Dor sem fim: O drama das mulheres escalpeladas da Amazônia

Conheça a história de Socorro, que foi vítima de um acidente no barco da família aos sete anos e, mesmo com todas as sequelas, hoje luta para ajudar outras mulheres a enfrentarem o preconceito diante do problema.

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Conheça a história de Socorro, que foi vítima de um acidente no barco da família aos sete anos e, mesmo com todas as sequelas, hoje luta para ajudar outras mulheres a enfrentarem o preconceito

Por Sidney Pereira

Amanhecer no rio Amazonas, entre Pará e Amapá, março de 1989. Gritos no barco do casal ribeirinho Joaquim e Maria das Graças. A filha Socorro, de sete anos, ao se abaixar para pegar um objeto no chão da embarcação, teve seus longos cabelos enroscados no eixo descoberto do motor. Com um puxão violento, a engrenagem arranca o couro cabeludo, as orelhas e fere o rosto da criança.

O acidente, chamado de escalpelamento, longe de ser uma fatalidade, ainda faz vítimas nos rios amazônicos. Mulheres e meninas, principalmente, carregam no corpo as marcas da imprudência, descaso e falhas na fiscalização. Instalado no piso do barco e sem a peça de cobertura, o eixo do motor gira em alta velocidade e pode causar danos graves nos ocupantes. Também há relatos de homens feridos nas mãos, braços, pernas e até no pênis.

Hoje, passados 27 anos, às margens do mesmo rio Amazonas, Maria do Socorro Pelais Damasceno fala de seu drama com uma firmeza que impressiona. Amamentando o quinto filho, Alessandro, de cinco meses, ela relata os traumas físicos e psicológicos dos acidentados.

Socorro conta que, no pequeno barco da família, seus pais sempre saíam para a pesca, levando os cinco filhos. Todos dormiam ali e voltavam na manhã seguinte para casa. “Minha mãe não tinha com quem deixar a gente e precisava ajudar meu pai no barco”, explica.

Associação
A Associação de Mulheres Ribeirinhas Vítimas de Escalpelamento da Amazônia existe desde 2007

“Era de manhãzinha e já estávamos voltando pra casa, quando tudo aconteceu. Desmaiei na hora e, ao acordar, estava suja de sangue”, relembra. A situação era grave, não havia hospital próximo e seus pais a levaram para Macapá. Como a cidade não tinha estrutura médica adequada para o tratamento, a menina foi transferida para Belém, de avião.

Socorro ficou um ano e meio internada em um hospital na capital do Pará. “Minha mãe ficou comigo todo esse tempo e dormia no chão, embaixo da cama”, revela. Ainda sem estar restabelecida, foi levada para “mais perto de casa”, em Macapá, onde ficou internada por mais um ano. “As feridas em minha cabeça não cicatrizavam e minha mãe, com autorização de um médico, me levou pra casa. Ela não aguentava mais a demora no tratamento e decidiu que eu não ia voltar mais para o hospital”, conta.

Barcos
Os barcos são o principal meio de transporte no interior da Amazônia

Os olhos da mulher brilham ao lembrar desse período. No ambiente da floresta, dona Maria das Graças usou o conhecimento sobre plantas e árvores para cuidar da saúde da filha. Ela mergulhava a criança no rio, retirava as ataduras e lavava as feridas com soro fisiológico e chá da planta verônica.

Enxugava a cabeça com gaze e aplicava seiva de andiroba, retirava o excesso e deixava secar, enfaixando novamente a cabeça. Após um mês de tratamento caseiro, a menina voltou ao hospital. “Os médicos ficaram espantados. As feridas fecharam e precisei fazer apenas um pequeno enxerto de pele no crânio”, diz.

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O acidente deixou graves sequelas em Socorro

Solidão e depressão

Ainda hoje, na hora do banho, Socorro tem a sensação de que o sangue escorre pelo corpo. “Isso acontecia sempre comigo e a impressão não vai embora”, fala. Ela sofreu várias cirurgias reparadoras, mas ainda aguarda o implante das duas orelhas, em um hospital de Macapá. O acidente também afetou sua visão e audição, mas não impediu que fundasse a Associação de Mulheres Ribeirinhas Vítimas de Escalpelamento da Amazônia, em 2007.

Semi-analfabeta, ela se considera uma “psicóloga sem formação”. Sua casa, no movimentado setor barqueiro da cidade, é a extensão da sede da associação, e, com frequência, acolhe mulheres e crianças acidentadas. Sem lugar para ficar, durante o longo período de tratamento, as vítimas são acomodadas em uma casa acanhada, mas onde “sempre tem lugar para quem precisa”.

A última acolhida de Socorro é a menina Jucieli, de cinco anos, da região do Jari, que chegou acompanhada pela mãe e o irmãozinho, um bebê de colo. Ela conhece os trâmites burocráticos que os acidentados devem cumprir na Marinha, INSS e SUS. “Cada caso é uma briga. Além da papelada, meu trabalho maior é com a cabeça das mulheres”, destaca.

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A menina Jucieli, atingida pelo eixo do barco no couro cabeludo, faz tratamento médico em hospital de Macapá

Muitas são abandonadas pelos maridos, nos hospitais. “A solidão rapidamente traz a depressão. As mulheres não se reconhecem mais no espelho, não se aceitam e ficam agressivas”, comenta. Inutilizadas para o trabalho na lavoura sob o forte sol amazônico, elas perambulam pelas periferias das cidades, em casas de parentes ou amigos, isoladas e discriminadas. “Com o meu trabalho, consegui fugir da depressão, mas, de vez em quando, ela volta e me embrulho na cama. É o sinal para sair, conversar, me distrair”, relata.

A situação fica ainda mais dramática quando o acidente envolve menores. Socorro conta o caso de uma adolescente que tentou o suicídio, após sofrer bullying e ter a peruca retirada por um colega na classe. “Ela queria sumir, foi o fim. Fiquei sabendo da história e fui até a escola, falei com a diretora, e entrei na sala de aula sem a minha peruca. Conversei, expliquei tudo sobre os acidentes. No final, ele se desculpou e a vida da menina continuou, assim como a minha”, suspira.



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