Opinião: Haddad irá para o 2º turno, mas é preciso se abrir se quiser vencer pela esquerda

“Sua gestão organizou uma visão de esquerda na cidade, o credenciando para ocupar novamente esse campo, a despeito dos erros cometidos nas jornadas de junho de 2013, quando ficou a reboque do Alckmin. O...

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“Sua gestão organizou uma visão de esquerda na cidade, o credenciando para ocupar novamente esse campo, a despeito dos erros cometidos nas jornadas de junho de 2013, quando ficou a reboque do Alckmin. O que se espera dele é que seja um líder de uma esquerda renovada, papel que ele tem dificuldade de cumprir e que causa muita frustração diante da expectativa criada pelos seus próprios êxitos”. Leia o artigo de Josué Medeiros

Por Josué Medeiros*

Em meio à conjuntura do golpe contra a presidenta Dilma, a disputa municipal de 2016 ganha importância renovada. Trata-se de atuar para que as forças democráticas terminem o processo bem posicionadas, fortalecendo assim a resistência aos ataques que o governo golpista seguirá desferindo contra os direitos inscritos na Constituição de 1988. Não será tarefa fácil, porém não é nada impossível, apesar da divisão do campo anti-golpe entre o atual prefeito Fernando Haddad pelo PT e a ex-prefeita Luiza Erundina pelo PSOL.

Em nenhuma disputa de votos é possível prever o resultado com certeza absoluta, embora possamos antecipar as principais tendências e com isso preparar melhor uma intervenção na realidade. Para a cidade de São Paulo, convém recorrer ao passado para nos ajudar a entender os cenários presentes e as perspectivas futuras. Na capital paulista, todas as disputas desde 1985 foram protagonizadas por três blocos. Um à esquerda, liderado pelo PT, com peso nas periferias e nas classes trabalhadoras sindicalizadas. Outro, à direita, cuja força reside em um tipo de classe média muito numerosa em São Paulo, composta por pequenos empresários, burocracia estatal, trabalhadores autônomos. O malufismo foi a principal expressão desse setor. E um centro, composto por uma classe média mais intelectualizada, profissionais liberais e lideranças empresariais, a qual o PSDB tentou representar antes de ocupar o espectro da direita em definitivo.

As sucessivas eleições foram marcadas por uma disputa entre a esquerda e a direita desse “centro”. Quem consegue hegemonizar essa classe média do chamado “centro expandido” da cidade, conquista a prefeitura. Em 1985, Jânio Quadros venceu com 37%, recebendo os votos da direita. Ele derrotou FHC, então no PMDB, com 34%, que era o partido de oposição ao regime militar, uma centro esquerda que perdia espaço para o crescimento do PT, com Suplicy, que teve 20%. Nesse ano ninguém hegemonizou a classe média do centro expandido, que se dividiu entre FHC e Suplicy.

Em 1988, o PT consolida o campo da esquerda e vence as eleições com 30%, contra 25% de Maluf. Já o centro apresentou-se dividido pois o PSDB havia recém surgido. Com isso, o PMDB teve 15% com João Leiva, porém seu vice era do PFL (atual DEM), já indicando um deslocamento do centro para a direita. E o PSDB obteve 5% com José Serra. A vitória do PT com Erundina se consolidou nos últimos dias com uma migração intensa da classe média em protesto contra o assassinato pelas forças do governo federal de três operários que faziam greve na Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) em Volta Redonda.

Nesse pleito estabeleceu-se um padrão de polarização esquerda versus direta com um centro fragilizado, o que só seria quebrado em 2004. Nas eleições de 1992, 1996 e 2000, a disputa se deu entre o malufismo e o petismo, com o PSDB relegado a um eterno terceiro lugar. Em 1992, Maluf tem 37% e Suplicy fica com 23%. Novamente, o centro se divide entre PMDB (Aloysio Nunes) e PSDB (Serra), os dois somando 15%. No segundo turno, Maluf vence com 58% contra 42% para o candidato petista, conseguindo arrebatar a classe média insatisfeita com os muitos conflitos internos da gestão Erundina, que por seu turno sofreu pesada oposição da grande mídia, com a superexposição dos problemas e o boicote aos acertos e realizações positivas. Em 1996, Pitta, sucessor de Maluf, atinge no primeiro turno 44%, Erundina faz 22% e o Serra com 15%. No 2º turno, deu Pitta com 62%, Erundina com 38%, já no quadro do Plano Real, com o PT isolado da classe média ainda satisfeita com a paridade dólar-real.

Em 2000 vem a segunda vitória petista. A classe média adere em peso à candidatura de Marta Suplicy, tanto pelo desastre da administração Pitta quando pela crise nacional do governo FHC. A futura prefeita obtém 38%, a maior votação do PT no primeiro turno, enquanto Maluf faz 17,40% e vai para o 2º turno com vantagem de apenas 8 mil votos sobre o PSDB de Alckmin, com 17,26%. Marta terminou vencendo as eleições, com 58%.

Em 2004, pela primeira vez o campo malufista fica fora do segundo turno. Serra conquista 43% dos votos e Marta, 36%, com Maluf obtendo 11%, sua menor votação até então. No segundo turno Serra faz 55% e Marta, 45%. Contudo, uma leitura mais atenta ao que ocorreu percebe que não foi o centro que venceu, mas sim a direita que trocou o seu protagonista. A gestão Marta teve um cunho fortemente popular e o PSDB não hesitou em se colocar como representante do antipetismo, esvaziando um desgastado malufismo, herdando os votos que esse campo sempre teve e hegemonizando a classe média para a direita. Esta eleição estabeleceu um novo padrão: o PSDB ocupa a direita, impedindo o surgimento de novos “Malufs”, e ao PT cabe a hegemonia no campo da esquerda. Na classe média, se consolida um antipetismo reacionário que depois só faria crescer em expressão política e radicalização programática contra os direitos e as liberdades.

Em 2008 o PSDB teve, na prática, dois candidatos, com Gilberto Kassab, do DEM, que se tornou prefeito com a renúncia de Serra para disputar e ganhar a eleição para governador. Serra o apoiou contra o candidato do seu partido, Alckmin. O resultado do primeiro turno foi Kassab com 33%, Marta com 32% e Alckmin com 22%. No segundo turno Kassab vence com tranquilidade, 61% contra 39% de Marta. Maluf ainda concorreu outra vez, obtendo 6%, cada vez mais relegado a ser somente passado.

Em 2012, repete-se o quadro, com novos e velhos personagens. Pela direita, Serra, com 30% dos votos. Pela esquerda, Haddad, que começou a eleição com 2%, e terminou com 29%, o patamar de votos que a esquerda sempre teve. Por fim, Celso Russomano fez 21%, reconstruindo o espaço da direita malufista. Vale lembrar que Russomano liderou as intenções de voto em boa parte do processo, mas não se sustentou diante da força do padrão estabelecido 2004, desde que o PSDB abandonou o centro e ocupou a direita. Outro dado importante é que novamente a classe média optou pelo PT, rejeitando Serra pelo seu descompromisso com a cidade.

O que esse passado diz para 2016? De início, é preciso confrontar o padrão eleitoral com a atual crise política. O golpe, a criminalização da política em geral e do PT em particular, a rejeição aos governos Haddad e Dilma (esquerda) e Alckmin e Temer (direita golpista) são elementos que podem abrir espaço para figuras de fora do sistema político.

Haddad estará no 2º turno. Sua gestão organizou uma visão de esquerda na cidade, o credenciando para ocupar novamente esse campo, a despeito dos erros cometidos nas jornadas de junho de 2013, quando ficou a reboque do Alckmin. O que se espera dele é que seja um líder de uma esquerda renovada, papel que ele tem dificuldade de cumprir e que causa muita frustração diante da expectativa criada pelos seus próprios êxitos.

Erundina fará, no máximo, o papel que o Suplicy fez em 1985. Ocupar um espaço de extrema-esquerda sem condições de disputa real. É um movimento legítimo, que pode ser alimentado pela crise política, mas sem condições de se tornar hegemônico na esquerda. Marta é carta fora do baralho. Não tem nenhuma chance de protagonizar a disputa. Apenas cumprirá o patético papel de fustigar o Haddad a serviço da direita golpista.

A direita está dividida em três blocos internos desde 2008. Serra e Kassab vão de Andrea Matarazzo pelo PDS, Alckmin vai de João Dória pelo PSDB e Russomano se reapresenta pelo PRB, novamente liderando as intenções de voto. As elites apostam que esse fracionamento não vai enfraquecer o seu campo e, ao contrário, espera que ajude a impedir a presença do PT no segundo turno. É algo pouco provável diante do histórico que vem desde 1985. Porém, o atual contexto permite imaginar um segundo turno entre João Dória e Celso Russomano, compondo um quadro infernal para a cidadania brasileira.

Impedir que esse cenário trágico se concretize é tarefa de quem luta pelos direitos e liberdades nesse país. É urgente que Haddad e Erundina façam um pacto de não agressão e apoio no segundo turno similar ao que Freixo, Molon e Jandira estabeleceram no Rio de Janeiro. Não deve haver cobranças de que o campo anti-golpe chegue unificado já no primeiro turno em São Paulo, mas é fundamental que não haja ataques entre as forças que estarão juntas nas ruas combatendo o governo golpista e defendendo a Constituição. Erundina tem muita responsabilidade nesse cenário, pois seu voto é de classe média e o ambiente da eleição será de crítica generalizada ao prefeito pelas forças da direita.

É fundamental também que Haddad abra sua campanha para além dos partidos, buscando envolver a sociedade civil organizada. São Paulo vive atualmente uma efervescência cidadã, com diversos novos coletivos, articulações e redes ocupando o espaço público e produzindo novos territórios de cidadania nas periferias, para além da geografia da classe média progressista; criando novas formas de cultura e novas linguagens; produzindo novas práticas democráticas; distribuindo o poder a partir do protagonismo feminista, anti-racista, anti-homofóbico e com um corte geracional jovem muito potente.

É preciso que esse novo mundo que ainda está ganhando vida entenda a importância das eleições de 2016 para o futuro da democracia, e isso só será possível se as instituições da esquerda (partidos, sindicatos) se abrirem para isso. Haddad precisa liderar esse processo de abertura, aproveitando que pela campanha é possível instituir fóruns mais amplos que a estrutura partidária. Até aqui ele tem mostrado ambiguidade para essa tarefa, ora se fechando em sua racionalidade academicista, ora se abrindo para o novo ativismo.

Não é só o resultado das eleições de 2016 que depende dessa aliança entre as novas formas da cidadania e a tradição da esquerda socialista e democrática corporificada nos partidos, mas também a própria defesa da democracia no Brasil. Que ele repita 2012, quando apareceu como sopro de renovação, e não 2013, quando se colocou contra as ruas, para que vença e fortaleça com mais quatro anos uma concepção de cidade cidadã e igualitária.

Foto de Capa: Rovena Rosa/Agência Brasil

*Josué Medeiros é cientista político e militante do coletivo Arrua



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