Dois anos após Chacina de Belém, periferia da capital paraense volta a sofrer com grupos de extermínio

Na última sexta-feira (20), foram 30 homicídios confirmados em bairros da periferia da cidade, e pelo menos 25 deles com características de execução.

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Na última sexta-feira (20), foram 30 homicídios confirmados em bairros da periferia da cidade, e pelo menos 25 deles com características de execução
Por Karina Menezes, colaboradora da 

Na última sexta-feira (20), a cidade de Belém (PA) foi tomada pelo clima de terror. Foram 30 homicídios confirmados em 16 bairros da periferia da capital paraense, e pelo menos 25 deles com características de execução, apresentando alguns elementos comuns: homens encapuzados em carros de cor preta ou prata, atirando para matar. A situação teria sido desencadeada em retaliação ao assassinato do policial da ROTAM Rafael da Silva Costa.

“Eu e minha família ouvimos todos os tiros da morte que aconteceu aqui no comércio”, diz uma moradora do bairro da Campina. “No início, o pessoal aqui em casa pensou que era ‘sapatinho’ ou ‘saidinha’, mas a partir do terceiro tiro eu já tinha certeza que era uma execução”.

Não é a primeira vez que as milícias fazem vítimas em regiões periféricas da cidade. O primeiro registro que se tem da atuação desses grupos em Belém data de 1994, quando 21 policiais militares foram acusados pela morte de três adolescentes no bairro do Tapanã.

Em um dos casos de maior repercussão, ocorrido nos dias 4 e 5 de novembro de 2014, dez pessoas foram mortas por milicianos, incluindo um rapaz com transtornos mentais. Alex Viana, Márcio Rodrigues, Eduardo Felipe, Cezar Augusto, Marcos Murilo, Bruno Gemaque, Nadson Roberto, Jefferson Cabral, Jean dos Santos e Arlesonvaldo Carvalho foram executados após o homicídio do cabo Antônio Marco da Silva, mais conhecido como Pet. À época, postagens de PMs nas redes sociais deixaram claro que haveria retaliação.

pet

Até hoje, os crimes de 2014 continuam sem solução. De acordo com informações da Secretaria de Segurança Pública do Estado do Pará, os 11 inquéritos instaurados para investigar as mortes já foram concluídos, e agora tramitam na Justiça do Estado. De todos os indiciados, oito foram presos e um responde em liberdade provisória.

Em Belém, milícias apresentam características peculiares e avançam pela cidade

Segundo o pesquisador paraense Aiala Colares, a configuração das milícias altera-se de acordo com as necessidades impostas, o tempo e o espaço – na capital do Pará, elas nasceram e fortaleceram sua atuação em regiões fragilizadas socialmente, como Guamá e Terra Firme. Agora, elas ramificaram-se, e têm braços por toda a região metropolitana. “A milícia se apropria do espaço a partir da violência simbólica que difunde sobre os territórios do narcotráfico na periferia. Atua em rede, tornando mais fácil manter o controle dos bairros”, diz.

O relatório da CPI das Milícias, instaurada em 2014 após grande pressão de entidades da sociedade civil, já apontava o modus operandi peculiar desses grupos na capital paraense, que surgem para fornecer “segurança privada” aos pequenos estabelecimentos comerciais das periferias. “Se apropriam do tráfico de drogas, extorquindo pequenos traficantes, executando assaltantes que tiram a paz de comerciantes no bairro, prestam serviços aos agiotas e tomam a droga de uma boca e dão para outros venderem”, explica Aiala.

Carlos Bordalo (PT), presidente da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa do Estado do Pará, diz que as milícias paraenses diferem-se daquelas existentes no Rio de Janeiro. “Não chegaram no mesmo grau de desenvolvimento, estão em plena estruturação”. Porém, a violência causada por eles segue ignorada pelo governo paraense. “O sistema de segurança público, teimosamente, insiste que não existem grupos de extermínio”, desabafa.

Banalização da violência desumaniza a periferia e estimula ação das milícias

Tanto Bordalo quanto Aiala são enfáticos ao afirmar que faltam mais políticas públicas; não apenas de segurança, mas de educação, saúde e cultura. E concordam que a espetacularização da violência, vinda de programas policiais que exaltam a figura do “justiceiro” e desumanizam os moradores da periferia, têm sua parcela de culpa na atuação das milícias.

Criando um contraponto à visão que os veículos de comunicação difundem sobre áreas marginalizadas de Belém, estão coletivos como o Tela Firme, organizado por moradores de um dos bairros mais populosos de Belém – a Terra Firme. Com foco nos jovens da periferia, o grupo desenvolve oficinas de mídia, vídeo de bolso e participa de diversos espaços políticos dedicados a temas como direitos humanos.

Em 2014, seus integrantes produziram o vídeo Poderia ter sido você, que relembra as principais chacinas ocorridas em Belém. “A imagem que a mídia constrói sobre as periferias é pejorativa, como se todo mundo que morasse nela fosse ladrão, traficante”, diz Ingrid Louzeiro, estudante de Pedagogia e integrante do Tela Firme. “Há um poder paralelo – a PM – e isso fica muito evidente no relatório da CPI das Milícias”, ressalta.

Para ela, mudar a visão transmitida sobre a periferia passa por uma mudança de cultura, do modelo de sociedade e Estado, e da própria polícia militar – com a qual, muitas vezes, os grandes veículos de comunicação agem em conformidade. “Muitos negros são mortos por carros prata e pretos, e a mídia os invisibiliza”, finaliza.

Foto: Flickr/Jakub



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