Azenha: A história de Hontêncio e dos “terroristas” que ainda está para ser contada

Veja a história de um dos presos na Operação Hashtag, aquela que supostamente desbaratou uma célula terrorista que atacaria durante as Olimpíadas. Por Luiz Carlos Azenha, em Viomundo...

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Veja a história de um dos presos na Operação Hashtag, aquela que supostamente desbaratou uma célula terrorista que atacaria durante as Olimpíadas.

Por Luiz Carlos Azenha, em Viomundo

Terrorista à brasileira from Luiz Carlos Azenha on Vimeo.

Vejam os vídeos acima, especialmente o terceiro. É o depoimento de Hortêncio Yoshitake diante de um juiz. Ele foi preso na Operação Hashtag, aquela que supostamente desbaratou uma célula terrorista que atacaria durante as Olimpíadas. Certamente esta história será um dia bem contada por algum repórter investigativo.

Ela não ficará completa sem voltar no tempo. A Guerra contra as Drogas foi formalizada em 1971 pelo então presidente dos Estados Unidos Richard Nixon. Foi a militarização do trabalho policial.

Além dos objetivos óbvios, ela escondia outros: desenvolver aparato de segurança e vigilância pela indústria, mais tarde utilizado em ações de controle de multidões (os distúrbios estudantis de 1968 pegaram a polícia de surpresa) e servir de cobertura para ações de inteligência do governo estadunidense através da DEA, a polícia das drogas, que sempre trabalhou paralelamente ao FBI, CIA e diplomacia dos Estados Unidos.

A guerra contra as drogas fracassou espetacularmente, embora o ministro da Justiça do governo golpista, Alexandre de Moraes, tenha decidido com 45 anos de atraso “erradicar” a maconha.

Foi a guerra contra as drogas que permitiu aos Estados Unidos invadir um país soberano, o Panamá, às vésperas de permitir aos panamenhos que ‘governassem’ o canal estratégico situado em seu território. Derrubaram o general Manuel Noriega não pelo envolvimento com o tráfico, mas para instalar um governo civil ‘aceitável’.

Com o suposto objetivo de controlar o tráfico, os EUA militarizaram a Colômbia e o México, com resultados desastrosos: destruição da soberania local, matança indiscriminada de civis de lado a lado e um poder ao aparato policial e militar local — a “meganhagem” — que terá impactos de longo prazo.

Na Colômbia, com o dinheiro da guerra contra as drogas altas patentes migraram para outros negócios e exercem influência política e econômica muito acima da garantida pela posição na hierarquia militar.

A Guerra contra o Terror, oficializada pelo presidente George W. Bush em 2001, seguiu pelo mesmo caminho.

Os objetivos de policiamento dela se misturam com os objetivos estratégicos dos Estados Unidos, já que se considera que qualquer ponto do planeta pode servir de plataforma para ataques a interesses dos EUA. Lançou a semente de um aparato policial, militar e judicial global.

Recentemente, uma única juíza de Virginia, nos Estados Unidos, autorizou buscas do FBI em 8 mil computadores de 120 países, numa investigação sobre pornografia.

Já a guerra global contra o terror, sob a ótica de Washington, exige legislação razoavelmente homogênea — e o Brasil, para receber a Copa e as Olimpíadas, sob a ex-presidente Dilma Rousseff, adotou a lei antiterror que levou Hortêncio à cadeia basicamente por um delito de opinião. Se todos aqueles que pregaram a morte de Dilma e do ex-presidente Lula nas redes sociais tivessem tido o mesmo destino…

Hortêncio vive na periferia de São Paulo com o irmão. Não trabalha. A mãe, o irmão mais velho e a tia vivem no Japão. A mãe manda 3 mil reais mensais para ajudar em casa. Ele passava o dia na internet. Como é muito comum nas redes, se enturmava contando lorotas e batendo no peito.

Toda a audiência tem um ar de subamericanismo de filme B, com a presença do “terrorista” Hortêncio emoldurada por agentes fortemente armados e algumas perguntas completamente sem sentido. Na sua simplicidade às vezes treinada — certamente a defensora pública o ajudou — Hortêncio deixa um procurador sem fala quando diz que as mensagens reproduzidas no processo foram “tiradas do contexto”.

A questão central é que Hortêncio não conhecia nenhum daqueles com os quais “formou quadrilha” — ele também foi enquadrado por “promover organização terrorista”. Como notou um colega jornalista, esta audiência num futuro próximo poderá muito bem tratar do MST ou do MTST.

Dos 15 presos inicialmente pela Operação Hashtag, 8 foram denunciados e apenas 4 seguem presos. Hortêncio foi solto depois da audiência, vai responder ao processo em liberdade.

Desde o primeiro ataque às Torres Gêmeas, em 1993, os Estados Unidos denunciam o risco de “terrorismo” a partir de Foz do Iguaçu, na Tríplice Fronteira.

É um lugar estratégico para o controle do Atlântico Sul, próximo à usina hidrelétrica de Itaipu e ao aquífero Guarani.

Do ponto-de-vista de Washington, de onde se originaram as informações para a Operação Hashtag — prints do Facebook e quebra de sigilo de dois grupos do Telegram — é isso o que realmente interessa: a militarização da Tríplice Fronteira diante de “iminente” ameaça terrorista.

Hortêncio teve sua vida destruída apenas para servir de bucha de canhão.



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