Ex-sargento com orgulho, conheça a história de uma das primeiras mortes da ditadura

Por Matheus Moreira Uma das primeiras mortes que a ditadura provocou, senão a primeira, foi a de um soldado. Após duas tentativas frustradas de combate ao golpe de 1964, Manoel Raymundo Soares morreu sem...

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Por Matheus Moreira

Uma das primeiras mortes que a ditadura provocou, senão a primeira, foi a de um soldado. Após duas tentativas frustradas de combate ao golpe de 1964, Manoel Raymundo Soares morreu sem delatar seus companheiros. Sofreu com torturas diárias no pau de arara e foi enviado para ilha do presidio. Morreu jurando amor à sua esposa, Betinha, e lutando contra o golpe, liderado, naquele momento (pelo menos no papel), por Marechal Castelo Branco.

O livro traz a contextualização do “Caso das mãos amarradas”, famoso na região sul do Brasil, onde história aconteceu. O evento trata da morte do ex-sargento (com orgulho!) do Exército. Um dos líderes do que seria mais tarde a guerrilha da Caparaó (que falhou antes de começar), foi o primeiro a ser morto após tortura pelo dopinho ou dopinha, braço violento do bem conhecido DOPS (Departamento de Ordem Política e Social).

Os acusados jamais foram levados à Justiça, a eles coube apenas a publicidade das suas violações aos direitos humanos de Manelito, esposo de Betinha, amante de Bach, Beethoven e expoentes da música erudita, graças ao finado sargento.

Manoel nasceu pobre na Bahia e viu seu ingresso no exército como a oportunidade de devolver à mãe o esforço que fizera para criar o filho. Estudioso e leitor avido, Manelito logo descobriu que o capital era o inimigo e viu de perto os vários golpes que resultaram na ditadura militar, contra a qual lutou antes mesmo de 1964.

Manelito lutou com seus colegas e com o movimento dos Sargentos por mais direitos diretamente contra o golpe. Expurgado, tentou duas insurgências que falharam antes que as armas saíssem dos “aparelhos” (quartos de pensão e hotéis espalhados por Porto Alegre).

Na sua última tentativa, solitária, para que nenhum de seus companheiros sofresse qualquer consequência, Manoel entregaria cartazes contra Castelo Branco durante sua 5ª visita à Porto Alegre desde que assumira a presidência, mas foi traído e preso.

Torturado por oito dias seguidos, no pau de arara, Manelito não entregou nenhum companheiro. Foi levado para ilha do presidio, onde ficou preso por 5 meses e quando acreditou que seria liberado, percebeu tarde demais que tudo não passou de uma armação dos oficiais de plantão do DOPS para que ele assinasse sua liberação e então fosse morto, durante um “caldo”.

Investigadores e militantes contra ditadura lutaram para desvendar a morte que ficou conhecida como Caso das Mãos Amarradas. Décadas mais tarde, quatro anos antes de morrer, Betinha ganhou o caso na Justiça e a União foi culpabilizada pela morte do ex-sargento.

Rafael Guimarães, escritor e jornalista, autor de O Sargento, o marechal e o faquir, conta que durante a pesquisa falou com companheiros de Manelito: Manoel é uma pessoa representativa de pessoas daquela época, de um momento tenso na vida política brasileira. Pessoas que se colocaram para lutar. Eu pesquisei bastante, conversei com seus companheiros dele. A maioria deles na faixa de 70 anos. A idade que ele teria se tivesse vivo”, conta.

Betinha, esposa de Manoel, parece ser a personagem que passa por maior mudança ao longo do livro, em formato narrativo-jornalistico de Guimarães. O autor comenta que Betinha era uma mulher bastante representativa da sociedade de sua época, mas que se transformou com a vida ao lado do ex-sargento: “Ela era uma pessoa humilde e simples, juntou sua solidão à de Manoel, eles conversaram muito sobre a radicalização do ex-sargento. Ela cresce muito graças a isso”, explica.

O livro tem leitura fácil, uma narrativa agradável e que traz o leitor para o clima tenso do período pré-golpe. Guimarães ainda apresenta, com uma formatação quase ficcional, as possíveis disputas entre Castelo Branco e Costa e Silva. É curioso, após tantas décadas, saber que uma das primeiras mortes provocadas pela ditadura militar tenha sido justamente a de um militar excepcional e elogiado pelos seus superiores, até que decidiu exercer sua função pelos termos da lei contra o golpe.



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