Rolling Stones: A maior banda do mundo toca suas raízes

“Blues & Lonesome”, álbum novo dos Stones é cheio de covers dos grandes blues de Chicago, com os quais a banda nasceu, foi criada, almoçou e jantou. O disco é tão bom, tão bom, mas tão bom que as vezes a gente acha que...

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“Blues & Lonesome”, álbum novo dos Stones é cheio de covers dos grandes blues de Chicago, com os quais a banda nasceu, foi criada, almoçou e jantou. O disco é tão bom, tão bom, mas tão bom que as vezes a gente acha que não é verdade.

Julinho Bittencourt

Depois de onze anos sem entrar num estúdio, os longevos e irresistíveis Rolling Stones acabam de lançar “Blues & Lonesome”, um álbum cheio de covers dos grandes blues de Chicago, com os quais a banda nasceu, foi criada, almoçou e jantou. O disco é tão bom, tão bom, mas tão bom que as vezes a gente acha que não é verdade.

Não bastasse isso tudo, quem estava gravando na sala ao lado e aproveitou para participar de duas faixas foi nada mais nada menos que Eric Clapton. O resultado final é difícil definir em palavras. É a excelência em formação enxuta, amelhor tradução do que a maior banda de rock do planeta é capaz. Um disco para ficar na história. Os maiores músicos de blues ingleses tocando os maiores compositores americanos do gênero. Enfim, uma porrada.

Tire a sua mãe da sala e deixe chacoalhar as vidraças. O negócio é sério e deve ser consumido bem alto. Ouvir coisas como “Just Your Fool”, de Buddy Johnson; “Commit a Crime”, de Howlin Wolf; “Just Like I Treat You”, de Willie Dixon entre outras canções vestidas com este vigor e potência e imaginar que os rapazes que as estão executando são senhores que já passaram dos setenta é restaurar, de maneira enviesada, a fé na humanidade.

O disco foi feito em apenas três dias, ou seja, a banda – Mick Jagger, Keith Richard, Charlie Watts e Ron Wood – acompanhada de cinco músicos de apoio: Eric Clapton, Guitarra em “Everybody knows about my good thing” e “I can’t quit you baby”; Darryl Jones, contra baixo; Chuck Leavell e Matt Clifford, Teclados e Jim Keltner, Percussão em “Hoo doo blues”, nos entrega uma gravação irretocável, com jeitão de ao vivo, mas com um nível zero de imperfeição. Os discípulos ingleses deixariam, sessenta anos depois, seus tutores parvos de orgulho com o resultado final.

Tudo o que se puder dizer a respeito de “Blues & Lonesome” é pouco. Poucas vezes na história da indústria fonográfica a fome e a vontade de comer foram unidas de forma tão magistral. As guitarras de Richards e Wood conversam livremente entre as canções, costuram solos e riffs, conduzem tudo com maestria. A canção “Everybody knows about my good thing”, uma das melhores do disco, conta ainda com Clapton. A alternância das três guitarras, a ocupação dos espaços, o equilíbrio perfeito entre emoção e clareza, formam um lindo resultado final. Clapton volta ainda no final do disco um pouco menos visceral, mas também certeiro, em “I can’t quit you baby”.

Jagger está no esplendor. Canta essas canções desde sempre e se sai desta vez melhor do que nunca. Sua voz mantém o brilho, carrega a banda, consegue agudos e graves com a mesma destreza emocionada, canta, enfim, canta muito e cada vez mais. Charlie Watts, com seus acentos no tempo fraco, sua batida forte no inesperado, é a última ponta do enigma, o coração dos Rolling Stones, uma banda assombrosa.

“Blues & Lonesome” é o último e melhor presente de um ano bom de ser esquecido. Não vou me desculpar pelos exageros. É tudo verdade. Vida longa aos Rolling Stones.

 



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