Machismo em pauta: jornalistas na mira do assédio

Profissionais da imprensa denunciam assédio de chefes, colegas de trabalho e dos próprios entrevistados. Em uma reportagem especial sobre o assunto, confira depoimentos contundentes que revelam o que acontece nos bastidores das notícias

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Por Maíra Streit e Ivan Longo

Ela, uma estagiária de 20 anos que dava seus primeiros passos profissionais em uma conhecida rádio de Curitiba. Ele, já na casa dos 70, acumulava fama em uma longa carreira como jornalista e deputado. Por algum tempo, a jovem até imaginou que poderia aprender algo com o experiente radialista, mas o dia a dia mostrou que a convivência com ele se tornaria insuportável.

Tudo começou com uma ou outra piada inconveniente, repleta de machismo e palavras de baixo calão. As “brincadeiras” iam ficando cada vez mais pesadas e, normalmente, eram ignoradas no ambiente da redação. A estagiária, recém-chegada ao local, tentava não criar polêmica, mas acabou se tornando alvo de assédio e, a partir daí, as coisas tomaram um rumo diferente.

Em uma carta pública em que fez a denúncia, Mariana Ceccon relatou que ele se aproximou de sua mesa, fingiu olhar algo no computador, afastou os cabelos do ombro dela e disse: “Eu estou morrendo de tesão em você e ainda vou te montar, você vai ver”.

Sem condições de reagir, a jovem só conseguiu sair para vomitar. “Não posso descrever ao certo o sentimento. Você se sente tão humilhado, tão ‘lixo humano’, que não arranja força alguma para responder. Você tem vontade de se esconder e se sente suja. Não quer falar para ninguém”, lamentou.

“E no segundo seguinte ele falou que estava indo viajar com a esposa, netos e filhos para a Disney para comemorar os 50 anos de casado. Como alguém pode ser tão dissimulado?”, prosseguiu.

O caso foi levado à direção da rádio e não demorou para aparecerem informações de outras vítimas. Passadas de mão, intimidação e ofertas de dinheiro em troca de favores sexuais faziam parte dos abusos cometidos contra as funcionárias. Porém, com amizades influentes dentro da empresa, as perseguições do jornalista foram abafadas.

Indignados com a apatia dos chefes em relação a um fato tão grave, os colegas de Mariana chegaram a fazer greve para pressionar os superiores a afastarem definitivamente o assediador. Sem uma atitude mais contundente, três deles pediram demissão.

O episódio ficou conhecido em todo o país e abriu espaço para a discussão sobre a desigualdade de gênero no mundo jornalístico, ainda bastante dominado pelos homens. Em entrevista à Fórum, três anos depois do ocorrido, Mariana contou que mudou de cidade e hoje trabalha em um jornal no interior de São Paulo.

No entanto, as sequelas continuam presentes. “Às vezes me sinto enjoada e com um mal-estar e identifico que, lá no fundo, eu estava lembrando daquele dia”, comentou.

À época, Mariana registrou um boletim de ocorrência e o assediador respondeu criminalmente pelo ato. Ele fez um acordo na Justiça e pagou o equivalente a R$ 2 mil para uma entidade beneficente. Pode não ser o resultado esperado, mas a jovem acredita que cumpriu a missão ao levar a denúncia adiante, mesmo sendo pressionada e julgada por muitas pessoas.

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Medo e silêncio

De fato, são inúmeras as barreiras que as vítimas precisam enfrentar para romper o silêncio. Uma pesquisa do site Vagas.com, realizada em 2015, mostrou que 52% dos entrevistados relataram ter sofrido algum tipo de assédio no trabalho e que 87,5% deles não denunciaram a situação. O motivo mais comum é a possibilidade de perder o emprego, apontada por 39,4%.

O receio de sofrer represálias foi indicado por 31,6%, seguido por vergonha (11%), medo que a responsabilidade recaia sobre o denunciante (8,2%) e sentimento de culpa (3,9%). Entre o grupo que declarou ter sofrido assédio sexual, 79,9% eram mulheres.

De acordo com a psicóloga Mery Pureza Candido de Oliveira, que atua no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), casos como esse podem gerar sérias consequências para a saúde mental. Quadros de estresse pós-traumático, ansiedade, depressão, bloqueio da sexualidade, transtornos alimentares e baixa autoestima são alguns dos efeitos.

Segundo ela, a sensação de impotência pode agravar ainda mais o problema, além do risco de a vítima acabar sendo culpabilizada pelo assédio que sofreu. “Em nossa cultura latinoamericana, sempre existe a desconfiança de que, com certeza, a mulher provocou”, disse.

Jornalistas no alvo

Mas a rotina dos que atuam na imprensa contribui para que situações como essa aconteçam? De acordo com as pesquisas, a resposta é sim. Um levantamento lançado pelo Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Distrito Federal (SJPDF), em março deste ano, mostrou que a desigualdade entre os gêneros é bastante evidente na categoria.

Cerca de 62% das jornalistas consultadas afirmaram já ter recebido salários menores do que colegas homens, desempenhando a mesma função. Mais de 47% sofreram algum tipo de violência no trabalho e 78,5% responderam já ter sido vítimas de atitudes machistas por parte de entrevistados. Aproximadamente 71% delas, inclusive, deixaram de ser designadas para determinada pauta simplesmente por serem mulheres.

Para a vice-presidente da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), Maria José Braga, não há dúvidas de que o universo dos profissionais da mídia acaba reproduzindo o machismo. Segundo ela, ter menos mulheres em cargos de chefia influencia, mas a causa seria mais complexa, já que há toda uma estrutura social que leva ao silenciamento em relação à violência.

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Com o círculo vicioso da impunidade, a vítima fala ‘Vou denunciar, passar pelo constrangimento, a dor de reviver essa angústia. Vou fazer tudo isso e não vai acontecer nada’. Existe um círculo vicioso que precisa ser quebrado”, ressaltou. Ela destacou que as empresas devem criar políticas de combate a essa prática e que as entidades de defesa das trabalhadoras também necessitam estar atentas.

Na opinião de Nana Queiroz, a desvalorização da profissão propicia condições de trabalho mais difíceis para as mulheres. A jornalista, que ficou conhecida por criar a campanha “Eu Não Mereço Ser Estuprada”, é diretora-executiva da revista AzMina, colunista do Brasil Post e autora do livro “Presos que Menstruam”.

Com base em estudos que leu sobre o assunto, Nana apontou que o ambiente de estresse, de desrespeito às leis trabalhistas e de competição excessiva nas redações cria um clima hostil, sobretudo para a classe feminina. Ela própria já foi vítima de assédio moral e sexual no início da carreira.

Em alguns momentos, até mesmo os entrevistados se sentem à vontade para ultrapassar os limites. “A fonte sente que ela tem um determinado poder e que uma mulher só pode conseguir avançar ou ter um furo de reportagem se ela estiver disposta a vender o corpo ou dar alguma coisa em retorno. Isso é só uma reflexão de como a gente ainda, nessa nossa cultura, vê as mulheres como objetos sexuais”, enfatizou Nana.

“Se os entrevistados vissem as mulheres como profissionais competentes, que devem ser levadas a sério, isso nunca aconteceria (…) Eu já me humilhei incontáveis vezes ao ouvir baixaria, ter que baixar a cabeça e fingir que não ouvi para poder conseguir manter a relação com a fonte. Está na hora de a gente parar de fazer isso”, ressaltou.

Nova campanha

Um caso recente colocou o tema em pauta no país. No início de junho, uma repórter do portal iG contou ter sido assediada pelo cantor MC Biel durante uma entrevista coletiva. De acordo com a denúncia, ela foi chamada de “gostosinha” pelo funkeiro, que ainda disse: “se eu te pego, te quebro no meio”.

Ao ser submetido às questões dos jornalistas, Biel foi perguntado pela repórter sobre boatos de que seria bissexual, quando respondeu: “Por quê? Você quer que eu te mostre com atos e ações?”. E acrescentou: “Eu sou heterossexual. Eu gosto é de boceta”.

Em mais um trecho da gravação entregue à polícia, ela pergunta se o artista costuma dar selinhos (beijos) em fãs. Ele, então, disse: “Sim, você quer que eu te dê um?”. Ela encerra o assunto: “Não”. Um mês depois do acontecimento, que ganhou ampla repercussão, a jovem foi demitida. A editora que levou o episódio a público, também.

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O fato motivou a criação da campanha #jornalistascontraoassédio, que busca cobrar respostas a situações como essa, incentivar a união de mulheres pelo fim dos abusos e mostrar solidariedade à colega assediada. Em poucas semanas, a página do movimento no Facebook já conta com mais de 16 mil adesões e tem incentivado a discussão do problema em debates, congressos e outros eventos.

O que diz a lei

A coordenadora estadual do Núcleo de Gênero do Ministério Público de São Paulo (MPSP), Valéria Scarance, explica que, do ponto de vista legal, assédio é o constrangimento causado quando alguém se prevalece de sua condição de superior hierárquico ou de ascendência inerentes ao cargo, emprego ou função, para obter vantagem ou favorecimento sexual. O crime é tipificado no artigo 216 A do Código Penal, com penalidade prevista de 1 a 2 anos de detenção.

A especialista dá dicas de como agir em caso de assédio, para facilitar a denúncia e evitar que o caso fique impune. Ela orienta que a vítima diga “não” de forma taxativa e procure registrar essa atitude por escrito ou com uma gravação, uma vez que e-mails, mensagens e vídeos podem servir como prova.

Também é preciso registrar um boletim de ocorrência na delegacia e comunicar a direção da empresa, já que essa conduta pode gerar rescisão do contrato de trabalho e indenização por dano moral. A companhia que emprega a vítima será acionada para pagar indenização, pois tem o dever de manter um ambiente respeitoso para todos os funcionários.

É importante reunir testemunhas e, se o abuso for coletivo, uma solução é fazer a denúncia em conjunto. Outra ideia é buscar o sindicato da categoria para orientações, ou ainda o Ministério Público do Trabalho (MPT).

Valéria reforçou que é fundamental lutar contra a naturalização da violência. “Lamentavelmente, pela cultura do estupro vivenciada em nossa sociedade, combate-se a sexualidade da vítima e não o assediador. Além da questão econômica, as vítimas calam-se também por medo de uma retaliação e do julgamento moral”, concluiu.

Cartilha

Com o objetivo de alertar sobre o tema, o Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Paraná (Sindjor PR) lançou, em 2015, uma cartilha intitulada “Assédio no Jornalismo: ajude a combater”. O material busca encorajar o/a jornalista a reconhecer, se prevenir e denunciar os eventuais casos, dando orientações de como proceder. Para acessar, clique aqui.

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Casos internacionais

Situações de assédio e abuso sexual contra jornalistas vão muito além da realidade brasileira. Confira alguns episódios recentes que ganharam repercussão internacional.

2011 – A correspondente Lara Logan foi agredida e estuprada no Egito por um grupo de homens, quando cobria os protestos que pediam a saída do ex-presidente Hosni Muabarak. A repórter, que é um dos rostos mais conhecidos da cobertura de guerra na imprensa norte-americana, foi afastada de sua equipe e violentada, até ser ajudada por mulheres e soldados que a retiraram do local.

2015 – A jornalista britânica Sarah Teale foi assediada justamente enquanto gravava uma reportagem sobre assédio a mulheres nas ruas para a emissora de televisão da rede BBC News. Após ouvir comentários obscenos de um homem que passava perto dela, a repórter protestou: “Não é brincadeira, não é engraçado e ninguém deveria ter de aturar isso”.

2016 – O jogador de críquete Chris Gayle foi multado pelo seu clube em 10 mil dólares australianos (cerca de 29 mil reais) após constranger a repórter Mel McLaughlin, da TV Network Ten, e chamá-la para sair durante uma entrevista ao vivo. O atleta também precisou pedir desculpas publicamente à jornalista, que ficou visivelmente desconfortável em frente às câmeras.

2016 – A jornalista belga Esmeralda Labye fazia uma cobertura na cidade de Colônia, na Alemanha, durante os festejos de Carnaval, quando alguns homens passaram a fazer gestos obscenos enquanto ela gravava. Um deles a beijou no pescoço e perguntou: “Quer dormir comigo esta noite?”. Em um artigo publicado sobre o abuso, ela comentou que teve os seios tocados durante a ação e se referiu aos agressores como “miseráveis e covardes”.

2016 – A apresentadora iraniana Sheena Shirani, da Press TV, quebrou um tabu ao tornar público o assédio sexual que contou ter sofrido por parte de dois chefes por vários anos. A jornalista fez uma denúncia em seu perfil do Facebook com áudios e cópias de mensagens enviadas para ela. A atitude motivou o engajamento de mulheres em relatar fatos semelhantes. Depois disso, Sheena saiu de seu emprego na emissora e abandonou o país, acompanhada do filho pequeno.

Pesquisa

Em junho deste ano, o Sindicato dos Jornalistas do Distrito Federal (Sindjor DF) deu início a uma pesquisa específica sobre o assédio sexual nas redações e assessorias de comunicação. A ideia é quantificar e dar visibilidade aos casos, servindo como base para as iniciativas da entidade direcionadas para as mulheres jornalistas.

Na enquete, a profissional pode relatar, de forma anônima ou não, as situações que já sofreu no exercício da função, quem era o assediador e se denunciou o crime. Acesse e participe da pesquisa clicando aqui.

Jorn7

Abaixo, confira outros três depoimentos dados à Fórum. Os nomes foram alterados para preservar a identidade das jornalistas.

TATIANE

Eu trabalhava no caderno regional e havia um editor já conhecido como “o fodão”, o cara que pegava todas. Ele mantinha uma redação só de mulheres, todas na faixa dos vinte e poucos anos. Só havia mais um repórter de esportes e outro editor que dividia o apartamento com ele. Eram os únicos homens da redação. A gente ouvia muita coisa, mas era aquilo, uma brincadeirinha aqui, outra ali. Ia relevando porque estávamos acostumadas com esse tipo de coisa. Não deveríamos estar, mas estávamos.

Aí teve um belo dia, uma sexta de plantão. A gente já tinha fechado a edição. Eram três e meia da manhã e a gente estava aguardando a liberação de São Paulo. Tinha que esperar. Nesse meio tempo, eu comecei a ligar para o taxista que costumava trabalhar com a gente e não estava encontrando o cara. O editor se manifestou: “Eu estou indo embora e deixo você lá”. “Não precisa”, respondi. Mas ele insistiu e a gente foi. Eu jamais iria imaginar. No meio do caminho, ele freou do nada, deu meia volta numa via na contramão e disse: “Eu vou te levar é para a minha casa”.

Pensei: “Meu deus do céu, o que a gente faz?”. Passam mil coisas na sua cabeça. Você está sozinha com um cara no carro, três horas da manhã. Ele dá a ré, vai falar o quê? Você fica meio sem reação. O bairro que ele morava não tinha movimentação nenhuma, era bem residencial mesmo. Chegamos na porta da casa e ele começou a se alterar, levantar a voz, pegar no meu braço, falar que eu tinha que entrar.

“Ficar correndo aqui vai adiantar?”, pensei. Eu lembrei desse colega que dividia o apartamento com ele, parecia bem mais equilibrado em todos os aspectos. E me deu um estalo: “Vou entrar porque, qualquer coisa, eu sei que ele está lá dentro. Eu grito e ele ouve. Talvez seja melhor que eu ficar aqui na rua deserta”.

Acabei entrando, ele começou a mudar o assunto, a falar mole, a vir para cima. Esquiva daqui, esquiva dali, falei: “Olha, você não está bem, fica aí porque eu vou chamar um táxi, vou embora”. “Não”, ele respondeu. “Está com medo do quê? Por que precisa trabalhar amanhã? Eu sou o chefe, você não precisa ir amanhã”.

E ele veio para cima, foi meio tenso. Em um momento, ele chegou a dizer: “Você é boa jornalista, você tem tino para a coisa, está no caminho certo e eu posso te ajudar a crescer no jornal”. Veio com esse tipo de conversa e de repente se atirou para cima de mim com tudo e só lembro de ter dado um grito.

E aí, nisso, a gente ouviu uma tosse do cara que estava dormindo no quarto. Ele não saiu, nada. Só tossiu. Depois parece que o cara acordou de um transe: “Deixa para lá, vai embora, mas não vou te levar”.

Disse que não precisava. Peguei minha bolsa tremendo, chamei o táxi e acabou daquele jeito. Mesmo assim, no dia seguinte não sabia como agir. Não consegui ir trabalhar por vários dias. Foi esse colega que morava com ele que me ligou e disse: “Eu ouvi. Se ele fizesse qualquer coisa eu ia aparecer lá, mas você tem que voltar, não deixa isso te abalar”.

E acabou me convencendo a voltar. Tem aquela coisa: ele sabia que era errado, mas ao mesmo tempo os homens se tratam de maneira amistosa nessa hora. “Eu conversei com ele… isso não vai acontecer mais. Mas não abandona, não”. Porque eu estava decidida a não voltar mais.

E acabei voltando numa posição bastante arisca, qualquer coisa que ele falava eu já era ríspida. Enfim, acho que criei um mecanismo de defesa contra a pessoa e acabei levando ainda vários anos de convivência. Comigo ele nunca mais tentou nada, mas vi essa história se repetindo por algumas vezes. Em alguns momentos de maneira até mais violenta do que foi comigo. Hoje, parando pra pensar, como a gente foi tão ingênua?

PAULA

O primeiro caso marcante foi uma cobertura que fui fazer em Brasília. Eu era diretora de comunicação em um sindicato. Tive que ficar correndo três dias em um hotel, e eles estavam fazendo uma plenária para decidir se iam entrar em greve ou não. Aí fui entrevistar algumas pessoas da diretoria no final para saber se tinham gostado do resultado.

Um dos servidores me deu a entrevista normal e, no final, falou: “Você é muito bonita. Estou no quarto 370 e queria que você passasse lá mais tarde”. Assim, descaradamente. Eu fiquei tão assustada num primeiro momento que nem entendi direito. Disse: “Tá, mas por que você quer que eu vá lá?”. “Para a gente se conhecer melhor”, ele respondeu. E eu era casada. Nem com a aliança ele respeitou.

Foi muito chata a situação porque eu era funcionaria dele. Ele era da diretoria e eu era a jornalista do sindicato. Acaba envolvendo trabalho. Delicadamente, eu disse que não, que era casada etc. Nunca mais me tratou da mesma forma. Daí para a frente, sempre me tratou de maneira ríspida.

Falei com o presidente do sindicato e ele lamentou, mas também não fez nada. Ficou por isso mesmo. Eu me senti muito mal porque não tive o apoio nem da pessoa que era meu chefe, só apoio verbal mesmo.

Outra situação aconteceu quando fui, com alguns alunos meus, entrevistar um jornalista que é bem conhecido. Durante a entrevista, correu tudo normal, atendeu bem. A gente trocou Facebook, essas coisas, porque eu queria depois saber se a entrevista estava aprovada, porque ia sair em um livro. Aí trocamos esses dados.

Depois, ele começou a me mandar mensagens, dizer que eu era muito bonita, chamando para tomar um café. E eu disse que não porque nossa relação era meramente profissional. Sempre acho que estou sendo simpática profissionalmente, nunca acho que há intenções por trás. Isso acontece muito no nosso meio. Não só com os de fora, mas com colegas mesmo.

Eu acho que poderia ter alcançado muitos postos maiores quando eu era de redação. Não alcancei, mas não lamento porque foi por não ter aceitado esses convites. Percebi que algumas pessoas que aceitavam conseguiam. Vi algumas situações, mas sempre tive muito orgulho de recusar e, ao mesmo tempo, me sentia mal em ouvir piadinha no final de entrevista, convite para um café. Mas tudo que conquistei sempre foi com esforço.

Tinha muita situação chata. Eu via, em redação, meninas que estavam concorrendo a uma vaga e sempre entrava a mais bonita. Você perceber descaradamente que era dada uma vantagem para aquela garota. Rola muito isso, infelizmente.

Jorn4

DANIELA

Passei pela entrevista e entrei no jornal. Só tinha mulher na redação. O único, fora o editor, era o fotojornalista. Ao longo de algum tempo, foi bem tranquilo. Saía para almoçar com as meninas e elas perguntavam até: “Ele [o editor] não te xavecou?”. E eu: “não”. Até achei estranho porque ele já tinha aprontado com todo mundo. Passaram dois meses de tranquilidade. Aí começaram os assédios, mas não dentro da redação.

Vivia fazendo happy hour, fomos na casa de uma colega jornalista. Ele veio, começou com conversa furada, que eu podia crescer no jornal, ser mais que uma repórter freelancer, que ele podia conseguir isso pra mim. Uma conversa muito desagradável. Eu disse: “Não, não estou aqui para isso, você está confundindo as coisas”. Ele estava alcoolizado. Aí virou e falou: “Você está demitida”. No meio da festa!

Meu chão abriu. Vi que ele estava completamente transtornado. Peguei minhas coisas e fui embora. Depois disso, passou a me perseguir. Ele me ligou no dia seguinte, um domingo, e falou: “Eu estava fora de mim. Desculpa, me excedi, esquece tudo que eu disse, volta a trabalhar, você é importante”. Ok, eu voltei. Mas aí começou a perseguição. Ficou atento a todo mundo que me ligava, sabia onde eu estava. Se eu ia num show, ele ia atrás. Eu me perguntava: “Como ele sabe onde eu estou?”. Comecei a achar tudo muito estranho: “Esse cara é doido”.

Fui tocando a vida. Meu plantão não era com ele. Mas o cara fez que fez e meu plantão caiu com ele naquele final de semana. E foi super conturbado, tudo que era tragédia aconteceu, trabalhei pra caramba. Quando foi no domingo, achei ele estranho. Bebia e se transformava. Toda vez que me via na rua, vinha com xaveco. Aí eu recusava e ele me demitia. Na mesma noite. Aconteceu isso umas três vezes. Nesse plantão, eu senti que ele estava estranho. Sentei com um computador diferente, perto da porta, me deu um sexto sentido e mudei. No meio do fechamento, ele se levantou. Eu agarrei minha bolsa, ele pegou no meu braço e disse: “Você vai ser minha de qualquer jeito”.

Eu taquei a bolsa na cara dele e desci sete andares correndo, pensando: “Não volto mais”. Aconteceu tudo de novo: me ligou. Na segunda vez que ele me ligou, eu comecei a gravar. Eu tinha tudo o que ele me falava gravado. Foi isso o que eu levei para o jornal. Aí eu pedi ajuda. As primeiras pessoas com quem falei foram meus pais, que ficaram do meu lado, e busquei ajuda fora. No sindicato, em todo lugar que eu ia, a pergunta era sempre a mesma: “O que você fez? Deu brecha pra ele?”. Aí você mesma passa a se perguntar: “Será que dei brecha para ele em algum momento?”. Mas ele fazia isso com todas…

Só que na hora de depor, ninguém foi depor ao meu favor e ninguém foi contar a história. Ninguém teve coragem. Foi quando um colega me levou pra São Paulo, para um editor, contou a história e eu acabei tendo uma reunião na direção do jornal. A secretária geral do dono virou para mim e me encheu das mesmas perguntas: “Deu brecha?” De vítima, passei a ser ré. E minha vida era só trabalhar. “Ah, mas por que você ia nas festas com ele?”. Eu me peguei explicando o que eu não deveria explicar. Aí ela disse que eu não tinha provas físicas.

Aí me estressei: “Não vim aqui para ouvir isso”. Antes, ela ainda me ofereceu um emprego para eu calar a boca em outro caderno da edição principal do jornal. “Eu recuso porque não entendo nada de ciência, a primeira pisada de bola que eu der vou ser demitida por justa causa. Não sou burra como você pensa”.

Sempre tive a personalidade muito forte, feminista, aprendi isso em casa. Não precisa me oferecer emprego para calar minha boca. Está esperando o quê? Que eu seja mais uma Sandra Gomide [morta pelo jornalista Pimenta Neves em 2000]? Está esperando eu morrer ou ser estuprada para ter uma prova física? “Ah, mas você não vai conseguir provar nada contra ele”, dizia a secretária.

“Eu esperava, com essas fitas, no mínimo, que vocês apurassem. Mas você me colocou o tempo todo como ré. Então, não tem conversa”, eu respondi.

E ainda falei: “Espero que um dia você ouça um relato desse de uma sobrinha sua, uma filha sua, uma pessoa da sua família. Aí você vai entender o que estou falando. Você é mulher, não devia estar me tratando desse jeito”.

Recebi um monte de conselhos: “Vão te taxar da louca. Todas as portas vão se fechar para você. Infelizmente, eles só ouvem o lado mais forte”. Aquilo me doeu tanto, voltei para casa arrasada. Não teve uma pessoa que me disse “leve isso adiante”. Nem mulher, nem homem, nem sindicato, nem ninguém.

Fiquei muito chateada. Por um momento, fiquei muito mal e me sentindo culpada: “Estraguei tudo”. Fiz um caos na redação, na minha vida… Mas depois que fiquei mais madura, pensei: “Não, não estava errada. Alguém tem que falar, alguém tem que dar nome aos bois”. Passou aquela culpa. Você fica no chão, no lixo. Meus pais falaram: “Se quiser, a gente vai até o final”. Eu ponderei e não levei ate o fim. Disso, acho que eu me arrependo um pouco, sim. Mas eu era muito nova.

A história se espalhou aqui na cidade. É lógico que as redações sabiam quem eu era. Depois fui muito respeitada, até porque já sabiam que eu era ‘bocuda’. Nunca mais passei por isso na minha vida.

Fotos: Arnaldo Saldanha



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