literária e/ou artística do século XIX, o romantismo deve ser compreendido como uma visão social de mundo, nos termos de Lucien Goldmann (sua principal referência metodológica), uma visão de mundo que perpassa os mais diferentes “campos”, da literatura à filosofia, da política às artes plásticas. Segundo Löwy, a especificidade da visão de mundo romântica em relação às outras cosmovisões modernas reside no fato de que se trata de um “protesto cultural” contra a civilização moderna-industrial que, sem deixar de ser uma crítica moderna da modernidade (tanto quanto, por exemplo, o marxismo), inspira-se em aspectos reais ou imaginários do passado como fontes para a crítica do presente.

A partir de então, em chave benjaminiana, o romantismo tornou-se elemento central nas proposições de Löwy em defesa da renovação do marxismo, servindo-lhe como mais um aspecto para uma nova visão da temporalidade histórica, em oposição à “temporalidade vazia e homogênea” do progresso dos vencedores. Ao mesmo tempo, a reelaboração da temática do romantismo, com a valorização do “romantismo revolucionário”, significava uma atualização da sua defesa, presente desde seus primeiros trabalhos, do marxismo como um “humanismo revolucionário”, voltada para a dupla e simultânea tarefa de transformação do mundo “objetivo” e de mudança da “subjetividade”. É nessa crítica “humanista” às “calamidades sociais” provocadas pelo capitalismo (conforme as palavras de Marx em O Capital) que residem as afinidades entre marxismo e romantismo, na repulsa ética comum (embora divergentes no seu objetivo final) a um sistema visto como desumano e guiado por uma racionalidade meramente instrumental, alheia às necessidades humanas e naturais concretas. Levando essas afinidades às últimas consequências, Löwy não hesitaria em defender a existência de um “marxismo romântico” (uma das expressões do “romantismo revolucionário”), cujo representante máximo seria, é claro, Walter Benjamin!

Fórum — No livro, você demonstra que a crítica da modernidade de Löwy se diferencia substancialmente da rejeição pós-moderna às narrativas filosóficas. Como sintetizar os principais pontos que a distinguem?

Fabio Mascaro Querido — A crítica da modernidade tomada por Löwy como eixo de suas proposições acerca da renovação do marxismo constitui, como ele ressalta, uma “crítica moderna da modernidade”, no sentido de que, embora antagônica à dimensão propriamente capitalista e eurocêntrica da modernidade, não abandona os ideais emancipatórias vinculados ao imaginário moderno, em torno de temas como a liberdade e/ou a igualdade. Trata-se, enfim, de uma crítica anticapitalista da modernidade. Deste modo, se ela se diferencia das concepções “positivadoras”, digamos assim, da modernidade, como a de Habermas, por exemplo, a crítica da modernidade proposta por Löwy tampouco se identifica, bem ao contrário, à liquidação pós-moderna das “grandes narrativas” à Lyotard e congêneres, reduzindo-as sem distinção à condição de alguma metafísica totalitária.

Em outras palavras, pode-se dizer que, seguindo o termo que ele mesmo atribui a Benjamin, Löwy defende uma espécie de “grande narrativa heterodoxa”, na qual – em uma época marcada pela ruptura definitiva entre socialismo e progresso – a luta por um outro mundo possível (e cada vez mais necessário) não está ancorada em alguma crença teleológica na História com maiúsculas, mas sim na ação e imaginação dos homens e mulheres fazendo a sua própria história, na imanência de sua práxis. A aposta (sem nenhuma garantia de vitória) na possibilidade de construção de um novo mundo não implica, assim, o apego a algum esquema transcendente (uma “grande narrativa”, se quisermos) que se imporia, de fora, aos homens e mulheres reais.

Mesmo porque, muito do debate sobre o fim das “grandes narrativas” e a consequente “mudança de paradigma” constitui apenas uma forma de se esquivar da questão central: o esgotamento histórico das ideologias – em parte retomadas pela esquerda – do progresso, nas suas mais variadas formulações. O que faz Löwy, ao lado de alguém como Daniel Bensaïd, é tentar mostrar que é possível uma leitura de Marx e de uma certa tradição marxista (a “corrente quente” de que falava Bloch) capaz de responder de modo satisfatório aos questionamentos dos profetas do fim das grandes narrativas, sem que para isso seja necessário a recaída – mais uma vez – na proclamação de uma superioridade vinculada a uma finalidade histórica preestabelecida, real porque racional, parafraseando Hegel.

Fórum — Em que setores, partidários ou não, e movimentos brasileiros e estrangeiros podemos ver a influência ou traços do ecossocialismo defendido por Löwy?

Fabio Mascaro Querido — Desde o final da década de 1970, ou seja, quase simultaneamente à virada benjaminiana pela qual passava a sua obra, e no contexto da elaboração de sua visão singular do romantismo, Michael Löwy já começou a revelar certa sensibilidade ecológica: no livro Marxismo e romantismo revolucionário, publicado na França em 1979, chamou atenção para a ameaça de uma “ruptura catastrófica do equilíbrio ecológico do planeta”, o que exigia, na sua opinião, a necessidade de se “reencontrar a dimensão romântico-revolucionária do marxismo”. Mas seria apenas mais recentemente que ele se engajaria mais diretamente, política e intelectualmente, na defesa do ecossocialismo – “corrente de pensamento e de ação” que, apesar das diferenças entre os que nela se identificam, assenta-se no diagnóstico comum de que o capitalismo é o verdadeiro responsável pela crise ecológica, e portanto a “solução” desta exige a reconstrução de uma perspectiva socialista, mas de um socialismo livre de suas versões produtivistas e aberto aos ensinamentos dos movimentos ecológicos radicais.

Em 2001, Michael Löwy co-redigiu ao lado do norte-americano Joel Kovel o Manifesto Ecossocialismo Internacional, que, apesar de sintético, serviu para reativar e atualizar a perspectiva ecossocialista em vários países da Europa, da América Latina, além dos EUA e do Canadá. Em 2003, no Fórum Social Mundial (do qual aliás sempre foi um entusiasta) de Porto Alegre, participou da fundação da Rede Brasil de Ecossocialistas e, quatro anos mais tarde, em Paris, da Rede Ecossocialista Internacional. Voltaria a redigir, em 2009, o segundo manifesto ecossocialista internacional, lançado no FSM de Belém. Na França, em particular, tornou-se animador do debate ecossocialista no âmbito da esquerda radical, dentro e fora das organizações a qual pertenceu: a LCR e, desde 2009, o Novo Partido Anticapitalista. Ao mesmo tempo, Löwy contribuiu intelectualmente para as discussões em torno da questão com a publicações de livros e ensaios em vários países e/ou línguas.

Fórum — Em entrevista, Löwy disse que a esquerda ainda não está atenta à questão ecológica, em parte por conta da crença da ideologia do progresso. Você concorda? Como vê essa questão no Brasil e também em outros países?

Fabio Mascaro Querido — Na verdade, infelizmente, ainda hoje, o que se percebe é uma desconfiança mútua, salvo exceções importantes mas insuficientes, entre a esquerda e o movimento dos trabalhadores de um modo geral e os movimentos ecológicos, uma desconfiança apenas parcialmente justificável. Do lado da esquerda, em especial da esquerda marxista, tornou-se hegemônico, da II Internacional ao stalinismo, passando pelas correntes modernizadoras e/ou desenvolvimentistas na periferia do sistema, uma visão “produtivista”, apoiada em uma concepção fetichista do “desenvolvimento das forças produtivas” tomado como fator decisivo do “progresso”. Até certo ponto essa visão estava em Marx, mas como elemento de uma análise dialética que, se chegou a flertar com as ideologias do progresso, jamais deixou de revelar, ora mais ora menos, o reverso destrutivo do progresso capitalista. Nos Grundrisse, por exemplo, Marx chama a atenção para a necessidade de “não se tomar o progresso em sua forma habitual”. É este “outro lado” da história, marcada pela recorrência da barbárie, que é ignorado pelos apologetas marxistas do progresso. Toda essa tradição, que deixou marcas profundas, está longe de ser superada, embora já se tenha dado passos importantes nessa direção, e a própria existência (ainda que restrita) do debate ecossocialista, envolvendo intelectuais marxistas importantes como Löwy, dentre vários outros, constitui uma amostra disso.

Pode-se compreender assim porque, para Löwy, a questão ecológica constitui um dos principais desafios à renovação do marxismo, uma vez que coloca em causa aspectos centrais que pautaram historicamente uma parcela significativa da esquerda política. Trata-se também, por outro lado, de oportunidade para um acerto de contas mais do que necessário, urgente. Daí a importância crucial, hoje, de uma abertura da esquerda marxista para o diálogo franco e respeitoso com os movimentos ecológicos radicais, potencialmente anticapitalistas, diálogo cujo objetivo teórico “interno” deve ser a radicalização e o aprofundamento daqueles aspectos da obra de Marx e dos marxistas do século XXI mais críticos em relação às teleologias do progresso e/ou das forças produtivas, a fim de confrontar uma crise que diz respeito não apenas ao “meio-ambiente” em si, mas ao modelo civilizatório vigente.

Da mesma maneira, os movimentos ecológicos precisam avançar na compreensão dos laços íntimos do “produtivismo” legitimamente criticado com o capitalismo, ainda que aquele também se tenha sido posto em marcha nos países ditos “socialistas” do leste europeu e na ex-URSS. A crítica ao produtivismo remete, necessariamente, à crítica ao capitalismo, bem como, portanto, à necessidade do controle radicalmente democrático da produção e da definição das necessidades humanas e naturais.

Na França, em parte graças à intervenção de intelectuais como Michael Löwy, este debate parece mais avançado no âmbito da esquerda política, se comparado ao Brasil, por exemplo. Para a quase totalidade da esquerda francesa (aí incluído o PCF), a questão ecológica constitui um aspecto central de um projeto socialista renovado. Não é por acaso que Löwy mantém boas relações com várias destas correntes, do NPA (Novo Partido Anticapitalista) à Frente de Esquerda, passando até mesmo pela esquerda dos Verdes, galgando-se assim como um interlocutor importante sobre a questão.

Fórum — Recente pesquisa da Universidade de Harvard, que entrevistou jovens estadunidenses com idade entre 18 e 29 anos, revelou que 51% deles não apoiam o capitalismo e o apoio desse segmento à candidatura Bernie Sanders é uma mostra de que as novas gerações não enxerguem o sistema capitalista como algo tão natural, ao menos naquele país. Esse seria o momento para uma guinada ou uma ruptura, a partir de princípios como o do ecossocialismo e de um marxismo renovado?

Fabio Mascaro Querido — Embora possa parecer um paradoxo, já que uma alternativa concreta ao capitalismo parece longe do nosso horizonte imediato, há hoje ainda mais razões para se lutar contra o sistema capitalista, talvez mais do que nunca. Jamais o capitalismo revelou-se tão destrutivo, social e ecologicamente, acrescentando à “barbárie moderna” do século XX (guerras, fascismos, massacres, genocídios etc.) um novo rol de possibilidades de destruição social, do desemprego estrutural à situação dos imigrantes na Europa, passando pelo perigo da catástrofe ecológica, que coloca em risco as próprias condições para a vida humana no planeta. Em vários cantos do mundo, vive-se na prática aquilo que Benjamin chamou de “estado de exceção permanente”, com a ascensão da extrema-direita e a redução das democracias à condição de gestão da econômico-policial de um sistema em crise. Basta ver, para dar um exemplo que nos toca, o que ocorre atualmente no Brasil, onde o golpismo neoliberal não hesita em tentar impor à força, via golpe parlamentar (com aparência e forma “legal”), um programa (liberal-conservador) que dificilmente seria chancelado pelas urnas.

Nesse contexto, se o capitalismo contemporâneo, pretensamente o horizonte insuperável da história humana, não necessita mais das justificativas ético-morais de que lançou mão na época de sua ascensão e consolidação, tamanho é hoje o seu grau de naturalização, isso pode significar, por outro lado, que em especial a juventude tampouco tem razões para chancelar de forma “positiva” e militante o sistema capitalista, responsável pela reversão de expectativas da qual os jovens são os mais atingidos, objetiva e subjetivamente, se assim podemos dizer.

Enquanto crítica permanente ao sistema (o capitalismo) contra o qual deve sua razão de ser, o marxismo pode voltar a ser uma referência importante, talvez decisiva, para as novas gerações. A despeito das atrocidades cometidas em seu nome, bem como da persistência de leituras dogmáticas e “engessadas” da filosofia de Marx, ele continua, na sua pluralidade (melhor seria falar em “marxismos”), sendo a perspectiva política e intelectual com os melhores instrumentos para a análise e a crítica ao capitalismo, mesmo em se tratando do capitalismo contemporâneo, cujas formas de realização diferem-se consideravelmente daquelas que vigoravam no tempo de Marx ou até meados do século XX.

Tudo depende do modo como concebemos o marxismo: se o vemos como um sistema filosófico pronto e acabado, “fechado”, à maneira idealista, sem dúvida dificilmente ele poderá reemergir como um elemento da crítica e da luta contra o capitalismo tal como ela ocorre na atualidade; se, por outro lado, o compreendemos como uma teoria crítica “aberta”, na qual o aparato conceitual é permanentemente reelaborado à luz do presente, aí sim ele poderá interpelar, como parte integrante, as formas contemporâneas de resistência ao sistema, buscando contribuir para a unificação estratégica contra um inimigo comum: o capital. Como disse Gramsci certa vez, se pode prever que haverá luta, mas não o seu desfecho, e tampouco, poder-se-ia acrescentar, o papel que o marxismo terá nesta luta.

Foto de capa: https://www.flickr.com/photos/mabi/



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