Músicos imigrantes e refugiados promovem a diversidade cultural em São Paulo

Conheça aqui a história de três bandas, Mazeej, Surprise69 e Os Escolhidos, todas compostas por refugiados que moram em São Paulo. Com músicos vindos de diversas partes do mundo, de várias etnias e religiões, fazem da música um fator de unificação e solidariedade, num...

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Conheça aqui a história de três bandas, Mazeej, Surprise69 e Os Escolhidos, todas compostas por refugiados e imigrantes que moram em São Paulo. Com artistas vindos de diversas partes do mundo, de várias etnias e religiões, fazem da música um fator de unificação e solidariedade, num comovente relato.

De Caroline Gomes colaboradora da 

A diversidade cultural existente em São Paulo é resultado da mistura de elementos de inúmeras regiões do Brasil e do mundo.  Com a chegada de muitos imigrantes e refugiados, essa pluralidade se intensifica por meio de diferentes manifestações culturais como a dança, a expressão corporal e religiosa, a culinária típica e, sobretudo, a música.

E foi com o objetivo de juntar pessoas de diferentes culturas e religiões que a banda Mazeej foi fundada em 2015. Formada por refugiados e imigrantes de diferentes países e crenças, a banda é composta pelos sírios Salam Alsayed (mulçumano) e Fadi Aldura (cristão), a libanesa Chantal Mailhac (cristã), o francês Anthony Taieb (judeu), os brasileiros Daniel Szafran (judeu) e Leonardo Bianchini, e o argentino Jonatan Berezovsky (judeu), cofundador e produtor da Mazeej.

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Banda Mazeej reúne imigrantes e refugiados de diferentes continentes (Foto: reprodução/Facebook)

Berezovsky explica que a banda foi pensada com o intuito de juntar judeus e pessoas de países árabes, que geralmente vivem em conflitos, para integrar as comunidades. “Não estamos tentando resolver o conflito no Oriente Médio, estamos tentando juntar as pessoas para que todos possam construir juntos. No lugar de brigar pelas nossas diferenças, podemos celebrá-las. Fazemos isso por meio da música”, afirma o produtor.

Ele conta que a comunicação da banda é um grande desafio, já que alguns integrantes não falam português nem inglês. “A gente percebe que todos têm o mesmo objetivo e conseguimos nos entender por meio da gesticulação e da música. Quando todos trabalham pelo mesmo sonho, as coisas acontecem”, diz Berezovsky.

A banda costuma apresentar músicas de diferentes países e tem conquistado seu espaço aos poucos. O primeiro show, realizado em uma sinagoga, deu lugar para apresentações em outras igrejas e espaços culturais, até chegar ao palco do Fórum Pacto Global, promovido pelas Nações Unidas, para fazer o encerramento do evento. Entre os planos da Mazeej para este ano estão as composições próprias da banda, com poemas e canções que promovam a paz.

Assim como a Mazeej, o grupo musical Surprise 69 espera um ano de realizações e conquistas. Sua história, porém, é mais antiga: o grupo nasceu em 1999, no Haiti. Após o terremoto que abalou o país em 2010, os antigos integrantes se espalharam por diferentes países do mundo e foi no Equador que a decisão de retomar o grupo com uma nova formação aconteceu.

Há cinco anos batalhando em São Paulo, NegroFlow, Real Black, MarioLove e Big MC (nomes artísticos) sonham alto com o grupo. Embora predominado pelo rap, eles afirmam que o Surprise 69 não tem um estilo musical: “nosso ritmo é feito pelo público. Se eles querem samba, cantamos samba. Se querem funk, cantamos funk. O que nós fazemos é música latino-americana”, diz NegroFlow.

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Grupo Surprise69 mantém as raízes haitianas e integra ritmos brasileiros em suas músicas (Foto: reprodução/Facebook)

Além de ritmos variados, o grupo canta em espanhol, inglês, crioulo (língua oficial haitiana), francês e tem músicas em português que estão em andamento. Ao falar sobre as raízes musicais haitianas, NegroFlow afirma que “a música é importante no mundo todo. O rap representa cultura, revolução, luta. Desde a escravidão a música era usada para transmitir mensagens. É algo que compõe nosso sangue, que está dentro de nós”.

Para MarioLove, a falta de oportunidade é a maior dificuldade do grupo. “Aqui é muito difícil você conseguir tocar uma música sua na rádio. Só consegue tocar na rádio aquele que tem muito dinheiro. Se um grupo de música grava um CD bom, esse CD precisa tocar. Aqui, quando um grupo fica famoso, não se preocupa em ajudar aquele que está começando”, completa o cantor.

Também em busca de oportunidades, a banda Os Escolhidos, formada por imigrantes e refugiados congoleses e angolanos, foi criada há três anos e carrega a missão de representar o continente africano por meio da música.

Leonardo Matumona, Hydras Tuala, Tryple Poumont, Ngembo, Desom, Calvim, Eric Solo e Papy (nomes artísticos) se conheceram na igreja Boa Nova Mensagem, localizada na zona leste da capital paulista, e na Caritas Arquidiocesana de São Paulo, referência no apoio aos refugiados na cidade. Com o tempo, as apresentações se estenderam também para fora da igreja e neste ano Os Escolhidos fizeram seu primeiro show nas ruas de São Paulo.

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Formada por congoleses e angolanos, a banda Os Escolhidos se apresentaram na Avenida Paulista (Foto: Thiago Roma)

 A diversidade da banda vai além dos países de origem dos integrantes, mas se consolida na pluralidade musical apresentada por eles, como a rumba congolesa, o blues, o jazz e músicas cantadas a cappella, entre outros ritmos e estilos musicais que os inspira.

“Buscamos resgatar a origem africana, as músicas mais antigas e os ritmos folclóricos da África. Nos unimos para representar a África de uma forma geral, afinal, somos todos africanos”, explica Matumona. “As nossas expressões e a nossa alegria transmitida em cada apresentação faz recordar a nossa cultura e tudo que vivemos em nossos países”, completa o músico.

Do norte ao sul, do leste ao oeste, sírios, haitianos, angolanos, congoleses, nascidos em todo o mundo, residentes em São Paulo e espalhados pela capital. O que há em comum entre Mazeej, Surprise69 e Os Escolhidos? O sonho de viver de música, quebrar paradigmas e ter a oportunidade de mostrar suas raízes culturais às pessoas.



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