Homofobia é a palavra certa

O massacre na boate Pulse, em Orlando, desnuda a responsabilidade que o fundamentalismo religioso e também os valores falocêntricos ocidentais têm sobre a verdadeira raiz de uma violência que encontra no terrorismo só mais um meio de expressão: o medo.

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O massacre na boate Pulse, em Orlando, desnuda a responsabilidade que o fundamentalismo religioso e também os valores falocêntricos ocidentais têm sobre a verdadeira raiz de uma violência que encontra no terrorismo só mais um meio de expressão: o medo

Por Murilo Cleto

Há quem tenha, de modo bem intencionado, compartilhado uma frase falsamente atribuída ao ator Morgan Freeman para expressar repúdio ao maior massacre a tiros da história dos EUA, realizado nas primeiras horas do último domingo (12) na boate Pulse, em Orlando. Nela, Freeman diz algo como: “Eu odeio a palavra homofobia. Não é uma fobia. Você não tem medo. Você é um imbecil”.

A despeito da plausibilidade da lógica a priori, a verdade é que homofobia é a palavra certa para classificar o que houve na Flórida. Em sua coluna na Folha de S. Paulo, o psicanalista Contardo Calligaris explica com precisão: “quando alguém se sente compelido a agir para impedir ou punir uma conduta sexual diferente da sua é que, de fato, ele está tentando reprimir seu próprio desejo de se engajar nessa conduta diferente”.

Segundo Calligaris, “quem agride, abusa ou tenta inibir os membros de uma minoria sexual está tentando reprimir nele mesmo um desejo que, às vezes, ele nem sequer consegue reconhecer. E, em geral, quem se dá a pena de legislar em matéria de sexo está tentando reprimir nele mesmo um desejo inconfessado de cair na ‘gandaia’ que ele quer conter”.

E o nome disso é medo. Certa feita, Michel Foucault especulou a natureza deste temor de modo brilhante. “Acho que o que mais perturba quem não é gay é a forma de vida gay, e não os atos sexuais. […] Eu me refiro ao temor geral de que os gays desenvolvam relações intensas e satisfatórias apesar de não se ajustarem à ideia que os outros têm do que sejam essas relações. O que muitas pessoas são incapazes de tolerar é a possibilidade de que os gays sejam capazes de criar tipos de relações não previstas até agora.”

É por isso que não é totalmente verdadeira a constatação de que Omar Mateen, o autor do massacre, se indignava pelo fato de o filho de três anos poder ver dois homens se beijando. O que ele temia era que o filho visse o pai beijando outro homem.

Mas Calligaris precisou ir além. Porque o Ocidente encontrou um álibi para a morte de 49 LGBTs. Afinal, tratava-se de um militante do Estado Islâmico. E nada mais confortável do que atribuir a uma das mais monstruosas máquinas de matar do presente a responsabilidade sobre mais um massacre, dentre tantos outros, no lado de cá do planeta.

Também na Folha de S. Paulo, Kim Kataguiri, líder do Movimento Brasil Livre, disse que “não foi uma cultura da homofobia que matou as 49 pessoas em Orlando. Foi um terrorista do Estado Islâmico. […] E é preciso que se conheça o mal que se combate para que se indique o remédio correto”. Não são poucos os meios de comunicação que têm insistido no termo “terrorismo”, ocultando a homofobia, para caracterizar o horror em Orlando.

O remédio, sob esta ótica, é a eliminação do Islã – ou, ao menos, da sua expressão mais radicalizada. Mas ele oculta os assombrosos índices de violência no Brasil. Em fevereiro, o terceiro relatório de violência homofóbica, publicado pelo recém-extinto Ministério das Mulheres, da Igualdade Racial e dos Direitos Humanos, destaca 1.965 denúncias de 3.398 violações relacionadas à população LGBT, envolvendo 1.906 vítimas e 2.461 suspeitos no ano de 2013. O próprio ministério reconhecia, no entanto, que os números oficiais estão distantes de representar a totalidade, graças à limitação de campanhas que reforcem a importância das denúncias.

Para levantar o tapete que escondia a realidade sobre a violência contra LGBTs no país, surgiu o Grupo Gay da Bahia. De acordo com a associação, em 2015 foram pelo menos 318 assassinatos com motivação homofóbica no Brasil. É o equivalente a 6 massacres como o da boate Pulse.

Por isso, Calligaris alerta que há bem mais responsáveis por Orlando do que se faz crer. Eles estão expressos no fundamentalismo religioso que atravessa os discursos do pai do atirador, que diz que cabe a Deus julgar os homossexuais, e de padres e pastores que sugerem a “cura gay”. Mas também nas piadas inocentes sobre “veados” e “travecos”.

Porque, a rigor, são eles que contribuem para que o sujeito não admita em si o desejo de um objeto desautorizado de antemão como indesejável. Não é por acaso, portanto, que o auge das manifestações homofóbicas entre homens se dê justamente durante a adolescência, quando a masculinidade ainda está em construção e precisa de constante reafirmação.

Entender essa dinâmica, segue Calligaris, é crucial. “O discurso homofóbico é um instrumento de propaganda política e religiosa eficiente porque ele instiga os muitos reprimidos e enrustidos a odiar e silenciar seu próprio desejo – que é o que eles querem. Agora, esses reprimidos e enrustidos, assim instigados, tornam-se assassinos de Orlando: lincham ou massacram qualquer um que se pareça com aquela parte deles mesmos que eles foram instigados a suprimir”. E enquanto o inimigo for tão somente o Estado Islâmico, não é preciso combatê-la.

Sobre o assassinato do irmão homossexual, morto em 1987 com 107 facadas, o dramaturgo Zé Celso costuma dizer que apenas 7 seriam o suficiente para eliminar a vida de um homem. O que se quer matar com 107 – ou com os milhares de tiros em Orlando – é algo que está no agressor e que ele, sozinho, não pode.

É possível melhorá-la, afinal o termo homofobia não explica sozinho o horror a trans e bissexuais, por exemplo. Mas homofobia é a palavra certa. Negá-la é negar também a natureza de uma violência que encontra no terrorismo um – e sem dúvidas o mais terrível – dos seus meios de expressão.

Foto: Gerardo Mora / Getty Images



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