Confronto entre esquerda e direita marca 2° turno no Rio, Grande São Paulo e Recife

Apesar do declínio do PT em 2016, em cidades importantes o segundo turno das eleições municipais traz embates caracterizados pela polarização nítida entre os dois campos Por Eduardo Marretti, na RBA...

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Apesar do declínio do PT em 2016, em cidades importantes o segundo turno das eleições municipais traz embates caracterizados pela polarização nítida entre os dois campos

Por Eduardo Marretti, na RBA

Apesar do declínio do PT em 2016, o segundo turno das eleições municipais, no próximo domingo (30), traz embates caracterizados pela polarização nítida entre os campos da esquerda e da direita em algumas cidades importantes. Candidatos de alas progressistas têm possibilidade de se eleger em duas das principais capitais do país, Rio de Janeiro e Recife.

Na capital fluminense, Marcelo Freixo (Psol) disputa a prefeitura contra o neopentecostal Marcelo Crivella (PRB), bispo da Igreja Universal. Segundo o Datafolha, Crivella tem 46%, contra 27% de Freixo. Em Recife, a disputa é entre Geraldo Julio (PSB) contra João Paulo (PT).

Na região metropolitana de São Paulo, as eleições de Mauá e Santo André também trazem confrontos bem marcados entre os campos da esquerda e da direita. Atila Jacomussi (PSB) e o atual prefeito, Donisete Braga (PT), vão disputar o segundo turno em Mauá. Em Santo André, o prefeito Carlos Grana (PT) tenta se reeleger enfrentando Paulo Serra (PSDB).

No interior de São Paulo, a cidade de Sorocaba também registra o duelo esquerda x direita. O deputado estadual Raul Marcelo (Psol) tem pela frente José Crespo (DEM). O candidato do Psol é considerado uma surpresa no estado.

O cientista político Vitor Marchetti, da Universidade Federal do ABC (UFABC), avalia as eleições e algumas das principais características do pleito nessas cidades. Para ele, apesar de ainda incipiente, o Psol se destaca neste segundo turno no campo progressista. “O partido tem ocupado um papel importante, nesse momento de crise por que passa o PT. A principal vitrine do Psol representando a esquerda sem dúvida é o Rio”, observa. O partido ainda disputa o segundo turno em Belém, com Edmilson Rodrigues (Psol), além de Sorocaba.

No Rio, um fato surpreendente chamou a atenção na campanha do segundo turno: os ataques do sistema Globo e da revista Veja a Marcelo Crivella e o conflito entre o candidato do PRB e a TV Globo. Para Marchetti, esse conflito não é tão estranho quanto parece e passa pelo campo do comportamento e pelos interesses da Globo em oposição à TV Record.

“Se você pegar a evolução das bancadas evangélicas nos últimos anos, elas estão em franca ascensão. Talvez algum grupo hegemônico ligado à Globo tenha identificado que uma vitória do Crivella poderia ser um fortalecimento ainda maior desses grupos evangélicos”, avalia.

Marchetti lembra que o Rio sempre foi um reduto importante das igrejas neopentecostais. “Talvez o cálculo (dos que atacam Crivella) seja evitar um Garotinho, ou até pior para esses interesses”, diz, em referência ao ex-governador Anthony Garotinho (1999-2002).

Marchetti discorda de avaliações segundo as quais a ascensão de Freixo seria uma reação progressista à possível “direitização” da cidade, se Crivella se eleger. “Não vejo uma reação contra o direitismo. A periferia do Rio é muito conectada à agenda neopentecostal. Talvez a Globo esteja com medo de uma força contra-hegemônica que vem crescendo no Rio. Algumas agendas que a Globo trabalha em termos de comportamento parecem mais palatáveis e conectadas com o Freixo do que com o Crivella”, diz o analista da UFABC.

O analista também discorda parcialmente da avaliação do deputado Chico Alencar (Psol-RJ), segundo a qual “o Rio de Janeiro tem uma tradição mais libertária do que conservadora”, e por isso as chances de Freixo aumentam. “Na zona sul tudo bem, mas na periferia (o chamado subúrbio) não. A diferença entre o comportamento do eleitor da periferia do Rio e o do morador da zona sul é grande. Na zona sul você tem esses bolsões mais libertários, que estão tensionados por conta do que está ocorrendo no país”, avalia Marchetti. “Mas eu não diria que o Rio é uma cidade disposta a ser mais libertária. É só olhar o perfil dos governadores e prefeitos dos últimos anos, que não têm nada a ver com isso.”

Os últimos prefeitos do Rio foram Cesar Maia (PMDB e depois PFL), Luiz Paulo Conde (PFL), novamente Cesar Maia (transitando do PTB ao DEM) e Eduardo Paes (PMDB).

ABC

Em Santo André, além de ser marcada pela reedição da velha polarização entre PT (Carlos Grana) x PSDB (Paulo Serra), que marcou as eleições no país nos últimos 22 anos, a eleição traz um fato curioso: o candidato tucano foi secretário do próprio prefeito do PT, na pasta de Mobilidade, Obras e Serviços, quando era do PSD, em 2013. “Com isso, Paulo Serra tem dificuldade de surfar na onda antipetista, porque sempre alguém lembra dessa conecção anterior”, afirma o professor da UFABC.

Segundo Marchetti, o candidato do PSDB tem feito tentativas de produzir material usando as ideias de “tucano gestor”, como o prefeito eleito João Doria, em São Paulo, e que representa a superação do PT. “Mas é difícil manter esse discurso quando os dois candidatos já estiveram juntos numa composição de governo.”

Em Mauá, Atila Jacomussi (PSB) e Donisete Braga (PT) fazem o segundo turno. Atila é de família de políticos, tem um histórico familiar de pertencer à classe política da região, e tenta resgatar esse histórico. “Na cidade, há menos polarização nessa questão esquerda x direita. O discurso de Atila do PSB está mais ligado a seu vínculo com a cidade”, diz Marchetti.

Além disso, o adversário do prefeito Donisete vem do PCdoB. “Por isso, ele tem dificuldade de fazer um discurso do antipetismo, de esquerda versus direita. O passado não permite. É a mesma dificuldade do Paulo Serra em Santo André, embora este tenha embarcado com mais força nesse discurso. Mas Atila está cauteloso, não tem feito discurso de que vai ‘salvar Mauá do PT’”, observa o analista da UFABC.

Recife

A capital de Pernambuco, onde Geraldo Julio (PSB) disputa com João Paulo (PT),  sempre foi um estado importante quanto ao papel da esquerda, lembra Marchetti. É de lá, por exemplo, uma das maiores lideranças da esquerda do país, Miguel Arraes. “É um estado e uma capital com tradições ligadas a uma agenda de esquerda, com um capital importante do PT, por conta de gestões bem sucedidas. João Paulo é liderança petista importante na cidade e teve gestões reconhecidas”, avalia o cientista político.

Com essa cultura política, a eleição na capital pernambucana não é tão marcadamente polarizada. Mesmo o PSB local é muito diferente do PSB de São Paulo, destaca Marchetti. “Basta comparar dois quadros do partido: Eduardo Campos (ex-governador de Pernambuco, morto em 2014) e Márcio França (vice-governador de São Paulo). Campos era a possibilidade de uma centro-esquerda ou uma esquerda que pudesse ser pós-PT, cujo espólio está sendo disputado em Pernambuco. Já França representa um PSB bastante marcado por um perfil de direita.”

Em Recife, Geraldo Julio tem 54%, segundo o Ibope, e João Paulo aparece com 36%.

Sorocaba

Já sobre a cidade do interior paulista, que fica a 80 quilômetros da capital, Marchetti avalia como tendo um cenário surpreendente, com a ascensão do deputado estadual Raul Marcelo, do Psol. “Os partidos de esquerda geralmente têm mais espaço nos centros urbanos, onde se conectam a agendas mais progressistas. É interessante que numa cidade do interior surja um candidato de um partido que está tentando ocupar espaço à esquerda e consiga ir ao segundo turno”, diz o professor.

Entre as cidades abordadas nesta reportagem, Sorocaba é onde a esquerda tem mais chance de vencer. Segundo o Ibope, há empate técnico entre os candidatos do DEM e do Psol. O conservador José Crespo tem 52% dos votos válidos, e  Raul Marcelo aparece com 48%,

O Psol também disputa o segundo turno em Belém, com Edmilson Rodrigues, que tem como adversário Zenaldo Coutinho (PSDB). A esquerda ainda está no páreo em Aracaju, onde Edvaldo Nogueira (PCdoB) enfrenta Valadares Filho (PSB).



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