||Entre|| Arte e Acesso, uma experiência inovadora

Debate no Itaú Cultural discutiu acessibilidade nos campos de arte e da cultura. Por Adriana Dias* Este ano tive a oportunidade de participar nos dias 9, 10 e 11 de dezembro, da segunda edição do ||Entre||...

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Debate no Itaú Cultural discutiu acessibilidade nos campos de arte e da cultura.

Por Adriana Dias*

Este ano tive a oportunidade de participar nos dias 9, 10 e 11 de dezembro, da segunda edição do ||Entre|| Arte e Acesso, ciclo sobre acessibilidade nos campos da arte e da cultura promovido pelo Itaú Cultural. Fui convidada a falar sobre o modelo social da deficiência no primeiro dia do evento, junto com Carlos Vinícius é psicólogo e especialista em saúde coletiva e psicoterapia analítica que abordou a relação entre raça e deficiência. Fomos mediados pela linda Camila Alves, psicóloga clínica e coordenadora pedagógica do programa educativo do Centro Cultural Banco do Brasil do Rio de Janeiro (CCBB/RJ).

A iniciativa visou discutir as relações entre arte e deficiência, novos paradigmas acerca do tema da deficiência, como o modelo social, a inclusão e o protagonismo das pessoas com deficiências no campo da arte e cultura, e a acessibilidade de eventos artísticos e culturais. Um guia de planejamento para fazer eventos temporários acessíveis às pessoas com deficiência

Museus, Centros culturais, festivais de rua, feiras de artesanato, eventos musicais, eventos esportivos e casas de show são apenas alguns das muitas possibilidades para celebrar a arte e suas múltiplas manifestações, e para realmente incentivar a participação de todas as pessoas é preciso estar atento a acessibilidade desses eventos.

Não falo apenas da acessibilidade arquitetônica dos edifícios, mas da intencionalidade de planejadores, gestores, operadores e proprietários dos espaços em promover, de fato, eventos acessíveis às pessoas com deficiência. Para tanto, mais que remover as barreiras das edificações (e sim, elas precisam ser removidas!!), é preciso pensar as pessoas com deficiência, para além das cotas que garantem lugar nos espaços, é preciso pensa-las como PÚBLICO.

Incomoda-me lugares para cadeirantes no fundo do palco, ou isolados em locais, em que não possam interagir sequer com seus acompanhantes. Eu mesma, já desisti mais de uma vez de ir ao cinema ou ao teatro, porque estava cadeirante e o lugar marcado me impediria de sentar do lado dos meus amigos ou do meu marido, Marcelo.

Mas, mais que isso, incomoda-me áudio-descrição e interpretação em LIBRAS serem tão raras, que podemos contar em apenas uma mão todos os eventos que forneceram ambas durante o ano em São Paulo. Isso é vergonhoso. NÓS SOMOS PÚBLICO, queremos participar. Pela Lei, nosso acesso é garantido. Mas, planejadores, gestores, operadores e proprietários dos espaços não nos veem como público. Alguns nos pensam como cota, mas não sabem o que fazer conosco. Outros nos falam de como “estorvamos”. Como podemos exigir que a lei se cumpra sem mudar as mentalidades?

As discussões do Itaú, nessa nova lógica, de uma real participação das pessoas com deficiência nas artes, foi uma experiência por demais prazerosa. Pude assisti a Volúpia da Cegueira, uma peça de teatro experimental que discute, com atores cegos, a sexualidade e os mitos envolvidos no tema da deficiência visual. Pude ouvir a diretora dos Signatores, Adriana Somacal, falar de sua companhia que inverteu a lógica excludente e capacitista da arte, ao fazer teatro com atores surdos e em LIBRAS, com acessibilidades para os ouvintes. Chorei vendo a Paola tocar bateria, num rock fantástico, colocando o fato de ser afetada pela síndrome de Down como um pequeno detalhe. Ela é fantástica, a garota, que participa da iniciativa do ALMA DE BATERA. Pude discutir com outros colegas pensadores como estamos longe de nos vermos incluídos dentro da arte e da cultura… E como estamos dispostos a lutar por isso. Vi a potência, no sentido deleuziano, se manifestar em forma de gente na apresentação do bailarino surdo Antonie Hunter, formado pela da faculdade East Bay Center of the Performing Arts e fundador e diretor do Urban Jazz Dance Company. Absolutamente maravilhoso. Cito estes, entre muitos momentos, para demonstrar que estamos ocupando, com grandes dificuldades nosso espaço, também no campo artístico.

Arte, criatividade e crescimento cultural devem fazer parte da vida de TODAS AS PESSOAS. Que tal pensar em nos deixar entrar?

*Bacharel em Ciências Sociais em Antropologia,Mestre e Doutoranda em Antropologia Social – tudo pela UNICAMP. É coordenadora do Comitê “Deficiência e Acessibilidade” da Associação Brasileira de Antropologia, e coordenadora de pesquisa tanto no Instituto Baresi (que cria políticas públicas para pessoas com doenças raras) quanto na ONG ESSAS MULHERES (voltada à luta pelos direitos sexuais e reprodutivos e ao combate da violência que afeta mulheres com deficiência).



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