“Eu tenho certeza que é um golpe”, diz Letícia Sabatella depois de ser agredida

"Não vejo nada nesse governo interino com bons olhos", ressalta a atriz que é reconhecida como militante pelos direitos indígenas e pela preservação ambiental.

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“Não vejo nada nesse governo interino com bons olhos”, ressalta a atriz que é reconhecida como militante pelos direitos indígenas e pela preservação ambiental. Confira a entrevista exclusiva concedida à Fórum depois do episódio

Por Beatriz Sanz

No último domingo, (31), a atriz Letícia Sabatella foi agredida em uma praça em Curitiba quando ia almoçar. Uma multidão que estava se reunindo para se manifestar em apoio ao processo de impeachment sofrido pela presidenta Dilma Rousseff, que atriz ressalta que é golpe, a empurrou enquanto tentavam pintar seu rosto e fazer com que ela tirasse fotos com o “pixuleco”. A atriz teve que ser escoltada de volta para casa, mas filmou a ação e afirmou que irá processar seus agressores.

Confira nesta entrevista o relato da atriz sobre a agressão sofrida e suas impressões sobre o golpe, que será votado no Senado este mês.

Fórum – Como foi o episódio da agressão?

Letícia Sabatella: Eu saí do meu apartamento e fui passar pela [Praça] Guaíra, mas tinha um caminhão de som. Estava começando a manifestação, tinham poucas pessoas ainda. Eu ia indo almoçar, mas não tinha começado ainda e não tinha ninguém falando no carro de som. Eu passei na borda da praça e uma senhora parou para conversar comigo. Eu estava conversando com ela e estava parecendo uma conversa amigável. Só que foi juntando outras senhoras e elas começaram, de repente, a ficar um pouco mais irônicas: “Ah, a gente é petista”. Aí uma começou a dizer: “Vai tirar foto com a gente!”. E começaram a pegar aquele pixuleco enquanto eu dizia “não, eu estou indo para o restaurante”.

Eu estava vestida de preto, uma roupa que nem era de outra cor, e estava mesmo querendo almoçar. Mas essa senhora começou a me segurar e foram me levando para o meio das pessoas, que já começaram a me detonar, a me xingar. “Vai embora, vai embora”, diziam. E eu respondi: “Estou indo embora, mas não precisa escorraçar”. Eu estava ali só porque elas queriam falar comigo. Não tinha como argumentar, eram xingamentos cegos. E aí um cara quis tentar me pintar, eles me seguravam e eu pedia para que não fizessem aquilo,  mas eles diziam “não, vem aqui, você precisa tirar foto com a gente”. Um começou a me segurar e a tentar me pintar, ele podia jogar tinta em mim e a coisa foi crescendo. Acho que a partir do momento que a polícia chegou eles começaram a vir mais forte porque os policiais para eu sair do meio deles. Mas eu não via uma coisa de contê-los. Eles estavam realmente ficando exaltados em um nível muito histérico, e está tudo gravado. Tudo não, porque as primeiras agressões não foram gravadas. A partir do momento que eu percebi que eles estavam gravando muita coisa e iam criar uma situação de linchamento virtual, naquela cena ali de humilhação, eu saquei meu celular também para filmar, para ter uma versão também, para ter uma defesa, porque isso os inibia. Eu não ia agredi-los, eu estava tentando acalmar. Foi quando eu percebi que não tinha escuta, não tinha olhar, não tinha jeito. Era uma coisa cega, aí eu fui filmando e fui falando também umas palavras de postura. Me incomodava os sujeitos que eram agressivos, que tentavam me empurrar. Tinha uma moça que estava tentado me ajudar e eu tinha muita empatia com ela. Ela dizia “Letícia, vamos sair daqui”, só que ela era muito autoritária na maneira de querer me ajudar. Segundo ela, fazia parte do movimento [Vem Pra Rua, organizador do ato]. Ela estava querendo me empurrar para dentro do carro, dizendo “vem pra cá” de um jeito muito histérico. E eu dizia “calma, não é assim”. Eu estava só andando, não era motivo pra ser expulsa de uma praça que tem outras pessoas passando, pessoas no ponto de ônibus. E a polícia foi me conduzindo, queriam me colocar num camburão e eu dizendo “não, eu não vou entrar em camburão nenhum”.

Eu estava tentando evitar essa imagem que eles queriam fazer de “ah, ela saiu escorraçada, dentro do camburão”. E eles foram me obrigando a ir. Voltando para a minha casa, fiquei na porta do meu apartamento e o guarda falou: “Agora você sobe”. Eu falei “não, eu vou ficar aqui, eu estou na porta da minha casa, eles é que têm que voltar para praça e o senhor que tem que dizer para eles voltarem”. Ele tinha um diálogo travado. Eu gravei também a conversa entre eu e esse policial militar. Ele disse que estava me protegendo, mas eu disse para ele que não estava vendo ele conseguir conter o que os manifestantes estavam fazendo.  E disse que não ia virar as costas e subir enquanto eles estavam me xingando, disse que ia esperar eles voltarem para a praça.

Fórum – A praça é perto do seu apartamento?

Sabatella: Sim, eu moro ao lado do Teatro Guaíra. O apartamento era da minha avó e o meu avô ajudou a construir o Teatro. Eles compraram o apartamento na planta, na época. Então, em Curitiba, esse é o meu apartamento. E o caminho para que eu faço para almoçar passa pelo meio da praça, e eu passei pela borda. Não é ir lá provocar, xingar, mas você conversar com alguém que é do outro lado. Isso era normal em outras manifestações. De repente, acho que a coisa está ficando mais acirrada, é como se fosse um autoritarismo e uma arrogância de achar que “esse lugar é meu, você tem que ir embora, já perdeu”. É uma coisa de exclusão. Essas não foram as palavras que eles disseram, mas é como se fosse. Nesse sentido de “você não tem que estar aqui, você não pode estar aqui”. Não, eu posso andar na rua! É uma falta de noção, de limite democrático.

Fórum- Uma das agressões feitas contra você foi quando a chamaram de “puta”. O homem que fez essa agressão é filho de um dos investigados no Banestado. Você viu essa repercussão?

Sabatella: Eu, pessoalmente, não sei. Eu não posso me pronunciar sobre isso porque eu não tenho essa prova.

Fórum – Estamos no mês de votação do processo de impeachment da presidenta Dilma Rousseff. Da última vez que vocês estiveram juntas, você disse que era oposição ao governo dela. O que você pensa com relação à votação?

Sabatella: Eu tenho uma sensação intuitiva de que esse estado, esse governo e essas situações não são sustentáveis. Mas eu temo pelo Senado que a gente ainda tem. Mas eu não estou acompanhando isso muito de perto. Eu estou trabalhando em uma peça de teatro que vai estrear na sexta-feira então, no momento, eu estou mais focada nisso. Eu não sou uma pessoa que vai saber com precisão como o Senado está agora. Então, eu não tenho uma impressão exata sobre o impeachment. Não sei se vai passar o impeachment ou se as pessoas vão criar vergonha na cara e o golpe vai acabar. Eu sei que é golpe, eu tenho certeza que é um golpe!

Fórum – Você está ligada a mobilizações como o “Canta a Democracia”. Quais suas impressões sobre o novo ministro da Cultura?

Sabatella: Qualquer coisa nesse governo não está me dando boa impressão, porque tem o desmonte do MinC, o desmonte da Cinemateca, o desmonte das leis trabalhistas. Eu só estou vendo a gente perdendo conquistas, uma atrás da outra. Então, eu não vejo nada nesse governo interino com bons olhos. Em relação ao que está acontecendo na Cultura, eu pessoalmente não conheço o ministro, não conheço suas convicções pessoais. Ouvi falar, num primeiro momento, que ele era uma pessoa boa, idônea, mas eu não entendo alguém apoiar esse governo interino.

Fórum – Você deu um entrevista depois de registrar a ocorrência, onde você citou a questão indígena e dos sem-terra. O que você tem acompanhado?

Sabatella: Eu acompanhei o massacre que aconteceu com os Guarani-Kaiowá, que está acontecendo. Os índios já estão sofrendo há muito tempo. E eu sou oposição ao governo da Dilma por conta disso. Por conta de todas as dificuldades que a gente ainda não conseguiu solucionar, em relação aos nossos índios, aos trabalhadores rurais e as opções do governo por um desenvolvimento predatório. A gente não conseguiu lidar com o mundo de uma forma que preserve, que utilize matrizes energéticas mais saudáveis, nesse sentido. Mas ainda vejo que é um governo que ainda considera o trabalhador e eu acho que o que está chegando aqui é algo que desconsidera o pobre, o trabalhador, o índio e, no caso da reforma agrária, os sem-terras.

Fórum – O que você gostaria de falar para as pessoas?

Sabatella: Eu acho que tem muitas coisas chegando e as pessoas falando como, por exemplo, que eu fui para lá para provocar, não posso estar lá, não é meu lugar… E eu queria dizer para as pessoas que se a gente vive em uma democracia ninguém mais precisa ser isolado, exilado. Se a gente conseguir lutar e preservar nossa democracia, esse lugar de divisão, aonde “aqui é nós, lá são vocês, você não pode nem cruzar na minha frente”, vai mudar. Se eu tivesse passado lá normalmente e não tivesse uma campanha difamatória anterior com calúnias sobre lei Rouanet, PT, etc, eu passaria na rua normalmente e as pessoas aprenderiam a me respeitar.

Essa incitação ao ódio, incitação à intolerância, essa divisão, querer impor uma única cor, no sentido de única versão, única solução… A gente precisa de diálogo, a gente precisa descobrir o nosso país. Nesse momento estamos sem democracia, temos um governante interino que deu um golpe para estar nesse lugar, e a gente está correndo um risco de perdê-la muito grave! E só o diálogo, a capacidade de pensar o país, para todos, não só para mim e nem para o outro. “Quem é petista não merece estar no país, tem que ir para Cuba”… Esse tipo de raciocínio surgiu de um jeito que adoeceu a mente das pessoas, é uma coisa impressionante perceber que pessoas, no caso de Curitiba, pessoas que são de família, que de algum modo vai ter um primo de alguém que estava naquela manifestação que conhece algum primo meu, é tão doido. E ver essa divisão criada porque as pessoas não respeitam. E esse ódio cego! É como se fosse assim: “Nós vamos ganhar o pais e vocês tem que sair daqui”. Está chegando nesse nível o tom dessa situação.

Fórum – Um tom separatista?

Sabatella: É, e excludente!

Fórum – Você vai abrir um processo sobre o episódio de Curitiba?

Letícia Sabatella: Sim, eu vou.

 

Foto de Capa: Marcos Oliveira/ Agência Senado



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