Contra a corrupção somos todos. Mas…

A corrupção no Brasil tem gênero, classe, raça, etapa geracional, orientação sexual, (pelo menos a apresentada ao mundo social), corpo com deficiência Por Adriana Dias* ...

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A corrupção no Brasil tem gênero, classe, raça, etapa geracional, orientação sexual, (pelo menos a apresentada ao mundo social), corpo com deficiência

Por Adriana Dias* 

3 novos pontos para pensar a LAVA JATO à luz das dez medidas.

Contra a corrupção somos todos. Mas, às vezes, no Brasil, sinto que se luta contra a corrupção do vizinho, do adversário, do inimigo, e principalmente, dos poderosos,  se não se importam conosco.

Lendo o Brasil, tarefa inglória, mas que escolhi, sempre tenho a sensação de que apenas se odeia o político que foi denunciado, que se deixou pegar. O ladrão “que rouba, mas faz”, e permanece impune, parece intocável. Até defensável: pergunte a todo taxista de São Paulo, qual o maior governador e prefeito da história e você quase sempre ouvirá o nome de um investigado pela Interpol, morador do bairro Europa, que furou São Paulo inteira atrás de petróleo…Ando bastante de táxi, por conta da minha deficiência, e na grande maioria (esmagadora) das vezes, parece que o sujeito é um semideus… Sempre tido como o que mais ajudou os taxistas. No discurso, portanto, não interessa a corrupção do dito cujo. Mas, compare ele com um político presidenciável do PT e ouvirá que está defendendo vagabundo e ladrão. Mesmo que não se ache provas, minuciosamente procuradas.

A corrupção no Brasil tem gênero, classe, raça, etapa geracional, orientação sexual,  (pelo menos a apresentada ao mundo social), corpo com deficiência. Se é um jovem, homem, do Jardim Europa, branco, com milhares de dólares na conta, sem defeito, é “novo”, “não político”, “arejado”, mesmo que sua família esteja em cargos públicos há quinze gerações. Ou tenha parentesco com Pero Vaz de Caminha.

Mas, se é metalúrgico, mulher, petista ou negro a turma da classe média, também conhecida como eu sei o que você fez na fila ou no imposto de renda passado, imprime o rótulo de vagabundo.

Não é “pessoa de bem”. Lembro a todos que o Jornal da Ku Klux Klan do século XIX aos anos 40, gritou continuadamente para que as “pessoas de bem” queimassem ou pendurassem os “outros” em árvores.

Mas, queremos todos, medidas de combate a corrupção! Queremos? 2 milhões de pessoas assinaram um pedido que parece gritar que sim. Mas, desses, quantos leram as medidas e as propostas legislativas E ENTEDERAM EXATAMENTE o que ali está escrito? Você leu mesmo, todos os projetos de Lei? Entendeu o que estava escrito lá, ou ficou no resumo para leigos feito pelo MPF? Porque, prezadas e prezados, não assino nada sem ler. Você também leu?

Desenvolvo Projetos de Lei há bastante tempo para saber que escrever um é muito difícil. Mais que boa intenção, essa que pavimenta atalhos para lugares poucos salubres, é preciso definir muito bem cada elemento, pois quanto mais dúbia, mais a lei permitirá interpretações, e se é para combater ROUBO DE DINHEIRO PÚBLICO, acredito eu, não deve haver margens ou nuances tão borradas…

Num post anterior eu pensei alguns pontos da LAVA JATO. Você pode ler ou rever aqui: http://www.revistaforum.com.br/2016/05/17/dez-pontos-da-lava-jato/

As medidas são ou não são o que desejamos? Depende. Isso ficou claro no boicote a elas por Gilmar Mendes e pela Câmara em desespero. Mas, parte da esquerda também gritou. Quem está certo? Todo mundo um pouco.

Parte grita porque, obviamente não quer ser presa pela corrupção de cada dia. Parte defende o Estado de Direito, que em muitos momentos as medidas deixam frágeis. Ninguém pode, realmente, cometer crime para combater crime, e por outro lado, ninguém deveria estar acima da lei.

Então a gritaria foi geral. Porque se percebeu a tempo que os golpistas queriam enfim o fruto do seu trabalho, o poder total na mão dos que investigam. Gritaram eles, os moços de Curitiba, quando as velhas aves de rapina usaram o argumento de “que ninguém está acima da lei” para tentar criminalizar a eles, os investigadores. Gritou os que acreditam que combate a corrupção não pode rimar com produção de prova de forma ilícita nem abuso de poder.

No final, perdemos todos. Porque, como os que assinam sem ler, parece que o Brasil vai virar de vez a Bananalândia… Em que o corrupto ameaça o investigador que ameaça o corrupto que ameaça o investigador que ameaça o corrupto que ameaça o investigadorque ameaça o corrupto que ameaça o investigador que, sem fim,  ameaça o corrupto que ameaça o investigador, num espelho que reflete a si mesmo?

Tudo no final demonstra: foi golpe. Os corvos agora comem os olhos uns dos outros? Afinal é o investigador uma face do golpe, é o corrupto a outra face dele

Volta Dilma, que democracia é muito melhor que esse delírio que vivemos, totalmente sem saída.

*Adriana Dias é Bacharel em Ciências Sociais em Antropologia, Mestre e Doutoranda em Antropologia Social – tudo pela UNICAMP. É também coordenadora do Comitê “Deficiência e Acessibilidade” da Associação Brasileira de Antropologia e coordenadora de pesquisa tanto no Instituto Baresi (que cria políticas públicas para pessoas com doenças raras) quanto na ONG ESSAS MULHERES (voltada à luta pelos direitos sexuais e reprodutivos e ao combate da violência que afeta mulheres com deficiência). É Membro da American Anthropological Association, e foi membro da Associação Brasileira de Cibercultura e da Latin American Jewish Studies Association



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