“A democracia desse país acabou de vez”, diz pai de uma das jovens detidas na manifestação de SP

Em entrevista à Fórum, o mecânico disse que é contra “baderna” em protestos, mas garantiu que esses não eram os planos de sua filha, que carregava em sua mochila apenas um kit de primeiros...

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Em entrevista à Fórum, o mecânico disse que é contra “baderna” em protestos, mas garantiu que esses não eram os planos de sua filha, que carregava em sua mochila apenas um kit de primeiros socorros, um pacote de bolachas e uma garrafa d’água. A estudante foi detida com outras 25 pessoas antes da manifestação “Fora Temer” que aconteceu neste domingo (4) em São Paulo e pode ser indiciada por “associação criminosa”

Por Redação

Já se passaram mais de 24 horas desde que 26 jovens foram detidos pela Polícia Militar, antes do protesto “Fora Temer” deste domingo (4), em São Paulo, e até agora nenhum deles foi liberado. Depois de mais de 8 horas sem comunicação, detidos no Deic, os jovens só puderam falar com os pais, responsáveis e advogados depois da intervenção do ex-senador Eduardo Suplicy, do deputado federal Paulo Teixeira (PT-SP) e do ex-secretário de Cultura Nabil Bonduki no local.

Os adolescentes maiores de idade foram encaminhados, na tarde desta segunda-feira (5), para uma audiência de custódia no Fórum Criminal da Barra Funda e correm o risco de serem presos por “associação criminosa” e “corrupção de menores”. Eles foram detidos próximo ao Centro Cultural São Paulo, horas antes da manifestação. Pouco tempo depois, um grupo de 5 menores também foi detido na Paulista e encaminhado ao Deic.

Os delegados responsáveis por ouvir os detidos afirmaram que eles foram presos pois estariam planejando atos de vandalismo na manifestação. De acordo com os policiais, eles estariam portando pedras, informação que os jovens negam. De resto, tudo o que a polícia informa ter encontrado bate com as informações dos jovens: kits de primeiro socorros, máscaras de gás, bandanas, água e bolachas. Ainda há a informação de que um dos jovens estaria carregando uma barra de ferro. Este, porém, sequer mochila carregava e estava apenas estudando no Centro Cultural São Paulo – ele não ia para a manifestação.

À Fórum, o mecânico Antonio Carlos Cardia Roque, pai da estudante Janaina Marton Roque, uma das jovens presas, se mostrou indignado com a atitude da polícia. Para Antonio, “a democracia desse país acabou de vez”, já que as pessoas sequer mais têm o direito de se manifestar pacificamente.

“Acho que todos que estavam fazendo a manifestação estavam lá para exercer um direito deles. São pessoas honestas e estão indignadas. Quem está se manifestando, é por que é honesto, não ladrão. Agora você não tem mais nem esse direito”, afirmou, garantindo ainda que tem certeza que sua filha não planejava se envolver em qualquer tipo de ato de vandalismo.

“Eu concordo com manifestação, só que eu sou contra baderna, mas eu sei que ela não estava fazendo baderna, eu conheço a minha filha”, disse Antonio sobre Janaina, que é estudante de cinema.

Pais e responsáveis dos outros jovens detidos também mostraram indignação e, por meio de uma carta coletiva endereçada ao governador Geraldo Alckmin, expressam seu repúdio à conduta da polícia militar e a falta de informações. Os jovens passaram horas detidos sem qualquer tipo de contato com advogados ou responsáveis.

Confira a íntegra da carta.

Sr. Governador do Estado de São Paulo,

Tem esta o intuito de informar-lhe sobre os eventos ocorridos no último domingo, 4 de setembro, e estendido até a manhã desta segunda, por ocasião da detenção , para nós, mães e pais, descabida de 21 jovens, pela Polícia Militar do Estado de São Paulo, a qual os conduziu à Departamento Estadual de Investigações Criminal. A referida detenção teve vez entre 15h e 15h30, nas imediações do Centro Cultural Vergueiro – portanto fora do contexto das manifestações ocasionadas uma hora mais tarde, com início previsto longe dali.
Com emprego de força desmedida (dezenas de policiais militares portanto armamento de grosso calibre em pronto uso) abordaram e detiveram , “para averiguação”, nossos filhos , prontos sim a ir, legal e legitimamente, a um ato publico , imbuídos tão somente de suas convicções e espírito cívico.
Os que assinam esta carta espantam-se não só com a forma da detenção e sua alegação, mas, especialmente, com o destino que tiveram nossos filhos na ocasião. Por que encaminhar jovens que, em muitos dos casos, sequer se conheciam ao DEIC? Sem fundada suspeita , sem antecedentes, sem provas. Sem, como se verá, acesso ao delegado. Por que a torturante demora para os encaminhamentos? Por que a proibição à entrada de advogados , defensor e familiares, particularmente dos familiares dos adolescentes à delegacia? Por que às 19h, todos os celulares em posse dos nossos filhos pararam de funcionar , impossibilitando qualquer informação sobre o que lhes ocorria no interior da delegacia? Por que confiscaram-lhes os aparelhos? Que foi feito deles? Por que a orientação dada aos advogados , pelo delegado , de desligar seus próprios celulares? Por que somente após a chegada de três parlamentares por volta de uma da manhã tiveram acesso aos nossos filhos os advogados (presentes desde às 17h de domingo?
Até o momento desta carta (6h30), tudo o que sabemos nos foi informado pelos parlamentares e advogados: entrevista e assinatura dos termos (revogados graças a presença dos parlamentares) ; suposição de organização criminosa e aliciamento de menores – o que enseja o encaminhamento para audiência de de custódia no Fórum Criminal da Barra Funda, sem que ainda nos tenha sido informado o horário. Até o momento desta carta permanecemos há mais de 13 horas (!) absolutamente desorientados , ignorantes dos próximos passos , sem sequer o consolo de terem sido ouvidos , na presença dos advogados, nossos filhos.Nem mesmo sabemos ao certo quem se encontra detido ; nem mesmo muitos pais e outros familiares detém a informação do paradeiro de seus filhos, saídos ontem para manifestar-se. Alguns dos presentes, aliás, já se evadiram daqui, visto terem seus compromissos profissionais que honrar. Até o momento desta carta , tudo o que sabemos é que , sem dúvida, nem o defensor, nem qualquer um dos parlamentares presenciaram , segundo seu próprio relato , de viva voz, tantas anomalias em um caso como este.
Tudo o que sabemos é que , mesmo no período mais terrível de nossa história recente, detidos sempre tiveram garantido o acesso, ao menos , de seus advogados.
Até o momento desta carta, e, certamente , para muito além dele, tudo o que sabemos é que nossos filhos não são criminosos , mas , tão somente, cidadãos paulistas criados para crer no convívio pela diferença mesma das visões de mundo e pontões; diferenças sobre as quais se baseiam as nações de democracia, liberdade de expressão, livre transito e Estado Democrático de Direito.
Tudo com o que contamos, tudo o que esperamos de Vossa Excelência é, naturalmente , a reiteração desses valores e , a luz deles a remissão dos erros.

Cordialmente,
Nós, mães e pais abaixo assinados.

Alberto, Antonia, Carlos, Rosa, Vânia, Rosana, Miguel, Dalva.

Foto: Jornalistas Livres



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