Marcos Martins: Cidade Linda é política higienista e retrocesso cultural

Tentar varrer os problemas sociais da cidade para debaixo do tapete sem nunca ter manuseado efetivamente uma vassoura, certamente não exige muito investimento, mas também não irá resolvê-los.

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Tentar varrer os problemas sociais da cidade para debaixo do tapete sem nunca ter manuseado efetivamente uma vassoura, certamente não exige muito investimento, mas também não irá resolvê-los.

Por Marcos Martins*

Lançado um dia após a posse do prefeito João Dória, o programa “Cidade Linda”, da prefeitura de São Paulo, vem gerando polêmica. Com o objetivo anunciado de restituir áreas danificadas da cidade, passou a assustar moradores, comerciantes e artistas de rua, além de admiradores e defensores da cultura na cidade. As ações higienistas adotadas pelo executivo municipal suscitam ao menos duas perguntas: o que é feio ou bonito? O que pode ou não pode ser visto?

A analogia com o programa Cidade Limpa, da gestão Gilberto Kassab, é automática: além da semelhança na nomeclatura, o projeto de Dória é também uma tentativa de mostrar uma cidade aprazível aos olhos, a partir da supressão de elementos que destoam do senso comum do que seria supostamente belo. O novo programa é também uma forma de desconstrução de políticas emblemáticas da gestão Haddad, como o incentivo ao grafite, por exemplo. Ao adotar esta linha, o chefe do executivo municipal parece mais preocupado em se destacar em relação aos seus antecessores do que promover o bem-estar social.

Na prática, não há nada de belo em uma campanha que promove a repressão e a criminalização dos movimentos sociais, culturais e dos direitos da população paulistana, especialmente dos mais carentes. Ao prender arbitrariamente o líder do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), Guilherme Boulos, durante uma reintegração de posse no início da semana, fica claro que a Polícia Militar também deve atuar em consonância com a nova gestão municipal, promovendo mais exclusão.

O mesmo vale para a retirada de moradores de rua da Praça 14Bis, na região central da capital. Deslocados para baixo de um viaduto, homens, mulheres e crianças passaram a ocupar uma quadra esportiva comunitária, escondidos detrás de uma tela verde, maquiando a dura realidade a que foram submetidos. Muitos moradores de rua também foram expulsos do Parque da Mooca, na Zona Leste, no dia do lançamento da campanha. Somam-se a eles os ambulantes e artistas credenciados pelo município que foram impedidos de trabalhar nas calçadas da Avenida Paulista e adjacências.

Após ações na Ponte Estaiada, nas avenidas 9 de Julho e Paulista, áreas nobres da cidade, a gestão tucana começou a descaracterizar o maior corredor de grafite da América Latina, com cerca de 15 mil metros quadrados, ao longo da Avenida 23 de Maio. Desenvolvido durante a gestão Haddad (PT), o incentivo à arte de rua trouxe vida à cidade com políticas públicas voltadas à cultura, elogiadas em vários países do mundo. Segundo informações oficiais, a nova proposta é confinar o espaço artístico da Avenida a apenas oito áreas pré-definidas para as obras – fora destas localidades as obras serão sistematicamente apagadas.

Tentar varrer os problemas sociais da cidade para debaixo do tapete sem nunca ter manuseado efetivamente uma vassoura, certamente não exige muito investimento, mas também não irá resolvê-los. Uma cidade das dimensões de São Paulo precisa de planejamento, de projetos e de soluções que atendam todos os perfis de cidadãos. Esconder problemas e apagar expressões da nossa diversidade cultural não farão desta uma cidade para todos.

marcos martins

*Marcos Martins, deputado estadual em São Paulo pelo PT

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