O tradicional e o moderno da banda Big Up

Há uma energia quase incontrolável na música do Big Up. Um conflito de forças que sempre joga tudo pro alto e, ao mesmo tempo, mantém o jogo no chão. Impossível não se contagiar com o som e não admirar a acuidade com que é...

1501 0

Há uma energia quase incontrolável na música do Big Up. Um conflito de forças que sempre joga tudo pro alto e, ao mesmo tempo, mantém o jogo no chão. Impossível não se contagiar com o som e não admirar a acuidade com que é feito. Tudo é medido, caprichado, bem executado. Não há ponto fora da curva, não há nada que ganhe nada no grito.

De Julinho Bittencourt

O mistério se resume a descobrir quem são e de onde vem esses três garotos que se autodenominam Big Up e acabam de lançar um EP (pequeno CD com cinco músicas) chamado “Guia”. Pela quantidade de referências ao candomblé e outras entidades, o nome do EP deve ser mesmo o pequeno colar colorido onde cada um dos Orixás é representado por suas cores. No mais, muitas outras entidades aparecem aqui e acolá, não só o Xangô do EP, mas também Ogum e tantas outras forças do bem. O som parece vir dos terreiros, mas o baticum é novo.

O disquinho foi gravado num home studio em Interlagos, zona sul de São Paulo. O Big Up, segundo a capa, são três: Lucas Pierro, Victor Burbach e Gabriel Geraissati. O nome, que bate de algum lugar do passado começa a clarear. O moleque é mesmo a cara do André, um dos maiores violonistas que o Brasil (e o mundo) já viu. Mais um passo pra frente e pronto. Tá lá o próprio na inacreditável (de boa) masterização do EP, coisa quase impossível para algo que foi gravado num home studio. É pai e é filho. Fora isso, mais nada converge.

Mais pistas vão surgindo aqui e acolá. Eles são três, mas vivem cercados de parceiros, amigos e colaboradores. Em “Xangô”, por exemplo, participa o Vina Jabuti; em “Treta” o Gueto Organizado. Na letra mais algumas e pequenas pistas: “Cadê você? Cadê você?, Se pôs em algum lugar que tá fácil de achar mas difícil te ver, Compreender essas atitudes, Esse brilho esquisito, Espero que tudo, mude nesse quesito”

O tom meio messiânico é (sempre) acompanhado por uma base firme, grave, verdadeiramente grave. Hip Hop feito à unha: “Não é fácil ser aceito pelo aquilo que é, Mas dar mole é por os defeitos escondidos no boné, Preferível por a cara limpa, honrar as palavras, E se não for assim melhor meter o pé, mané!, Firme na base segurando a emoção, Faça que seu proceder converse com seu coração e Seja feliz, sem dar vacilo”.

Há uma energia quase incontrolável na música do Big Up. Um conflito de forças que sempre joga tudo pro alto e, ao mesmo tempo, mantém o jogo no chão. Impossível não se contagiar com o som e não admirar a acuidade com que é feito. Tudo é medido, caprichado, bem executado. Não há ponto fora da curva, não há nada que ganhe nada no grito. Por trás da zona, do berro e da energia há sempre uma base bem posta, um processo de primeira.

As vozes bem divididas, os versos honestos e diretos de Pierro e do Burbach se acomodam feito mágica nas bases do Gabriel faz tudo. A despeito de tudo e na contramão de todos, o Big Up prefere se colocar do lado da vida, de bem com ela: “Sinta a força que te faz voar, E deixe se levar, Mesmo que a escuridão pareça te cegar, A fé na vida é luz que nunca falha”. Há algo de Bob Marley, tanto no misticismo quanto no astral. O Big Up quer dar e viver felicidade.

No mais é isso. Os moleques não param, os moleques piram. Cada dia tem uma postagem nova, um single, vídeo, pronunciamento, documentário e tudo na mão, pra quem quiser levar, ver e ouvir. A rota por onde andam e se divertem, o que gravam e o que querem gravar. Basta subir lá na rede e pegar. É Big Up mesmo.

Talento e felicidade compartilhados.



No artigo

x