Inesc: Política ainda é branca e elitista

Carmela Zigoni concedeu entrevista para a Fórum e falou sobre sub-representatividade de minorias na política e possíveis soluções para a questão.

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Carmela Zigoni, assessora política do Instituto de Estudos Socioeconômicos, concedeu entrevista para a Fórum e falou sobre sub-representatividade de minorias na política e possíveis soluções para a questão

Por Matheus Moreira

A série de reportagens da Fórum sobre a sub-representatividade política de minorias étnicas e de gênero ganha mais um capítulo. Dessa vez, a assessora política do Instituto de Estudos Socioeconômicos explica os impactos da política de homens e brancos no cenário brasileiro após o primeiro turno das eleições municipais.

Fórum – No contexto atual, como os resultados obtidos no primeiro turno impactam as novas gestões e as políticas públicas?

Carmela – Então, não tenho como afirmar isso categoricamente. O fato é que foram eleitas para as câmaras municipais 32 duas mulheres negras, apenas. Considerando que temos 27 capitais, dá mais ou menos uma por câmara legislativa, ou seja, uma representatividade muito baixa para essa parcela da população. O que achamos, em geral, com essa sub-representação, é que isso impacta na política do ponto de vista de que só um segmento da população acaba sendo representado, que é o homem branco, com poder aquisitivo elevado.

Poderíamos dizer que nos próximos 4 anos as prefeituras seguem sem diversidade na sua composição e as Câmaras Legislativas locais da mesma forma. Isso pode impedir que debates sobre essas questões de gênero, racial e equidade avancem.

Fórum – Como o machismo e o feminicídio influenciam na sub-representatividade?

Carmela: Tanto o racismo como o machismo institucional influenciam muito. Principalmente o racismo e o sexismo dentro dos próprios partidos. Você pode observar que já há poucas candidatas e as poucas que têm nos partidos são alocadas para preencher a cota de 30% de mulheres. Essas candidatas são mais fracas, tem menor financiamento, menor visibilidade na mídia. Por isso, muitas vezes, elas concorrem e não conseguem ganhar. É uma questão que precisa ser debatida dentro dos partidos políticos.

Hoje temos a cota legal para mulheres, para negros e negras ainda não existe. O que é problemático, pois não existe nenhum mecanismo que incentive uma ação afirmativa, que leve os partidos a terem candidatos racialmente mais diversos.

Fórum – Quais as possíveis saídas para a maior representatividade de gênero e étnica no cenário político?

Carmela: Acho que esse debate precisa ser feito pelos movimentos sociais junto com as mulheres e com os negros [pretos e pardos], de forma que tenham a prioridade de voz para dar sequência a discussão sobre mais espaços na sociedade. O que vemos nas eleições é um reflexo da sociedade em que vivemos, de modo geral. Uma sociedade que tem uma herança colonial muito forte, sexista, racista. A primeira coisa é fazer um amplo debate com os segmentos que são sub-representados.

Se tivesse que propor algo, seria a implantação de ações afirmativas, além das mulheres, para negros e negras, e não só para candidaturas, para garantir também vagas, pessoas eleitas. Um sistema de listas alternadas que garanta que vá haver mulheres eleitas, pois não adianta que 30% se candidate se mais tarde menos de 10% serão eleitas, como nas últimas eleições. Resumindo: ações afirmativas e debate com a sociedade.

Fórum – Em tempos de pós-impeachment e de governo Temer, como discutir racismo e machismo institucional com governantes que são, em sua maioria, homens e brancos?

Fórum – Isso é muito complicado. Mesmo antes do processo de impeachment nós já tínhamos um parlamento extremamente conservador, de maioria que representava interesses privados e não interesses sociais. Um parlamento fechado para a sociedade, com controle para entrada de pessoas, dialogo e dificultando pessoas que desejavam assistir sessões.

Com o impeachment isso é reforçado, pois é o modelo colocado. Há também a questão simbólica forte. Esse novo governo [Temer] cortou as agendas de direitos humanos, de mulheres e negros, cortou o orçamento, que já era muito baixo, que não representava nada, nem um risco para o orçamento.

O destinado para a população negra, por exemplo, era de 0,08%. Então é um corte simbólico que passa uma mensagem para a sociedade: a questão de raça e gênero não é prioritária para esse governo ou é uma questão a ser trabalhada do ponto de vista machista, colocando as mulheres em papéis secundários. Vemos isso com o retorno da questão do primeiro-damismo, o retorno das primeiras damas assumindo espaços técnicos. Agora você vem com uma política que não foi dialogada em conferência, sobre as novas políticas implementadas. Vemos um retrocesso pelo ponto de vista do debate com a sociedade.

Fórum – Gostaria de ressaltar algo ou de comentar algo que eu não tenha perguntado sobre?

Carmela – Aquilo que te disse no início: foram eleitas apenas 32 vereadoras negras nas capitas, o que nos dá uma média de 1 mulher negra por Câmara Legislativa no Brasil. Essa representatividade é muito baixa, apesar de, por exemplo, a Áurea Carolina ter sido eleita e a mais votada, as mulheres negras ainda estarão sub-representadas.

 

Foto: reprodução vídeo INESC



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