Fui agredida por sair à noite, ser mulher e de esquerda 

Laís Gouveia é mulher, jornalista e militante de esquerda. Na última quinta-feira (5) ela estava em um bar em São Paulo com uma amiga quando foi provocada e agredida por...

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Laís Gouveia é mulher, jornalista e militante de esquerda. Na última quinta-feira (5) ela estava em um bar em São Paulo com uma amiga quando foi provocada e agredida por um frequentador. “Vivo escrevendo sobre as taxas de feminicídio, agressão contra mulheres e o clima de intolerância que assola o mundo, mas realmente não esperava usar esse espaço para falar de mim, na verdade, expor ao mundo o que aconteceu comigo é uma forma de denunciar e reafirmar que o nível de intolerância está beirando a barbárie”. 

Por Laís Gouveia

Estava com uma amiga no bar, isso mesmo, duas mulheres sozinhas em um bar numa quinta-feira à noite. Pode isso? Até na noite de ontem pensava que sim. Estava tudo divino maravilhoso quando fomos abordadas por um senhor  (foto abaixo) com cara de bonachão, alto, que questionou se éramos socialistas. Olhei com uma cara de “oi??” e continuei as conversas com minha amiga.

Papo vai, vem, disse para minha amiga que estava indo hoje à tarde para Guaratuba, região litorânea de São Paulo, quando o mesmo senhor que tinha questionado minha proximidade com o marxismo esbravejou: “Eu ouvi vai pra Cuba!?????”

Não aguentei. Fiquei revoltada com aquela situação. Questionei: “Moço, do que você está falando, o senhor está louco?” Era o prato cheio para ele. O brutamontes já levantou e começou o seu circo, aproximando-se de mim e me ameaçando com seu tamanho. Eu, com meu 1,57 levantei meus pés e continuei dizendo que ele não tinha o direito de ser tão inconveniente. Ele me deu um safanão no braço.

Naquela situação insustentável, minha arma foi o celular. Peguei e comecei a gravar, “bate agora que eu estou gravando, o mundo vai ver sua cara seu covarde!”, disse.

Ele então lançou um soco no meu braço e arremessou meu celular no lixo. Com toda a dor que eu senti no momento, reuni forças e enfiei minha mão no meio de restos de comida para pegar o celular. Após o ocorrido, pessoas próximas chegaram para nos defender. Um outro amigo dele gritava como em um surto psicótico “morre na Venezuela”. Os garçons orientaram que nós fossemos para dentro do estabelecimento. Acho que se não fosse isso poderia ter sido pior.

Entrei em pânico, minha respiração ficou ofegante. Eu só queria chegar em casa e me sentir segura. No meio do caminho fiz um post com a foto do agressor.

Passado o horror, queria agradecer toda a corrente de solidariedade que se formou ao meu redor, principalmente a União Brasileira de Mulheres, que se colocou à disposição para me dar todo o amparo necessário. Isso é muito bonito e valoroso, gratidão!

Hoje eu sigo para delegacia, vou fazer um boletim de ocorrência. Faço isso porque eu não aguento mais viver numa sociedade que expõe a mulher como lixo dessa forma. Faço isso porque eu perdi uma colega estuprada até a morte nos últimos dias e também porque eu tenho direito de ser o que que eu quiser, inclusive socialista.

Basta!

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