Levantamento comprova massacre midiático contra PT

Estudo apresentado ao juiz Sérgio Moro e à Comissão Internacional de Direitos Humanos da ONU demonstra massacre midiático sofrido por Lula e Dilma. Leia aqui entrevista com João Feres Júnior, autor da pesquisa Por Redação...

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Estudo apresentado ao juiz Sérgio Moro e à Comissão Internacional de Direitos Humanos da ONU demonstra massacre midiático sofrido por Lula e Dilma. Leia aqui entrevista com João Feres Júnior, autor da pesquisa

Por Redação

A defesa do ex-presidente Lula apresentou ao juiz Sérgio Moro e à Comissão Internacional de Direitos Humanos da ONU estudo científico sobre a cobertura da imprensa brasileira, que comprova tecnicamente — e com números impressionantes — o massacre midiático contra o ex-presidente.

De acordo com este estudo, entre o final de dezembro de 2015 e agosto de 2016, foram ao ar no Jornal Nacional praticamente 13 horas de notícias negativas sobre o ex-presidente, apenas 4 horas de noticiário considerado neutro e nem 1 segundo de notícias com viés positivo.

O autor do estudo é o cientista político, sociólogo e mestre em Filosofia, João Feres Júnior, vice-diretor do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da UERJ e coordenador do Laboratório de Estudos de Mídia e Esfera Pública (LEMEP) – que faz o levantamento do Manchetômetro, um site que acompanhou a cobertura das eleições de 2014 na imprensa, expondo as tendências da mídia em relação a cada candidato.

João conversou com a Fórum sobre o massacre midiático sofrido pelos ex-presidentes Lula e Dilma, o comportamento do noticiário político em geral e o que se pode esperar sobre o assunto daqui para frente.

Fórum: O seu estudo aponta um massacre midiático por parte do JN, telejornal de maior audiência do país, contra o Presidente Lula. O JN tinha, de fato, elementos para denunciar o ex-presidente Lula com tamanha intensidade?

João Feres Júnior: Nossa análise não entra nesses meandros, isto é, com o tipo de pesquisa que fazemos não dá para avaliar se o JN tem ou não elementos. Dá, porém, para verificar que em 2016 a cobertura do presidente Lula foi extremamente negativa tanto em comparação ao padrão de cobertura do próprio Lula ao longo dos anos, como em comparação a outras figuras políticas de destaque, como Aécio Neves e Fernando Henrique Cardoso, ambos objetos de várias denúncias de corrupção. Nosso estudo também mostra que somente de janeiro a agosto de 2016 o presidente Lula foi objeto de 14 horas de matérias negativas, ou seja, que de alguma maneira lhe eram desfavoráveis. Também podemos dizer que quase metade dessas matérias continham algum tipo de acusação contra Lula, geralmente partindo da boca de algum entrevistado na reportagem. Praticamente todas essas acusações são de corrupção.
A nuvem de palavras obtida a partir dos textos de todas as matérias mostra bem isso:
Nuvem Manchetômetro
Parece haver um esforço para conectar Lula à Operação Lava Jato, apesar da inexistência de provas materiais.

Fórum: Em diversos momentos, principalmente quando, em março deste ano, o JN divulgou gravação de conversa entre Lula e Dilma, a reação popular foi muito intensa como, por exemplo, o Palácio do Planalto cercado por manifestantes imediatamente após a veiculação do programa. Em sua opinião, o comportamento do JN foi determinante no impeachment da Presidente Dilma?

João Feres Júnior: Acho que a maneira como vc coloca a questão inexata. O povo brasileiro está muito dividido. Aqueles que foram bradar em frente ao Palácio do Planalto pertencem aos setores mais exaltados da direita e pessoas despolitizadas que foram capturadas pelo intenso discurso anti-petista da grande mídia. É difícil isolar a contribuição do JN para o sucesso do impeachment. Mas me parece inequívoco que a campanha de mídia movida contra Dilma, Lula e o PT contribuiu em muito para produzir um clima de opinião favorável ou passivo, para organizar e chamar às ruas os setores mais exaltados, para colocar pressão sobre ministros do Supremo e políticos e para organizar as elites interessadas no golpe, como ruralistas, empresários etc.

Fórum: Que comparações podemos fazer entre a atuação do JN neste momento com a de 1989, na conhecida edição do JN na véspera da eleição entre Collor e Lula?

João Feres Júnior: Acho que são diferentes. Em 1989 tivemos a edição escandalosamente enviesada do debate final entre Lula e Collor e também, não nos esqueçamos disso, a cobertura do “sequestro” de Abílio Diniz, que foi atribuído de maneira ao PT, a despeito de não haver evidências para provar o envolvimento do partido no ato. Até pouco tempo o Jornal Nacional era, entre os jornais da Globo, o menos enviesado contra o PT. Isso não quer dizer que não houvesse viés, havia sim, mas talvez por temer afastar telespectadores das classes populares em períodos que Lula e mesmo Dilma gozavam de altíssimos níveis de aprovação popular, os editores seguravam a mão – coisa que nunca fizeram em outros jornais televisivos, como o Jornal da Globo e o Jornal das 10, da Globo News. Contudo, a partir da eleição de 2014 o JN mudou de filosofia e passou a assumir uma postura mais abertamente politizada contra o PT, inclusive com comentários dos âncoras e reportagens altamente enviesadas. Isso alcançou um pico de negatividade em março de 2016.

Fórum: Qual a repercussão do seu estudo na sede da Comissão de Direitos Humanos da ONU?

João Feres Júnior: A análise que fizemos vai além das mídias do Grupo Globo, como O Globo, Época e Jornal Nacional. Incluímos Folha de S.Paulo, Estadão e Veja e mostramos tratar-se de uma verdadeira campanha contra Lula. Uma massa de cobertura negativa que não se verifica em relação a políticos de notoriedade comparável e objetos de várias denúncias de corrupção, como Aécio e Fernando Henrique.

Fórum: Com a sua larga experiência estudando o comportamento da mídia no Brasil e, sobretudo, produzindo o Manchetômetro, você acredita em alguma possibilidade do Brasil ter uma imprensa mais imparcial ou, ao menos, mais equilibrada?

João Feres Júnior: Eu não acredito que as coisas melhorem, pelo menos no médio prazo. A internet não tem condições econômicas de produzir conteúdo jornalístico em volume para competir com as mídias tradicionais e não vejo articulações que viabilizem mídias mais plurais e alternativas. Apesar de estarem em crise econômica, as grandes empresas de mídia do Brasil detêm praticamente o monopólio da produção de conteúdo jornalístico. O ataque rápido e arrasador do Governo Temer à EBC é sinal claro do quão importante é a mídia para a manutenção do grupo que ora assaltou o poder.



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