Fantasia, mitologia africana, e inclusão: o universo de Lara Orlow

Por Victor Hugo Felix A literatura estrangeira se inspira muito na mitologia greco-romana, e isso não é uma novidade. A série “Percy Jackson”, de Rick Riordan, é um grande exemplo disso: na saga, o personagem-título...

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Por Victor Hugo Felix

A literatura estrangeira se inspira muito na mitologia greco-romana, e isso não é uma novidade. A série “Percy Jackson”, de Rick Riordan, é um grande exemplo disso: na saga, o personagem-título se descobre um semideus e vive grandes aventuras em meio aos deuses do Olimpo. A escritora Lara Orlow é fã assumida da série, mas se questionava por que, aqui no Brasil, não havia histórias semelhantes com aventuras ligadas à cultura brasileira. Foi por isso – e por outros motivos, que serão abordados mais à frente – que a autora decidiu lançar “A Saga de Orum – Os Guerreiros Sagrados”, primeiro volume de uma série baseada na mitologia africana. Ela, que tem descendência cigana-moldovana e é umbandista, viu que havia um espaço na literatura brasileira que precisava ser preenchido. E foi o que fez.

A coragem de Lara marca sua obra. Seus livros chamam atenção por trazer temas negligenciados pela cultura de massa. A primeira publicação foi “Wlad – Os prisioneiros do destino” (2009), protagonizada por um cigano que luta para fazer o seu povo ser reconhecido em meio a uma sociedade dominada pela Igreja. A segunda foi “Os caminhos de Lumia” (2010), que traz a história de amor entre a jovem Clara e a cigana Lumia. Em 2013, lançou a primeira edição de “A Saga de Orum – Os Guerreiros Sagrados”. “Algumas pessoas tem dificuldade em entender qual é minha linha literária, porque ora escrevo um romance água com açúcar LGBT, ora um romance medieval, e agora uma aventura fantástica… Mas sempre explico, meu foco é a inclusão”, diz a escritora.

Em “A Saga de Orum”, a pedra sagrada do príncipe Oxaguiã desaparece, e todo o reino dos orixás, Orum, fica na iminência de uma guerra de grandes proporções. Assim, três jovens vão parar em Orum, o reino dos Orixás, e viverão incríveis aventuras para salvar tanto Orum quanto Aiyé, a Terra. Em entrevista para o blog Inverso Conjugado, Lara Orlow fala sobre suas inspirações, motivações, e seus desejos de utilizar a literatura para promover a representatividade e a inclusão.

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INVERSO CONJUGADO: Queria saber, primeiro, o que te motivou a ser escritora?

LARA ORLOW: Aos 5 anos fui alfabetizada pela minha avó, com gibis do Pato Donald. Eu comecei a ler muito cedo, e lendo resolvi escrever. Eu sou da época das cartilhas, então as frases eram “O BEBÊ BABA”. Como eu lia muito bem aos 6/7 anos, achava aquilo muito chato. E ficava criando frases mirabolantes. Minhas professoras achavam o máximo, e sempre me incentivavam. A partir daí sabia que eu queria ser escritora quando crescesse. Sempre participei de concursos escolares de produção de texto, e sempre ganhava. Até que aos 16 anos escrevi meu primeiro texto com cara de livro. Apesar da demora em “me tornar” escritora (tenho 40 anos), sempre fui escritora, sempre produzi textos.

 

I.C.: Tem algum (a) autor (a) que mais te inspire?

L.O.: Tem, e são autores bem óbvios… rs. Rick Riordan e J.K.Rowling. Mas tive outras inspirações… Adoro a Marion Zimmer Bradley [autora de “As Brumas de Avalon”]. E no Brasil a Ruth Rocha e Eva Furnari. Não sei se você sabe, mas Cecília Meireles era cigana… E ela também é uma grande inspiração… Não só pelo que escrevia, mas pelas barreiras que quebrou.

 

I.C.: Como são essas barreiras do povo cigano e como você tenta quebrá-las?

L.O.: A cultura cigana é muito fechada. Tem tradições antigas muito arraigadas. Ela foi uma mulher à frente de seu tempo, se tornou letrada em uma época que nem todas as mulheres tinham acesso à educação, ainda mais sendo de origem cigana. Não me comparo a ela, nem de longe. São histórias de vida bastante diferentes. Eu acabei me deixando engolir pelo mundo gadje [não cigano], principalmente após a morte de meu pai e meus avós. Eu sofri o que chamamos de aculturamento, quando se absorve a cultura do outro como se fosse a sua. Há vantagens e desvantagens nisso. Mas tento manter viva a cultura cigana através do que escrevo. Mesmo em “A Saga de Orum” cito povos nômades, acho que é uma forma de não romper totalmente.

 

I.C.: Agora vamos falar sobre a “Saga de Orum”. O que te motivou a fazer um livro baseado na mitologia africana?

L.O.: Sempre gostei muito de mitologia, sempre li muito a respeito. E lendo a série “Percy Jackson” acabei me deparando com um paradigma… Porque estamos aqui babando pelos deuses gregos, sendo que temos outros mitos e lendas formadores de nossa cultura? Os orixás têm uma riqueza tão grande de mitos e lendas, tanto ou mais que os gregos, e ninguém nunca imaginou que poderíamos tê-los em uma aventura. Daí nasceu “A Saga de Orum”. Paralelo a isso temos a lei federal 10.639, que determina o ensino da história e da cultura africana nas escolas. Como professora, sempre encontrei muito pouco material sobre a mitologia africana, e o pouco que eu encontrava era religioso. Então havia essa necessidade, essa lacuna a ser preenchida.

Na mesma época em que publiquei a primeira edição da Saga, outro autor também lançou “Deuses de Dois Mundos”. Achei simplesmente incrível, quer dizer, era algo que realmente estava indo para o mercado literário com uma força muito grande. Em seguida tivemos um filme nigeriano [“The Rise of The Orishas” (2014)], onde os orixás são retratados como super-heróis, o que só veio para agregar essa nova forma de ver e acolher os orixás.

I.C.: Você já tinha contato com a cultura africana antes de começar a escrever o livro?

L.O.: Sim, sou umbandista, mas era um contato absolutamente religioso. Precisei sair dessa personalidade religiosa para conseguir escrever uma aventura. Cheguei a reescrever muitos capítulos que estavam com toque religioso. O objetivo eram as lendas, a mitologia, e não a religiosidade. Eu queria um livro que pudesse ser lido por todos, independente de religião. Gerar conhecimento. Alcançar todos os jovens, sem dogmas. Ser lido em sala de aula sem causar qualquer tipo de descontentamento, e sem ferir as crenças de quem é praticante das religiões de matriz africana.

 

I.C.: Você pode exemplificar algo que precisou mudar?

L.O.: Incorporação… rs… Em um dos capítulos havia um processo de incorporação, e tirei, porque isso remetia à religiosidade.

 

I.C.: Mas se você tivesse mantido não teria agido de forma mais intensa para quebrar estereótipos e preconceitos contra as religiões de matriz africana?

L.O.: Eu entraria no campo religioso se fizesse isso, e primeiro que não sou Mãe de Santo nem Ekedi para falar sobre a religião. Segundo que se fosse religioso não poderia ser uma aventura fantástica, deveria ser algo psicografado. Eu não poderia entrar nos fundamentos religiosos, aí sim eu estaria desrespeitando a religião. Então falei sobre mitos e lendas, sem entrar em preceitos, dogmas, regras do candomblé ou da umbanda, etc. Mas, por exemplo, os protagonistas são guiados pelo Exu Lonan, que é o senhor dos caminhos. Cada orixá é o que é, seu significado permanece. Mas sem ritos. Eles têm atitudes e características encontradas nas lendas antigas.

 

I.C.: Você temia que o livro sofresse resistência e preconceito por parte dos leitores?

L.O.: Na verdade não. Preconceito não, mas uma certa dificuldade em entender que não era religioso, sim… rs. Eu imaginava que aconteceria.

 

I.C.: Depois que a primeira edição foi lançada qual foi a recepção das pessoas, tanto dos praticantes de religiões de matriz africana quanto dos não praticantes?

L.O.: Foi ótima, uma excelente recepção, tantos dos praticantes como dos não praticantes. Uma professora evangélica comprou o livro, e leu, antes de ler na sala de aula, e achou incrível poder falar da mitologia africana sem sentir seu credo ferido. E praticantes do candomblé se sentiram representados por terem seus pais Orixás retratados com fidelidade aos seus arquétipos e a suas características, principalmente as emocionais.

 

I.C.: Seus livros anteriores também abordam minorias e pelo que vi em outras matérias, isso é um dos aspectos que chama atenção no seu trabalho. Você faz essas abordagens pensando mesmo em agir pelas minorias ou é algo que acontece naturalmente, intuitivamente?

L.O.: Não, é meu foco mesmo. Sempre trabalhei com inclusão, tanto como professora quanto na área administrativa, inclusão é algo latente em mim, em todas as áreas da minha vida. Ciganos, relações homoafetivas, matriz africana, etc. Algumas pessoas têm dificuldade de entender qual é minha linha literária, porque ora escrevo um romance água com açúcar LGBT, ora um romance medieval, agora uma aventura fantástica…, mas sempre explico, meu foco é a inclusão. A inclusão não é simplesmente aceitar as diferenças, mas viver as diferenças, porque todos nós somos diferentes, e precisamos coexistir harmoniosamente. Através dos livros consigo fazer isso acontecer.

 

I.C.: Você enxerga o seu trabalho como político?

L.O.: Sim, absolutamente político, nesse sentido de romper com o que é pré-estabelecido e introduzir novos conceitos… Ou novas formas de enxergar a realidade. Quando escrevi “Os Caminhos de Lumia” recebi muitos e-mails de leitores que disseram compreender a cultura cigana de forma totalmente diferente do que viam antes de ler o livro. Quer dizer, existe uma vida ali, uma cultura, uma forma de viver, que é diferente do outro. E é isso que tento mostrar.

 

I.C.: Como você enxerga o atual nível de representatividade, por assim dizer, na literatura e na produção cultural atualmente? Acha que falta mais iniciativa por parte dos autores nesse sentido?

L.O.: Acho que o mercado literário está faminto por novidades. Inovações. Estamos com autores excelentes, com ideias extraordinárias que estão enfrentando o mundo literário através das redes sociais. Eu diria que temos uma imensa leva de novos autores empreendedores.

 

I.C.: E quais são os seus planos agora? Dar continuidade a “A Saga de Orum” ou trabalhar em “A Herança de Avalon” [livro que ela anunciou em seu blog, inspirado em “As Brumas de Avalon”]?

L.O.: Um passo de cada vez… rs. Minha vontade é fazer tudo ao mesmo tempo, sou multifuncional, mas não é assim que funciona no mundo literário. Provavelmente eu intercale as publicações, trabalhando “A Saga de Orum” e “A Herança de Avalon” de forma concomitante. Mas tenho negociado com uma editora para a reedição de “Os Caminhos de Lumia”, então tem muita coisa acontecendo ao mesmo tempo.

 

Em julho, “A Saga de Orum – Os Guerreiros Sagrados” foi relançado pela Editora Arwen e pode ser adquirido no site da Arwen Store. Novidades sobre a publicação são encontradas na fanpage do livro.

 



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1 comment

  1. Desvendando O Segredo Responder

    Ótimo entrevista.Eu ja o livro o conde de monte cristo e estou lendo desvendando o segredo.


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