A São Paulo de Doria e o Brasil do golpe

(ou lições da dramaturgia sobre a disputa política estratégica no Brasil) Por Débora Medeiros e Luiz Henrique Dias* Estão abertas as cortinas. No palco da luta política brasileira estreia, após as eleições municipais,...

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(ou lições da dramaturgia sobre a disputa política estratégica no Brasil)

Por Débora Medeiros e Luiz Henrique Dias*

Estão abertas as cortinas.

No palco da luta política brasileira estreia, após as eleições municipais, uma nova peça. E nela, novos atores assumem o protagonismo, interpretando um roteiro bem ensaiado. O cenário sofreu grandes alterações. Na plateia, espectadores apressados esboçam críticas com o atores ainda em cena.

De fato, o contexto não poderia ser mais propício a precipitações: basta um olhar rápido para resultado das urnas para se perceber grandes tendências. O crescimento do PSDB, a inegável derrota do PT e a vitória ostensiva da antipolítica servem, de imediato, como matéria prima para análises que apontam culpados, tecem justificativas e expressam lamentações de toda sorte.

Mas é preciso ir além: a ala esquerda do espectro político tem muito a aprender com o resultado geral das eleições municipais e, em especial, com o encerramento do pleito, em primeiro turno, na maior cidade do país. Uma lição que poderia tranquilamente ser ensinada por um dramaturgo: trata-se, em última instância, de construção de narrativas, método de formação de atores e capacidade de repercussão na opinião pública.

A vitória de João Dória em de São Paulo é o símbolo maior da consolidação do PSDB de Alckmin, no Estado e nacionalmente. Porém, antes de representar a vitória de um partido, ou mesmo de um Programa de Governo, representa a glória de uma narrativa. É o produto da capilaridade, mesmo na periferia, de um novo e bem sucedido roteiro ultraconservador, que se apresenta como projeto político estratégico para o Brasil. Roteiro construído também para legitimar, nas urnas, o golpe parlamentar no governo federal.

Não estamos falando, contudo, de uma reedição do texto de Fernando Henrique na década de 1990. O tom agora é dado por um conservadorismo que se radicalizou, e para o qual Dória é o protagonista perfeito.

A cidade e o Estado de São Paulo se consolidam, após a abertura das urnas, como protótipo de um regime político para o Brasil que não é dado a tergiversações. A ordem agora é desestatização massiva, criminalização e inviabilização jurídica das forças antagonistas, hipertrofia das forças repressivas e a consolidação da idéia de substituição da política (e dos políticos) por uma tecnocracia. Qualquer manifestação do contraditório, outrora expressa na arena política, a partir de agora, passa a ser assunto para a vanguarda da violência policial brasileira, a PM de São Paulo. Caso o assunto tome contornos institucionais, assume o comando a expressão jurídica desse braço armado, personificada na figura do próprio Ministro da Justiça.

Na peça agora em cartaz, os diretores, representantes de uma coalizão das elites, souberam preparar seus atores. Forjado na onda conservadora que emergiu das manifestações de 2013, o sujeito político que elegeu Dória foi cuidadosamente instruído pela grande mídia. Braço ideológico da coalizão, setores da imprensa amplificaram diuturnamente uma versão dos fatos da política e da economia, que deu sustentação na opinião pública ao projeto político de uma minoria. A tática utilizada não foi nova: relançamento da velha cantilena de uma corrupção seletivamente exposta e prontamente atribuída ao Estado, bem como ao declínio moral de um partido e seus militantes. O sistema político, claro, nunca teve nada a ver com isso. E as empresas privadas tampouco, a menos que haja um alvo político na mira.

E o que significa, ou ensina, a derrota de Fernando Haddad e do Partido do Trabalhadores? Em que ponto vacilou o roteiro do programa democrático e popular para o Brasil, parcial e contraditoriamente implementado pelo PT e aliados no último ciclo político? Uma resposta pertinente é que se trata, antes de mais nada, de uma fragilidade na construção dessa narrativa e na preparação de seus protagonistas.

Ao definir como elemento fundamental de seu programa político a gestão do Estado, o campo progressista, cuja maior expressão simbólica são os mandatos presidenciais de Lula e Dilma, incorporou em seu roteiro elementos que pertenciam, essencialmente, à narrativa de seu adversário.

De onde vieram, se não de uma farsa para sustentar o status quo, a idéia de um aparato de Estado neutro e de um judiciário técnico, nascido fora da disputa política? De onde poderia ter vindo concepção de que espaços cedidos na grande imprensa seriam suficientes para amplificar um pensamento transformador?

Os elementos tomados de empréstimo do léxico político concebido pelas elites, se transformaram, ao lado de determinantes econômicos nacionais e internacionais, na principal pedra de tropeço do campo político progressista. Tenhamos clareza: a esquerda brasileira está sendo devorada pelo monstro que ajudou a criar.

É partindo dessa observação que cabe, aqui, retomar a pergunta que não se pode calar nas ruas: e agora?

Bem, agora a esquerda está, de ponta a ponta, lançada numa defensiva estratégica. Agora está atuando no palco do adversário.

Há de se evitar, contudo, a tentação de exagerar no drama do enredo. Resta ao campo progressista uma possibilidade alteração do cenário. Para isso, deverá forjar um novo protagonista, ou melhor, um novo sujeito antagonista. Precisará, ainda, muni-lo de uma nova gramática, de uma gramática própria e sem termos emprestados.

O tom da narrativa, entretanto, está dado. É um tom de resistência.

E resistência prolongada.

* Débora Medeiros é médica e Luiz Henrique Dias é professor. Ambos fazem parte da coordenação do Projeto A São Paulo que Queremos



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