João Doria sabe que extinguir programas populares de Haddad pode lhe custar caro

Eleito adota discurso errático, que ora ameaça desfazer políticas da atual gestão, ora recua para meios-termos, o que, segundo o dicionário, podem significar “atos que nada resolvem”. Por Eduardo Maretti, da RBA...

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Eleito adota discurso errático, que ora ameaça desfazer políticas da atual gestão, ora recua para meios-termos, o que, segundo o dicionário, podem significar “atos que nada resolvem”.

Por Eduardo Maretti, da RBA

O comportamento errático do prefeito eleito de São Paulo, João Doria (PSDB), ora com anúncios que prometem desfazer políticas do prefeito Fernando Haddad, ora recuando, com propostas mais moderadas que procuram meios-termos ou soluções aparentemente mais próximas do consenso, mostraria que o prefeito eleito é despreparado para o cargo, indeciso, ou está apenas fazendo balões de ensaio? Segundo o dicionário Michaelis, “meios-termos” são “atos que nada resolvem ou decidem, apenas protelam”.

São várias as idas e vindas de Doria desde a campanha eleitoral. Depois de afirmar que iria extinguir a Secretaria de Pessoa com Deficiência, ele voltou atrás; após anunciar o virtual fim da Virada Cultural, confinando-a ao longínquo autódromo de Interlagos (zona sul), recuou parcialmente, dizendo que os eventos serão mais concentrados no autódromo, mas que a Virada se realizaria também em teatros e outros espaços públicos ou privados.

Sua equipe afirmou também que pretende suspender a gratuidade de ônibus para pessoas de 60 a 64 anos que estejam trabalhando (um retrocesso numa política social consolidada). Promete ainda criar uma “cidade inteligente”, com ideias como a concentração de dados das pessoas num cartão de identificação eletrônico, proposta que ameaça direitos de privacidade e, segundo especialistas, pode despertar o interesse de máfias especializadas no uso comercial de dados.

Doria também declarou, durante a campanha, que sua primeira medida seria acabar com a redução de velocidade nas vias públicas. Mas a solução encontrada, além de moderada, deverá render alguma dor de cabeça para a nova gestão, uma vez que entidades da sociedade civil planejam recorrer à Justiça para revertê-la.

Para a cientista política Maria do Socorro Sousa Braga, da Universidade Federal de São Carlos (Ufscar), embora a gestão não tenha ainda começado, o comportamento de Doria pode ter duas explicações. A primeira é que, durante a campanha, seu posicionamento procurava conquistar espaço e marcar posição como opositor ao prefeito Haddad, para ganhar votos dos contrários às políticas em andamento.

O problema é que ele promete mexer em iniciativas de Haddad que são populares e têm grande aceitação, e Doria pode ter entendido que simplesmente extingui-las seria uma séria ameaça à sua carreira política, já que, iniciante que é, o prefeito eleito ainda precisa construir sua popularidade e é inexperiente.

“Durante a campanha ele fez um discurso para ganhar votos de quem é contra as políticas em andamento (de Haddad). Isso é discurso, mas quando ele vem efetivar de fato essas mudanças, sabe que isso traz um desgaste. E ele quer que a popularidade cresça. A Virada Cultural é extremamente popular, tem público enorme. A ocupação da Paulista dá oportunidade a uma série de setores de desenvolver atividades, fora a questão da população ter mais espaço de lazer. Tudo isso cria novos espaços de ocupação popular”, analisa Maria do Socorro. Mexer em políticas que dão certo pode ser fatal para um político que quer ocupar espaço, mesmo se dizendo um não político, lembra a analista.

Para ela, a segunda explicação para as idas e vindas de Doria é sua inexperiência propriamente dita. “Essas idas e vindas têm a ver também com a dificuldade de um quadro que não tem a experiência em enfrentar a população diretamente, com objetividade. Ele é político, mas diz que não é, e está diante de iniciativas do governo anterior que tinham popularidade.”

Na opinião do coordenador nacional do MTST, Guilherme Boulos, Doria está se dando conta de que a realidade paulistana é bem mais complexa do que supunha durante a campanha. “Acho que ele começa a perceber que não vai conseguir governar São Paulo só com o eleitorado conservador e de direita.”

Para Boulos, porém, ainda é cedo para fazer uma avaliação mais precisa. “Precisa esperar ele assumir para ver o que vai fazer, se essas idas e vindas não vão no sentido de implementar políticas impopulares.”

Para Maria do Socorro, Doria adota a precaução para não começar o mandato já aumentando a impopularidade, já que, político iniciante, popularidade ele ainda não tem. “Como um político eleito com menos da metade de votos da cidade pode acabar com iniciativas que eram populares?” Dos 8.886.195 eleitores de São Paulo, Doria obteve apenas votos de 3.085.187, ou apenas 34%. Os outros 64%, quase dois terços, ficaram entre os adversários, os ausentes, brancos e nulos.

Para Boulos, “o que é seguro dizer é o seguinte: se ele adotar a política que preconizou nas eleições, particularmente no caso da moradia popular, de dizer que vai enfrentar ocupações, enfrentar movimento social, se for para essa linha de achar que com repressão vai resolver, o que vai acontecer é um aprofundamento do conflito social em São Paulo”.

A promessa de campanha de atuar em diversas frentes em parceria com a Polícia Militar do governador Geraldo Alckmin (seu padrinho político) terá consequências, diz Boulos. “É botar gasolina no fogo, é não entender o que está em jogo, não entender nada a respeito dos problemas tanto de moradia, caso das ocupações, como do conjunto do problema social.”

Doria é despreparado? Maria do Socorro responde à pergunta na mesma linha de Boulos. “A gente vai ver depois que ele assumir. Uma coisa é a retórica, o vai e volta sobre as iniciativas. A outra é o que de fato ele vai fazer. Aparentemente é despreparo. Por outro lado, pode ser um certo cuidado para não perder naquilo que ele pode avançar em termos de eleitorado.”



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