Música de estrada, de massa e de boi

Coitados, dir-se-ia não escutam nem o canto do ar nem os segredos do feno, como também parecem...

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Coitados, dir-se-ia não escutam nem o canto do ar
nem os segredos do feno, como também parecem
não enxergar o que é visível e comum a cada um de nós, no espaço.
Carlos Drummond de Andrade.

Uma viagem de Fortaleza até Iguatú demora de seis a sete horas. É uma descida para o sul quente e seco do interior, cujo caminho principal é a rodovia mais conhecida dos brasileiros do nordeste, a BR 116, a qual, em certo trecho do Ceará, recebeu o nome do Santos Dumont, o tangará brasileiro. Todavia, se tivesse recebido o nome de Padre Bartolomeu de Gusmão ou aribaçã talvez revelasse muito mais a respeito do gosto do cearense por deslocamentos, velocidade, estradas e alturas.

            Aos 30 minutos da viagem descobri que o rádio do carro alugado não sintonizava, o que me levou, por um instante, à vontade de gorar a visita aos parentes. Passado o susto, a primeira alternativa para resolver o problema foi cantarolar alguma música. Pela incrível força sugestiva do contexto, que às vezes se disfarça de intuição, lembrei-me de Autobahn, do Kraftwerk, e nesse momento fui tomado por uma surpresa: era impossível cantá-la, pois Autobahn é uma música para ser ouvida enquanto dirige.

            Essa constatação de que algumas músicas não podem ser cantadas, sugerindo que a única reação possível diante delas seria ouvi-las como um acalanto, levou-me a pensar no meu jeito se relacionar com a música. De maneira geral (isso não valida a ausência de um rádio) essa relação se dá mais pela boca e pelo corpo do que pelos ouvidos. Explico: se me deparo com uma melodia, logo vem a vontade de criar uma letra, de improviso. Se for uma canção, então cantar junto é, digamos, a maneira de ouvir.

            Por isso, de certa forma, travei ao entoar Autobanh, do Kraftwerk. Entretanto, mesmo que houvesse uma enorme distância estética e até espiritual no modo de se relacionar com a música, a força do contexto não tinha me pregado uma peça. O que havia de comum entre o som dos alemães austeros e impessoais, dos “men machine” e minha descida para o sul cearense eram três elementos: o carro, a estrada e a música. E era justamente a falta de um deles, a música, que havia tornado a viagem tão sofrível até o km 199.

            Aos 200 km, com os olhos vidrados no mar de monólitos de Quixadá, o anseio por uma música solitária dentro do carro, coisa bem egoísta, foi se desfazendo enquanto as pedras gigantes pulavam aos bocados, de um lado e de outro, como se aquele grande vale fosse um instrumento musical. Rapidamente esqueci o Kraftwerk.

            O que acontecia lá fora é chamado por R. Murray Schafer de som fundamental. São aqueles sons primeiros, como se a natureza orquestrasse uma peça com os sons dos ventos sobre a caatinga ­­- entrecortada pelos ice­bergs do sertão -, das águas dos rios, dos insetos e da vegetação. É um feixe de sons pouco perceptível pelos ouvidos mocos, mas vibrante quando sentido pelo corpo. Segundo Schafer, esse som fundamental é composto por vibrações táteis (na casa dos 20 hertz), ou seja, ele é menos audível do que percebido fisicamente. Por essa razão, ele carrega um sentido primeiro, compartilhado somente na esfera ritual como ritmo, cuja manifestação externa é a dança do corpo.

            Mas o que acontecia dentro do carro era algo completamente diferente. Minha situação de isolamento em relação à música do mundo aumentava o desejo por música de massa, música padronizada internacional, higienizada. Música com refrão, repetição do mesmo e despersonalizada; algum barulho artificial organizado. Liguei o rádio dessintonizado e um chiado poderoso tranquilizou minha demanda por menos silêncio, por meu descompromisso com aquele som fundamental externo. Era como se o estouro de freqüências de algum modo carregasse o que realmente importa: a companhia solitária dos outros. Estranhamente, o rádio dessintonizado era quase música.

            Tomando esse chiado como acompanhamento, banda de apoio, encontrei ânimo para cantar com a total falta de inibição o que aparecia à mente. Eram estrofes, estribilhos, solos e introduções das músicas mais diversas, o que para um viciado em gênero musical causaria repugnância. O fiz durante uns 70 Km, tempo de um disco com doze faixas, e depois minha voz tornou-se insuportável. A medida que a BR 122 me conduzia às lembranças de infância, à terra de Humberto Teixeira e Eleazar e Carvalho, o ruído era definitivamente a trilha sonora.

soundscape

[Soundscape Project]

 

Para Oliver Sacks, o humano tem predileção natural pela música, a musicofilia, sendo possível tomá-la como inata, como a linguagem. Ainda que certos animais também tenham algum apreço por melodias, foi o homem que se tornou o mais dependente dela. Seu uso passa por práticas religiosas, antídoto para os problemas da alma, correções morais e terapêuticos em geral, como nos diversos relatos de Sacks, no livro Alucinações musicais. Como instrumento, ela tem sido usada por governos para manter o domínio cultural; a indústria a utiliza como commodity; os músicos profissionais tentam extrair dela o modo de sobrevivência; os povos e grupos oprimidos  agarram-na como resistência. Algumas músicas, inclusive, são salvaguardadas como patrimônio da humanidade, enquanto outras são propositadamente extintas.

            Entre tantos modos de uso, foi a criação do hit, o som mais repetido pelas rádios, cinema, TV e internet, que mudou o que podemos chamar, para usar um termo de Murray Schafer, de “paisagem sonora” do inconsciente. Por isso, quando você estiver dirigindo em uma autoestrada provavelmente sentirá uma ansiedade para atingir o ápice dessa situação, equilibrando  velocidade, liberdade, autoestima, paisagens inesquecíveis, horizonte e, claro, com uma música perfeita, do tipo “I drove all night“, do Roy Orbison. Contudo, provavelmente um milhão de pessoas estarão fazendo e pensando o mesmo.

            Mas não só. A ansiedade é também por mais ruído, mecânico ou elétrico, forças, aliás, responsáveis pela repetição do hit, da música comercial. Ele repetirá tantas vezes quanto as rodas do seu carro até chegar ao seu destino. Embora o deslocamento inquestionável do corpo, a música de estrada e na estrada é a experiência do viver em loop. É quando uma determinada cultura começa a repetir-se e a espalhar-se sob outros modos de organização da vida. Com isso, o hit tornou-se uma das manifestações do conjunto de sons fundamentais surgidos a partir da era da industrialização, fazendo coro junto aos carros, às fábricas e aos aviões. É a paisagem lo-fi (congestionamento sonoro), como disse Murray Schafer.

            Como se vê, música contemporânea, automóvel e estrada estão mais entrelaçados do que normalmente se supõe. Se a igreja, as salas de concertos e as fábricas modernas eram as principais instituições irradiadoras de sons, na contemporaneidade, principalmente nos grandes centros urbanos, os carros tornaram-se mini catedrais móveis. Além da possibilidade de isolar-se do mundo externo, é possível conectar-se a centenas de rádios (sem propagandas), tocar um CD, um MP3 ou acessar Spotify, por exemplo, e ter uma experiência realmente “personalizada”.

            Outro uso nada incomum do automóvel é o de transformá-lo em um poderoso alto-falante. É como se fosse uma bomba atômica de decibéis, às vezes reverenciado como manifestação da criatividade e inovação, tal como o trio elétrico inventado por Dodô e Osmar. Nesse caso, o aspecto de democratização do carnaval (direito ao som) sustenta os graves e agudos dos baianos. Mas no dia a dia, fora das situações excepcionais, os carros domésticos “envenenados”, com subgraves (sons fundamentais sintéticos) capazes de abalar paredes e janelas, representam a desordem, um tipo de violência pública.

Strada com som paredão


 

Depois de sete horas e meia de estrada cheguei ao sul sem sair do nordeste. O sítio Tinguijado entardecia ruidosamente, mas era um ruído do tipo hi-fi, com perspectiva e definido. Ainda que o chiado do rádio dessintonizado não fosse de todo desagradável, senti-lo se dissipando junto ao vento quente  era a possibilidade de ouvir o espaço. Cada coisa estava de certa forma em uma freqüência, o que dava a sensação do som como imagem. Ouvir era como ver.

            Ao lado esquerdo da casa, num curral, o boi mascava o feno. Pude ouvir o entrechoque dos dentes, e pela respiração constante e indiferente, sabia que ele me via. Talvez pensasse: “coitado, não escuta o canto de nossos ares e nem entende nadinha do segredo desse capim, como parece, além de surdo, é um cego de todo”. O boi lia.

cow mario


 

Referências:
SCHAFER, R. Murray. A afinação do mundo.
SACKS, Oliver. Alucinações musicais.
ATTALI, Jacques. Noise – The political economy of music.

 



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