Ocupação Creche Aberta resiste e busca diálogo

Após cinco dias do início do movimento, mães, pais, professores, alunos e funcionários da USP continuam em protesto contra o anúncio de fechamento da Creche Oeste.

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Após cinco dias do início do movimento, mães, pais, professores, alunos e funcionários da USP continuam em protesto contra o anúncio de fechamento da Creche Oeste

Por Hélen Freitas, colaboradora da

Desde segunda-feira (16), a Creche e Pré Escola Oeste da Universidade de São Paulo está ocupada por mães, pais, professores, estudantes e funcionários. Eles protestam contra o fechamento da unidade, anunciado pela Reitoria da USP por meio de um comunicado via e-mail.

De acordo com relatos de professores e da comissão de comunicação do grupo, a diretoria da Creche Oeste foi informada, na quinta-feira (12), que o local seria fechado e os alunos e objetos seriam transferidos para a Creche Central. Como consequência, o campus Butantã teria apenas uma creche para atender alunos, funcionários e docentes.

Após tentativas de diálogo para impedir o desmonte do espaço, a Superintendência de Assistência Social (SAS) – responsável pela gerência de cinco creches da USP – informou aos funcionários que faria a transferência dos equipamentos do local, entre os dia 17 e 20 deste mês, para “otimizar o espaço”. Além disso, convidou os servidores a ajudar.

Contudo, nenhum funcionário aceitou. Pelo contrário, eles decidiram juntamente aos pais e alunos que iriam ocupar o local para impedir o fechamento.

“A gente quer dialogar, quer conversar. A gente quer entender o que está acontecendo, quais são os planos deles, para podermos dizer quais são os nossos. É o mínimo. Parece besteira dizer isso, mas o que a gente quer é diálogo”, afirma uma das representantes da comissão de comunicação da ocupação.

Mudança nada amigável

creche5Na segunda-feira, os pais dos alunos da Creche Oeste começaram a receber mensagens avisando que um caminhão de mudança iria passar na instituição às 14 horas. Um grupo conseguiu ir até o local e impedir a retirada dos equipamentos.

“Faz dois anos que não deixam crianças novas entrarem. Faz dois anos que a gente está nessa expectativa negativa que vai fechar creche de um dia para o outro. Então, não foi nenhuma surpresa, mas foi revoltante”, disse a mãe de uma aluna de 5 anos, participante da ocupação.

“Para a criançada é bem complicado também, essa questão emocional de você de repente ter que transferir a criança do dia para a noite. Era uma questão de confiança com o local, com as pessoas. Já tinha uma expectativa”, completa.

A mãe disse que conversou com a sua filha antes de ir para a primeira reunião da ocupação e a menina informou que não queria sair da Creche Oeste. “Eu falei que a gente ia lutar para conseguir isso. Eu não podia dar certeza que iria acontecer, mas disse que a gente ia lutar bastante”, conta.

O pai de um aluno de 4 anos, também da Creche Oeste, disse que ainda não tinha conversado com o filho. “Meu filho nas férias queria voltar para a creche. Agora eu vou ter que falar para ele que não existe mais. Mas por que não existe mais?”. E prossegue: “É uma violência, um autoritarismo. É só ver o que é a história dessa creche. É cuspir na história da universidade”.

As creches da USP são reconhecidas nacional e internacionalmente pela sua excelência educacional. De 2009 a 2014, elas geraram 99 teses e dissertações. No mesmo período, a Creche Oeste foi visitada por mais de 1100 pessoas.

“A gente fala, escreve e discute muito a relação com o espaço. Um espaço acolhedor, os vínculos que a gente cria com esses espaços. Elas têm toda uma vinculação com esse lugar, todo um afeto depositado nesse espaço. Elas vão ter um outro lugar, mas é outro lugar”, afirma um professor da Creche Oeste que trabalha há 16 anos no local.

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Foto: DCE Livre (USP)

A instituição tem um sistema de adaptação dos alunos. Quando vão mudar de ano, por exemplo, há um reconhecimento da sala nova, dos professores e todo um trabalho de adequação ao novo ambiente. Além disso, tem como princípio dar voz às escolhas dos alunos.

“Se adaptar, a gente vai. Mas tem uma perda. E, vale a pena pagar esse custo? Vale a pena bancar essa perda? Tudo bem, supondo que chegamos a uma decisão que vale, então vamos fazer direito. Não vamos atropelar nenhum princípio que a gente respeita para fazer isso”, lamenta.

Uma das professoras da Creche Central completa: “não se faz isso sem planejamento. Não se faz sem conversa, porque as coisas precisam ser construídas coletivamente”.

Espaço indispensável

A Ocupação Creche Aberta possui uma programação intensa, que prioriza as crianças. Durante o dia, diversas brincadeiras foram programadas no espaço. Além disso, há plenárias abertas para discussão do movimento e debates políticos. A comida e materiais utilizados foram todos doados.

A ocupação está aberta à visitação até às 23 horas. Depois desse horário, a organização afirmou que é feita a segurança do local e das pessoas que dormem na creche.

Os participantes dizem que essa ação é cansativa, mas gratificante. “Crianças e pais das comunidades próximas podem estar aqui com a gente, brincar aqui. Isso só foi possível com a ocupação, porque as políticas da universidade impedem que isso ocorra”, afirmou a representante da comunicação.

creche4Essas atividades dão uma certa esperança para os pais. A mãe da aluna conta que muitos estão com medo do que pode acontecer, principalmente de ficarem sem creche. Também estão receosos quanto à perseguição que dizem que a Reitoria faz contra movimentos, com criação de boletins de ocorrência falsos, suspensão de salários de funcionários ligados a greves e demissões.

A mãe, que também é estudante da USP, disse que alguns professores defendem o fechamento da creche. “Eles dizem: já tem déficit de creche fora, por que a gente tem que ter o privilégio de ter uma aqui?”, relata.

Ela enfatiza que a creche é importante para muitas alunas, que são humilhadas por professores ao levarem seus filhos para assistirem às aulas com elas.

Manobras contra a educação

“Mais de 60 mil vagas faltantes em creches pela cidade, mais de cem vagas ociosas na universidade, e aí vai e se fecha a creche. É estúpido”, disse revoltado o pai.

A política de esvaziamento e fechamentos das unidades escolares do campus não é novidade. No início de 2016, a Superintendência do Hospital Universitário anunciou o fechamento de sua creche e não realocou os alunos, filhos de funcionários do hospital.

A representante da comissão de comunicação afirmou que tudo está conectado com uma política de desmonte de vários serviços e unidades dentro da universidade, e que as creches não são as únicas a sofrerem o impacto.

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Em 2014, a USP decidiu abrir uma lista de Programa de Incentivo de Demissão Voluntário (PIDV). Na época, poucos funcionários decidiram aderir. Contudo, ao abrir uma nova lista, em 2016, a situação foi diferente.

“No primeiro Programa de Incentivo de Demissão Voluntária saíram poucos funcionários. Nesse segundo, as inscrições foram muito maiores. Tem uma das creches que tem quase um terço dos funcionários que sairia”, afirma a representante.

“A maioria dos funcionários que aderiram ao novo PIDV são justamente funcionários desses locais que estão sendo desmontados. Estão exaustos. Estão sofrendo pressão. Eles não preferem sair, mas é muita incerteza, muita violência. Eles estão sofrendo um assédio moral imenso”, completa.

Além do programa de incentivo, a Reitoria da USP adotou outras condutas que prejudicaram o funcionamento creche3das creches. Há dois anos, impedem que novas crianças se matriculem nas cinco unidades geridas pela SAS.

De acordo com um levantamento informal realizado pela Comissão de Mobilização de Mães, Pais e Funcionários da Creche – movimento que luta pela matrícula de novos alunos –, em 2016, as creches operaram com uma capacidade 55% menor a 2007, quando haviam 722 crianças matriculadas, gerando 140 vagas ociosas. Neste ano, as vagas ociosas subiram para 157.

A política de esvaziamento tem prejudicado o orçamento da universidade. Há 10 anos, durante a gestão da reitora Suely Vilela Sampaio, a USP aumentou o valor do auxílio-creche para, aproximadamente, R$ 500,00 por filho. Essa decisão fez com que as matrículas fossem diminuindo, conforme o relato do professor da Creche Oeste.

Hoje, o valor do auxílio subiu para R$ 633,87, fazendo com que os gastos da universidade com esse subsídio chegassem a R$ 1,2 milhão em 2016.

Outra ação da Reitoria foi o fim da admissão de filhos de alunos da graduação e pós-graduação em 2016. Desde 2010, 40% das vagas são destinados a estudantes. Com essa medida, as vagas ociosas cresceriam ainda mais.

“A gente fala mais em números, na conta das vagas e tudo mais, mas eu acho que desmontar uma creche, destruir uma creche é muito mais do que isso. Tem uma história que é daqui, e é só daqui. As crianças que estão aqui, elas sabem o que é estar aqui e não sabem o que é estar lá. Se a gente olhar para a singularidade dos funcionários e das crianças, é muito violento isso, para além do que isso significa para o contexto político”, afirmou a representante da comissão de comunicação.

Descumprindo a decisão

No início de novembro do ano passado, o Conselho Universitário (CO) da Universidade de São Paulo aprovou um dispositivo que obriga a Reitoria a “preencher as vagas ociosas no limite da capacidade das creches”. A maioria do colegiado entendeu que manter as vagas não-preenchidas traz despesas desnecessárias à universidade. Foram 38 votos a favor, 36 contra e 13 abstenções.

Essa decisão foi uma vitória para a Comissão de Mobilização de Mães, Pais e Funcionários da Creche, que pede o preenchimento das vagas desde 2015. Contudo, ao invés de aceitar a decisão, a Reitoria decidiu fechar a Creche Oeste.

creche1A professora da Creche Central comenta: “Se um gestor pode fazer isso à revelia do conselho universitário, que tantas outras coisas ele pode fazer também dentro da universidade pública e ainda não ser punido? Parece que é uma terra sem lei. A Universidade de São Paulo é uma terra sem lei”.

A representante da comissão de comunicação afirma que, com o fechamento da Creche Oeste, o número de vagas ociosas diminuiria drasticamente, pois as crianças da unidade ocupariam as vagas em aberto da Central.

“Isso, acontecendo, a creche acabou. A luta pelas vagas também, a história das crianças, dos funcionários daqui. São muitas vidas que estão em jogo quando a gente fala desse lugar. Não é só o material, não é só um número”, afirma.

A reportagem tentou contato com a Reitoria, mas não obteve resposta.

* Os nomes foram ocultados para preservar a identidade dos entrevistados.
Fotos: Hélen Freitas



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