Um em cada dois indígenas assassinados no Brasil vive no Mato Grosso do Sul

Plataforma elaborada pelo site InfoAmazônia compila os dados de assassinatos contra a população indígena brasileira desde 1985 Por Victor Labaki...

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Plataforma elaborada pelo site InfoAmazônia compila os dados de assassinatos contra a população indígena brasileira desde 1985

Por Victor Labaki

Um mapa interativo que compilou os dados dos relatórios anuais feitos pela Comissão Pastoral da Terra (CPT) e o Conselho Indigenista Missionário (CIMI) com o número de assassinatos contra a população indígena aponta que 1 em cada 2 dessas mortes ocorrem no estado do Mato Grosso do Sul (MS). Os números estão disponíveis na plataforma CACI (Cartografia dos Ataques Contra Indígenas), feita pelo site InfoAmazônia.

“A cada dois assassinatos no Brasil, um é no Mato Grosso do Sul. O grau de violência só aumenta. Hoje, por exemplo, você tem 123 áreas de retomadas dentro do estado do Mato Grosso do Sul. Não é a toa que a violência lá ela está no nível de descontrole e nesse nível de impunidade que está colocado”, disse Marcelo Zelic, fundador do Armazém Memória e pesquisador da história recente das violações contra povos indígenas.

Desses assassinatos no MS, 89% foram cometidos contra Guarani-Kaiowá. Para Zelic, há um genocídio em curso contra esse povo.

“No Mato Groso do Sul os Guarani- Kaiowá vivem um processo de genocídio. O genocídio se dá por toda uma forma com que o estado oprime através dos confinamentos, da negação do direito a mais terra que faz com que a cultura atrofie também. O índice de assassinatos internos também é altíssimo”, completou.

O dossiê sobre o extermínio contra a população Guarani Kaiowá presente na plataforma aponta que eles vivem sob uma densidade populacional elevada, com 34 hab/km². Zelic contou que a violência no MS está em um grau tão alto que os casos de intimidações e tentativas de assassinatos não pararam nem com a presença de uma comissionária de direitos humanos ONU na região.

“Nem com a presença dela cessaram os ataques e as ameaças. É uma situação que mostra muito a configuração política de hoje a serviço de tirar as terras indígenas e implementar a ferro e fogo o desenvolvimento”, afirmou.

Um desses casos aconteceu com uma liderança indígena em Dourados que sofreu um atentado e ficou ferido depois de ter sido atingido por 10 tiros de chumbo antes mesmo da comissionária da ONU sair da cidade.

“Vieram indígenas e lideranças de várias regiões lá do Estado para recepcioná-la e 40 minutos depois um dos oradores, o rezador de uma comunidade, sofre um atentado. Ela nem tinha saído do carro para o próximo evento. Quando ela se desloca para Campo Grande, antes de ir para a Bahia, um indígena em Dourados é ferido a bala, com um tiro de arma que dispara 10 tipos de chumbinhos juntos. Ele ficou com o corpo todo furado, ele podia ter morrido na hora. Isso com ela no próprio estado, uma observadora de direitos humanos no Brasil. Os ruralistas do Mato Grosso do Sul perderam a vergonha na cara”, disse.

Os dados do Caci, que em guarani também significa dor,  ficam disponíveis em um mapa interativo e podem ser filtrados de acordo com os povos, estados, o ano ou período. A plataforma também possibilita o cruzamento dos casos de homicídios com as áreas de desmatamento e construção de hidrelétricas. O mapeamento reuniu os números dos últimos 30 anos. Desde então, 947 índios foram assassinados em todo território brasileiro.

Dentro desse cenário, Tiago Karaí, liderança guarani-mbya e um dos coordenadores da Comissão Guarani Yvyrupa, organização indígena autônoma que congrega os povos guarani do Sul e Sudeste do Brasil, disse que para ser um indígena no Brasil é preciso “estar afiado e com as flechas prontas para ir para luta”.

“Para mim o guarani já é condenado desde que nasce porque você tem que lutar, você tem que resistir, você tem que levar essa luta adiante. Você é responsável para carregar esse monte de responsabilidade que vem a partir do que você é, um guarani. Na verdade os guaranis que nascem já nascem na luta”, disse Tiago, que estava presente no lançamento da plataforma nesta terça-feira (11), em São Paulo.

Para ele, a questão indígena não é tratada com a seriedade que deveria ser tratada porque fere os interesses dos poderosos e “atrapalha o progresso”.

“Para mim não tem um interesse real dos poderosos de querer mostrar essa realidade, isso prejudicaria bastante os poderosos aqui do Brasil. É uma estratégia deles de não deixar isso vazar, da mídia não mostrar isso também”, contou.

O projeto foi feito pelo InfoAmazônia em parceria com a Fundação Rosa Luxemburgo e Armazém Memória.

No mesmo evento também houve o lançamento do HQ Xondaro, da editora Elefante, que conta a história de resistência do povo Guarani dentro da cidade de São Paulo. O roteiro e arte da obra é de Vitor Flynn Paciornik.

Em 60 páginas, os desenhos retratam cenas da mais recente onda de manifestações dos Guarani Mbya, pela demarcação de suas terras na cidade de São Paulo, como o fechamento da Rodovia dos Bandeirantes em 2013 e a ocupação do Monumento às Bandeiras.

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