Brasil, o país da publicidade esquizofrênica

O texto abaixo tem fortes doses de ironia. É bom avisar Por Adriana Dias*...

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O texto abaixo tem fortes doses de ironia. É bom avisar

Por Adriana Dias*

Cena Um: Paulinho Vilhena, adepto do modelo de atuação Cleopirevovisky, em que o ator acha que pode interpretar o que quiser, basta a agência de publicidade se valer de uma ferramenta chamada Photoshop, resolve fazer propaganda de absorvente íntimo, interno, para aproximar os homens do universo feminino. Ele diz que assim pode sentir na pele, com a alteração da imagem, pela ferramenta de editoração, o que é a experiência menstrual… A Internet começa um imenso debate sobre a impossibilidade dos homens de entenderem a experiência feminina do processo hormonal do ciclo menstrual, feministas são chamadas de feminazis, parentes brigam entre si, uma gritaria imensa acontece e Paulinho perde todos os contratos publicitários.

Cena dois: Cleo Pires, criticada pelo seu modelo de atuação Cleopirevovisky, em que a atriz acha que pode interpretar o que quiser, basta a agência de publicidade se valer de uma ferramenta chamada Photoshop, resolve interpretar uma negra para falar de anúncio de shampoo para cabelos afros. O movimento negro começa um imenso debate a respeito do direito de representação, volta a velha discussão se há ou não racismo no Brasil, Bolsonaro é finalmente preso após comentários racistas absurdos que associam novamente Preta Gil e sua cor à vida imoral, e parentes brigam entre si. Uma gritaria imensa acontece e Cleo Pires perde todos os contratos publicitários.

Cena três: Cleo Pires e Paulinho Vilhena, adeptos do modelo de atuação Cleopirevovisky, em que os atores acham que podem interpretar o que quiser, basta a agência de publicidade se valer de uma ferramenta chamada Photoshop, resolvem fazer propaganda como pessoas com deficiência para o Estado do Rio de Janeiro em campanha contra acidentes de trânsito. Valendo-se da experiência em sua interpretação como atletas paralímpicos, em que sentiram na pele a realidade da vida dos atletas, afinal ter o braço removido por Photoshop é quase igual nascer sem ele, e passar a vida sem ele, foram imediatamente escolhidos pela agência África apatheid do Sul. O movimento das pessoas com deficiência começa um imenso debate a respeito do direito de representação, volta a velha discussão se há ou não preconceito e capacitismo no Brasil, mas Cleo Pires afirma ao UOL que preconceituosas são as pessoas com deficiência. Ela e Paulinho ganham todos os contratos de novo.

Por Adriana Dias, a partir de uma ideia de Désirée Novaes. Obrigada a revista TPM por estampar na capa uma atleta com deficiência e não um global deficientizado via Photoshop

*Adriana Dias é Bacharel em Ciências Sociais em Antropologia, Mestre e Doutoranda em Antropologia Social – tudo pela UNICAMP. É também coordenadora do Comitê “Deficiência e Acessibilidade” da Associação Brasileira de Antropologia e coordenadora de pesquisa tanto no Instituto Baresi (que cria políticas públicas para pessoas com doenças raras) quanto na ONG ESSAS MULHERES (voltada à luta pelos direitos sexuais e reprodutivos e ao combate da violência que afeta mulheres com deficiência). É Membro da American Anthropological Association, e foi membro da Associação Brasileira de Cibercultura e da Latin American Jewish Studies Association



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