Por que os trabalhadores são cada vez mais pressionados?

Para a pesquisadora Ana Tercia Sanches, a pressão se tornou um elemento banal no cotidiano das grandes empresas, fruto da lógica de curto prazo presente no ambiente de trabalho. “Essa pressão contínua exercida sobre as pessoas pode implicar no adoecimento”, alerta.

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Para a pesquisadora Ana Tercia Sanches, a pressão se tornou um elemento banal no cotidiano das grandes empresas, fruto da lógica de curto prazo presente no ambiente de trabalho. “Essa pressão contínua exercida sobre as pessoas pode implicar no adoecimento”, alerta.   

Por Adriana Delorenzo

 

A pressão por produtividade tornou-se parte do cotidiano do trabalhador, principalmente para os bancários. As metas são cobradas em prazos cada vez mais curtos. Esse foi o tema abordado por Ana Tercia Sanches em sua tese de doutoradoA grande corporação bancária e os meandros do processo de trabalho – apresentada na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, da Universidade de São Paulo (USP). Ana, que é diretora do Sindicato dos Bancários de São Paulo e professora da Faculdade 28 de Agosto, mantida pela entidade, pesquisou como a lógica de curto prazo das grandes empresas reverberam nos trabalhadores. Na entrevista a seguir, ela explica esse cenário, que, muitas vezes, acaba levando pessoas ao adoecimento e comenta ainda as propostas do governo Temer para promover uma minirreforma na CLT (Consolidação das Leis do Trabalho). “As medidas do governo Temer vão atingir em cheio esses trabalhadores que são das grandes empresas que estão formalizados”, diz.

Revista Fórum – Em sua tese, você analisa como a lógica de curto prazo está presente no ambiente de trabalho bancário. Como isso pode ser visto no cotidiano do trabalho?

Ana Tercia Sanches – Alguns elementos apontam para essa lógica cultural de curto prazo aplicada ao processo de trabalho. A partir do momento em que as grandes corporações bancárias se inserem na competição internacional e lançam ações em mercados altamente competitivos, como é o caso da Bolsa de Nova Iorque, passam a ter que dar retorno em termos de transparência e satisfação para os acionistas. Assim, há uma série de relatórios para posicionar esses acionistas sobre os resultados dessas corporações financeiras. Esse é um indicador de como essa pressão se dá em ciclos mais curtos, ou seja, antigamente você olhava o balanço da empresa, e isso se tornou algo ultrapassado. Os grandes investidores estão de olho nos relatórios que têm ciclos mais curtos, que são trimestrais e semestrais. Esse é um indicador de que essa lógica de curto prazo está no cotidiano do trabalho. Na verdade, todos os trabalhadores, tudo o que eles fazem alimentam essa base de dados dos relatórios que são públicos e monitorados pelos acionistas.

A pesquisadora Ana Tercia Sanches na Universidade de Coimbra, onde ministrou palestra sobre sua tese. (Foto: Divulgação)
A pesquisadora Ana Tercia Sanches na Universidade de Coimbra, onde ministrou palestra sobre sua tese. (Foto: Divulgação)

Revista Fórum – Quais seriam os outros indicadores?

Ana Tercia Sanches – O segundo indicador é o fato de que os próprios executivos nas grandes corporações financeiras passam a ter os seus pagamentos de bônus, ou participação nos lucros e resultados, condicionados aos resultados que eles atingem. Se estamos falando de um executivo de um banco, por exemplo, estamos dizendo que cada diretor, em cada quadrado que ele administra, precisa dar o retorno esperado. Só assim vai conseguir receber um bônus ou PLR elevado.

O executivo carrega na sua carreira uma pressão para obter pagamentos de bônus elevados, sempre tem que se superar. Não há mistério em entender que isso é replicado em efeito cascata. Essa pressão que ele tem é reproduzida para todos os segmentos que estão abaixo de sua cadeia de comando, atingindo todos os trabalhadores indiscriminadamente, inclusive o caixa. Ou seja, aquelas pessoas que estão na ponta do processo produtivo, atendendo, às vezes, o cliente em outro tipo de operação. Você pode reparar que toda vez que você entra em contato com algum trabalhador de algum banco, ele está te oferecendo um produto a mais. Isso tudo é reflexo dessa pressão efeito cascata que tenta potencializar qualquer espaço de trabalho para que os bancos na ponta consigam aumentar a sua rentabilidade. Muitas vezes é oferecido um produto descolado de uma real necessidade do cliente, mas com o objetivo de dar retorno para o acionista no curto prazo.

“Você pode reparar que toda vez que você entra em contato com algum trabalhador de algum banco, ele está te oferecendo um produto a mais. Isso tudo é reflexo dessa pressão efeito cascata que tenta potencializar qualquer espaço de trabalho para que os bancos na ponta consigam aumentar a sua rentabilidade.”

Revista Fórum – Por isso, o bancário de tornou um vendedor?

Ana Tercia Sanches – Sim, um vendedor que se submete a esse tipo de pressão de concorrência internacional calcada nessa lógica de curto prazo. Não adianta ter sido um excelente vendedor no ano passado, tem que ser este ano e o ano que vem também. Fora isso ele está excluído do sistema, vai ser expurgado como um trabalhador improdutivo.

O terceiro aspecto é como os programas de gestão por resultados foram estruturados. São programas muito refinados criados pelas instituições para listar quais são as atribuições dos trabalhadores, ou seja, quais são as metas a cumprir em determinado período. Esses programas, no início da década de 1990, eram muito atrelados ao pagamento de remuneração variável. Eram programas atrativos. Muitos gerentes quiseram abrir muito mais contas, quiseram aumentar a venda de produtos porque sabiam que teriam uma premiação adicional.

Acontece que esses pagamentos adicionais se tornaram cada vez mais rarefeitos. O que permaneceu foi a ideia de se submeter a um programa de gestão com metas elevadas, que crescem em progressão geométrica. Se a instituição começa a verificar que os trabalhadores estão atingindo as metas previstas, automaticamente já aumenta aquele volume de produtos e serviços que o trabalhador vai ofertar. E não necessariamente todos os trabalhadores recebem essa remuneração variável. Os programas de gestão se tornaram grande instrumento para controlar o trabalho e a produtividade dos trabalhadores.

A quarta questão que mostra como a lógica de curto prazo predomina é a ideia de que todas as empresas passaram a ter como parâmetro os resultados do rentismo. Uma aplicação que se for de alto risco traz um retorno elevado no curto prazo. Os acionistas tabularam todos os setores, inclusive da produção, por exemplo, por esse nível de rentabilidade. Significa que os próprios trabalhadores bancários e as empresas do setor financeiro também tentam acompanhar esse nível de rentabilidade elevado pautado pelo rentismo. São situações totalmente diferentes, pois no rentismo não há investimento em área física, não há investimento em trabalhadores, é um grande cassino, que é o sistema financeiro hoje.

A gente tenta se comparar aos investimentos do rentismo, no entanto, isso não é possível de ser aplicado no setor produtivo, até mesmo no setor de serviços, como é o setor bancário. Ou seja, o mercado tem ditado essa rentabilidade e o setor da produção e o setor de serviço tentam acompanhar. Isso significa que é exigido dos trabalhadores um nível de intensificação do trabalho que vai ampliando progressivamente.

Revista Fórum – Em sua tese, você também aborda as tecnologias de informação, qual é o efeito delas para essa lógica de curto prazo no processo de trabalho?

Ana Tercia Sanches – As tecnologias da informação possibilitaram que os bancos operassem 24 horas por dia sete dias por semana. A gente não descarta o lado positivo disso para os clientes, o conforto que essas operações eletrônicas trazem, que a internet traz. Mas chamamos atenção para o fato de que esses softwares conseguem acompanhar minuciosamente tudo o que se faz num menor tempo e espaço. Sabemos quantos produtos cada trabalhador vendeu individualmente. A partir disso é possível comparar os trabalhadores de uma determinada região.

Conseguimos saber quantas operações os clientes fizeram ao longo do dia e com isso já alocar recursos para onde o banco deseja. Esse é mais um indicativo de como essa lógica do curto prazo também foi facilitada.

Ainda poderia acrescentar a essas questões o fato de que a gestão de resultados valoriza as ações em ciclos curtos de aferição, ou seja, as suas realizações que foram feitas no médio e no longo prazo são desprezadas. Isso cria um problema grave porque na verdade o trabalhador vai perder cada vez mais a sua identidade com a empresa. Ele vai sentindo cada vez mais insegurança porque sabe que é altamente cobrado pela rentabilidade que teve no último período. São questões que não favorecem a sociedade, os clientes e a qualidade do próprio serviço que está sendo ofertado.

A gente também vê que os próprios empregos se inserem na lógica do curto prazo com o aumento dos trabalhadores terceirizados, que têm uma rotatividade muito alta.

As consultorias e as próprias instituições financeiras têm reafirmado muito essa ideia de que não é adequado um trabalhador que pensa em ficar muitos anos na empresa. Há consultorias que dizem que cinco anos seria o tempo ideal. Cada vez menos se ouve dizer de trabalhadores que passaram a vida na empresa. O trabalhador é inserido numa lógica de quanto mais flexível for, melhor.

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Quando a gente vai olhar o tipo de perfil que é exigido para trabalhar nessas grandes corporações uma das habilidades exigidas, por exemplo, é a capacidade de suportar pressão. Viver submetido a pressão diariamente – que é o que as corporações colocam – é no mínimo uma lógica desumana. A pressão se tornou um elemento banal do processo de trabalho. Essa pressão contínua exercida sobre as pessoas pode implicar no adoecimento. Temos dados que mostram que a categoria profissional bancária, por exemplo, ampliou o número de doenças ocupacionais ligadas a doenças mentais, como estresse, ansiedade, síndrome do pânico, transtorno bipolar. Essas são doenças que crescem nos dados oficiais do INSS e são dados que apontam o afastamento do trabalho, depois que a pessoa tentou tomar remédio e se tratar, mas ela precisou de fato se afastar por transtornos mentais.

“Cada vez menos se ouve dizer de trabalhadores que passaram a vida na empresa. O trabalhador é inserido numa lógica de quanto mais flexível for, melhor.”

Revista Fórum – Isso ocorre também em outras categorias profissionais?

Ana Tercia Sanches – Podemos dizer que as grandes corporações mimetizam as estratégias de negócio. É visível, se formos em qualquer loja grande, percebemos que os trabalhadores estão sempre se esforçando para fazer você comprar mais. Chamando sua atenção para alguma oferta de algum outro produto que você não entrou lá procurando.

Percebemos também que esse sistema de meritocracia está instalado em todos os lugares. Essa ideia de premiar um trabalhador, enquanto todos merecem reconhecimento pois todos trabalham. Esse regime de meritocracia, de insistir para que os clientes consumam cada vez mais está muito presente em todas as corporações.

Revista Fórum – Essa pressão é potencializada em tempos de crise como agora, quando o desemprego já não é tão baixo?

Ana Tercia Sanches – Em momentos de crise o próprio trabalhador se vê numa situação difícil e tenta preservar seu emprego. Mas mesmo em tempos de crescimento econômico as empresas têm isso como modelo de gestão. A lógica de curto prazo, é um modelo que está instalado. Os trabalhadores que estão inseridos nesse tipo de empresa, estão sujeitos a essa lógica competitiva, que é desumana e fraticida. Fala-se muito em trabalho em equipe, por exemplo, mas que são extremamente frágeis, porque na verdade as metas dos grupos são parte das metas. Existem as metas coletivas, mas são as metas individuais que mantêm ou tiram do emprego. As pessoas estão preocupadas em garantir suas metas individuais em primeiro lugar para se manter no emprego. Há situações em que um próprio colega avalia outro. A avaliação institucional também foi remodelada e parte da avaliação é o colega dizendo quem são as que têm potencial para serem demitidas. Você tem que apontar quais são os mais “fracos” no grupo. Esse processo também é tortuoso do ponto de vista psicológico.

O que nós percebemos é que essa lógica de trabalho de curto prazo, essa pressão cotidiana, está inserida no software – quando você abre seu computador de manhã, você já está dando elementos de controle para saber o quão produtivo você é. Uma pressão muito mais especificada, com as empresas interconectadas em escala internacional e monitoradas em tempo real.

Revista Fórum – E qual seria o impacto da reforma trabalhista prevista do governo Temer diante dessa lógica?

Ana Tercia Sanches – Essas medidas que o governo Temer vêm tomando são encomendadas. O lobby vem das grandes empresas para aprovar esses tipos de contratos flexíveis, terceirização, enfim várias medidas que buscam criar um novo arranjo nas relações de trabalho.

“Vamos criar uma sociedade onde os trabalhadores são cada vez mais explorados e submetidos a relações de trabalho desumanas e, portanto, têm menos tempo para cuidar da sua saúde, da sua família, dos seus filhos, uma sociedade doente.”

Percebemos que esse cenário todo vai agravando sobre o trabalho formal que é organizado. As medidas do governo Temer vão atingir em cheio esses trabalhadores que são das grandes empresas que estão formalizados, mas vão criar brechas para ampliar a informalidade e a desproteção dos trabalhadores. Tudo isso vai intensificar a precariedade do trabalho num país que ainda nem chegou a consolidar um mercado de trabalho organizado. Tivemos muitos anos de escravidão no nosso país e isso criou tardiamente um mercado de trabalho assalariado, que foi predominantemente industrial e o rural desprotegido.

O que vemos é que quando a gente conseguiu instalar o acordo coletivo de trabalho para categorias organizadas, como são os trabalhadores bancários, nós criamos outros mecanismos, por exemplo, o da terceirização para fragilizar esse estatuto. Vamos criar uma sociedade onde os trabalhadores são cada vez mais explorados e submetidos a relações de trabalho desumanas e, portanto, têm menos tempo para cuidar da sua saúde, da sua família, dos seus filhos, uma sociedade doente. A maior parte da sociedade é feita de trabalhadores, não é feita de empresários, gestores.



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