Eu sou um risco social. Venceremos!

“Demorei a decidir os termos em que enunciaria a minha resposta pública a mais um abuso moral que sofri por parte de uma autoridade do poder público. Pode parecer que demorei apenas cerca de...

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“Demorei a decidir os termos em que enunciaria a minha resposta pública a mais um abuso moral que sofri por parte de uma autoridade do poder público. Pode parecer que demorei apenas cerca de um mês, desde que tomei conhecimento em junho do presente ano de um vídeo produzido e publicado por Marco Feliciano associando meu rosto e meu nome, novamente, a crimes sexuais e abuso contra crianças. Demorei pelo menos quatro anos, já que desde a saga de difamação e calúnia iniciada por Jair Bolsonaro contra a minha pessoa, em 2012, eu nada mais havia feito do que vir a público acusar a virulência danosa dos senhores da má-fé”

Por Tatiana Lionço*

Talvez uma das tarefas mais difíceis seja renunciar ao ímpeto da atuação odiosa. As emoções têm uma dimensão contagiosa, de modo que quando somos atingidas pelo ódio alheio passamos a também odiar. O exercício do pensamento, no entanto, pode nos livrar deste afã imediatista, nos recuperando da impotência que é se deixar dominar pelos outros e seus afetos. Por mais agressiva e violentamente eficaz que nossa reação ao ódio que nos dirigem possa ser, render-se ao afeto alheio é da ordem de uma impotência de si, a ruína de deixar-se reduzir ao modo de ser que teve no outro a própria agência. Eu diria que renunciar ao próprio ódio nestas situações e então dispor de autonomia suficiente para transpor tais afetos para o campo da reflexão crítica é já um modo de vencer.

Demorei a decidir os termos em que enunciaria a minha resposta pública a mais um abuso moral que sofri por parte de uma autoridade do poder público. Pode parecer que demorei apenas cerca de um mês, desde que tomei conhecimento em junho do presente ano de um vídeo produzido e publicado por Marco Feliciano associando meu rosto e meu nome, novamente, a crimes sexuais e abuso contra crianças. Demorei pelo menos quatro anos, já que desde a saga de difamação e calúnia iniciada por Jair Bolsonaro contra a minha pessoa, em 2012, eu nada mais havia feito do que vir a público acusar a virulência danosa dos senhores da má-fé que buscam me reduzir à odiosa representação que eles próprios fazem da luta por direitos humanos e direitos sexuais em curso no país. Em 2014, apenas vociferei indignação denominando então como estupro moral a ação de Ronaldo Fonseca contra mim, tendo ele me usado na campanha de sua reeleição para a câmara legislativa como exemplo do que ele alega ser o espírito do anti-cristo no suposto projeto maléfico de destruição da igreja e da família.

Hoje, o que tenho a dizer é que tais autoridades do poder público, que me recuso a denominar como deputados federais porque não os reconheço senão como equívocos históricos, podem estar certos de que eu sou um risco civilizatório. Não é o caso de mais uma vez vir a público me defender contra a acusação de que eu seria um risco social. Eu sou um risco social e tais senhores da má fé me ajudaram a compreender que talvez eu seja mesmo uma ameaça bem maior do que eu poderia supor por minha representação de mim mesma antes dos ataques morais que venho sofrendo há quatro anos. Eu sou uma feminista decidida a afrontar a dominação masculina patriarcal, sexista, cis-sexista, homofóbica, lesbofóbica, putafóbica, transfóbica, racista, classista, capacitista. Podem me considerar também uma ameaça contra todos os projetos políticos que visam retroceder para a lógica da objetificação e domínio de posse sobre crianças e adolescentes. Mesmo que tivessem conseguido me enlouquecer eu ainda seria uma ameaça pois também estou implicada na luta antimanicomial e saberia encontrar espaços apropriados para a loucura se manifestar e fazer reconhecer e respeitar.

Como se não bastasse eu não ter enlouquecido, desistido e me rendido à vergonha da humilhação pública na era das centenas de milhares de visualizações da imagem de si como vexame, eu sobrevivi o suficiente para conquistar uma vaga de professora em uma das melhores universidades federais do país. Posso dizer que foi uma conquista e tanto, as fogueiras simbólicas de extermínio de demônias não foram suficientes para derrubar o rito legal de acesso democrático a cargos no poder público. A impotência dos senhores da má fé é tamanha que continuo implicada diariamente no projeto de arruinar a civilização patriarcal que naturalizou a desigualdade e legitimou a opressão. Faço isso discutindo política diariamente com variadas pessoas em formação universitária, da Matemática à Música, da Biologia à História, da Química à Geografia, que encontram no espaço da sala de aula a oportunidade de ler e aprender com textos acadêmicos que vão do feminismo negro às reflexões sobre educação produzidas por travesti com doutorado na área.

Minha melhor resposta pública hoje é que tais senhores da má fé não me impedem minimamente de estabelecer um ambiente democrático em sala de aula em que a liderança evangélica, o homem trans, a jovem que conquistou vaga por meio de cotas raciais, o rapaz branco de classe média, o policial militar, ou mesmo quaisquer outras pessoas que estejam em situação de formação acadêmica de licenciatura, possam experimentar a convivência e o diálogo. Estou convencida de ser o terror dos reacionários patriarcais pois eu sou uma agenciadora de encontros improváveis, sou uma mediadora das possibilidades de coexistência democrática entre diferentes sujeitos sociais que a má fé pretende que se odeiem.

Um dos motivos pelos quais demorei a publicar esta reposta a mais um ataque contra a minha pessoa é que poucos dias após tomar conhecimento sobre o video do Marco Feliciano eu fui surpreendida com a notícia de que na noite de 17 de junho um grupo de pessoas atacou com bombas caseiras, ameaça com arma de choque e discursos de ódio racistas e homofóbicos estudantes na Universidade de Brasília, instituição na qual sou servidora pública no exercício da docência. Este fato gerou afetos indigestos e por algum tempo me rendi ao medo de estar vulnerável a ataques de diferentes ordens. Levaram terror ao campus por meio de palavras e atos desmedidos, explicitamente contra o pensamento de esquerda e das Ciências Sociais, mas poderiam ter decidido atacar uma professora difamada na internet como risco social e degradação dos valores morais da tradição opressora. Esse grupo de pessoas entoava palavras de apoio à candidatura de Jair Bolsonaro à presidência da república. Para quem ainda tem dúvidas sobre a relação entre discurso de ódio e atuação da violência, a situação vale como exemplo histórico.

O que tenho a dizer, portanto, é que tais discursos são danosos e podem decorrer em violências materiais, sem minimizar evidentemente a gravidade da própria violência moral praticada pelos senhores da má fé em mau exercício de mandato parlamentar. Autoafirmar a própria autoridade religiosa e superioridade moral não os isenta de responsabilidade sobre atos de violência praticados em nome da fé, esta fé um tanto estranha aos preceitos religiosos já que voltada para a ânsia na tomada de poder político. Viajar para a terra santa e gravar videoclipe encenando batismo também não tem o poder de isentar ninguém de responsabilidade sobre as violações morais que pratica. Somos o que realizamos e isso inclui as palavras que apresentamos ao mundo como atos na construção histórica do sentido e das condições para a vida coletiva.

Os oportunistas da fé na política são disseminadores de discurso de ódio, é nisso que consiste sua participação na vida comum e do meu ponto de vista realizam por meio de mandato parlamentar uma afronta aos esforços históricos por justiça social. De minha parte, venho buscando construir junto a estudantes na universidade a ideia de que a democracia implicaria, fundamentalmente, o desafio ético da convivência com aquelas pessoas das quais discordamos em princípios. Portanto, venho seriamente refletindo sobre como conviver em um mesmo mundo em que tais autoridades públicas me acusam de imoralidade, sendo que eu mesma atribuo o equívoco moral a eles próprios, meus opositores.

Talvez uma diferença essencial entre nós seja que eu não recorri à invenção de mentiras para justificar minha posição, minha discordância. É preciso dizer também que não é fácil escapar do impulso ao ódio e à intolerância que nos é despertado quando somos alvo do ódio e da intolerância. É bastante difícil, embora também fundamental que possamos resistir simplesmente existindo em nossa diferença radical. Eu me recuso a decidir qual violência seria justificável. Eu me recuso a definir quais pessoas deveriam sofrer violência. Eu me recuso a ser igual a quem pensa que a violência se justifica moralmente. Isso não quer dizer, no entanto, que eu não tenha o direito de significar, em meus próprios termos, que os supostos atos morais de pessoas com as quais discordo em princípios de consciência, sejam atos de violência passíveis de questionamento público.

Por fim, agradeço a oportunidade de me reconhecer um grave risco civilizatório. Sou um perigo porque não tenho medo, sequer me rendo ao temor de ser atacada, espancada, exterminada. Sou o risco iminente da associação direta e explícita do discurso de ódio ao ato de violência material porque se sujassem a mão de sangue sobre mim eu seria lembrada como perseguida pela má fé na política. Eu sou o terror porque me tornei irredutível ao projeto opressor do ódio mesmo que morta. Se eu morresse por força do ódio, meu extermínio não mais se consumaria ou serviria aos interesses da má fé pois eu seria lembrada como exemplo da relação entre o discurso e a atuação da violência. Venceremos!

*Tatiana Lionço é professora do Instituto de Psicologia da Universidade de Brasília (UnB)



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