Em Natal (RN), população transforma obra abandonada de Oscar Niemeyer em área de lazer e esporte

A força transformadora que a união produz. Um sentimento em comum de um grupo de amigos –  a paixão pelos patins – gerou uma verdadeira revolução em um espaço cultural abandonado há vários anos...

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A força transformadora que a união produz. Um sentimento em comum de um grupo de amigos –  a paixão pelos patins – gerou uma verdadeira revolução em um espaço cultural abandonado há vários anos na capital do Rio Grande do Norte. O local nada mais é que um monumento criado pela genialidade do maior arquiteto do país, Oscar Niemeyer. Com determinação e um desejo em comum, a turma de colegas fizeram da área, que antes estava tomada pelo lixo, um espaço democrático para a prática de esporte e lazer

Por Francisco Julio Xavier, colaborador da Rede Fórum

A força transformadora que a união produz. Um sentimento em comum de um grupo de amigos –  a paixão pelos patins – gerou uma verdadeira revolução em um espaço cultural abandonado há vários anos na capital do Rio Grande do Norte. O local nada mais é que um monumento criado pela genialidade do maior arquiteto do país, Oscar Niemeyer. Com determinação e um desejo em comum, a turma de colegas fizeram da área, que antes estava tomada pelo lixo, um espaço democrático para a prática de esporte e lazer.

O local tem uma área de mais de três mil metros quadrados, além de um amplo jardim e estacionamento. O monumento foi inaugurado em 2006, ao custo de R$ 1,7 milhão aos cofres do Governo do Estado. A ideia inicial de uso do “Presépio de Natal”, segundo o Secretário do Governo do Estado à época, Adalberto Pessoa, era oferecer um espaço para a “população se deleitar com a beleza da obra”, com apresentações culturais, esportivas e de lazer, além de sediar feiras locais e nacionais.

O monumento foi idealizado pelos membros da Academia Potiguar de Letras. O artista Dorian Gray Caldas, falecido recentemente, no dia 23 de janeiro de 2017,  foi quem elaborou a obra “Presépio de Natal”,  um painel com 28 metros quadrados, que retratava a história de Jesus Cristo e que deveria ser o destaque no espaço idealizado pelo arquiteto.

A primeira obra de Oscar Niemeyer na cidade, no entanto, foi abandonada pouco depois de ser inaugurada, deixada para a depredação e esquecimento, não recebendo mais eventos, servindo de ponto de venda e consumo de drogas e tornando o espaço subutilizado por empresas de autoescola para treinamento com motocicletas. A  obra do artista Dorian Gray, formada por três telas – Nascimento”, “Morte” e “Ressurreição” – teve duas totalmente danificadas. O conjunto media dois metros de largura e 14 metros de comprimento. Em 2012 foi retirado do local o que restou da composição: foi apenas um terço da criação.

Um novo espaço para o esporte nasceu na cidade

Em outubro de 2014, a união de um grupo de amigos seria decisiva para o futuro do local. Começaria ali uma transformação que o colocaria em destaque para a prática de esporte. Aos poucos o lugar abandonado foi sendo revitalizado e ocupado para a prática da patinação.

“A ocupação foi bem gradativa. Fizemos um mutirão de limpeza. Tiramos o lixo e o mato que tomava conta do local. Contratamos um carro pipa com dinheiro do nosso próprio bolso e higienizamos. Disso surgiu o grupo do Clube do Patins-RN e fomos convidando os amigos para ir patinar. As pessoas foram gostando, e foi crescendo a rede. Há pouco tempo vieram os ambulantes e outros grupos”, relatou Cristiano Alves, um dos idealizadores do movimento.

Espaço, antes abandonado, foi revitalizado por uma iniciativa da população local. (Foto: Francisco Júlio Xavier)
Espaço, antes abandonado, foi revitalizado por uma iniciativa da população local. (Foto: Francisco Julio Xavier)

Dessa iniciativa vários outros movimentos foram surgindo. Famílias inteiras adotaram o espaço para o lazer. Um dos exemplos é o Evandro Chaves, técnico de informática, que vem acompanhado do filho de apenas um ano e nove meses e da irmã, para patinarem no local.    “É o único lugar para a prática do esporte aqui na cidade. Venho sempre no final de semana. É um local para a família se reunir”, relatou.

O desrespeito por parte do Governo do Estado

O grande desafio que o local enfrenta agora é comportar a quantidade de gente em um único espaço, além de manter a estrutura preservada. Segundo Cristiano Alves, presidente da Associação dos Patinadores do RN, a média de público que frequenta o ponto de patinação chega a superar duas mil pessoas em um único fim de semana.

Mesmo o público tendo aderido ao espaço para a prática do esporte, o investimento do Governo do Estado em infraestrutura é mínimo. Segundo os organizadores,  o único auxílio que houve por parte dos governantes foi a implantação da iluminação na área, mas somente após inúmeras reivindicações por meio de ofício para a SEMSUR – Secretaria Municipal de Serviços Urbanos.

Alexandre Alves, que oferece o serviço de aluguel de patins no local, e um dos primeiros a frequentar o lugar, fala do sentimento de ter ajudado a construir um espaço para a prática da patinação. “Nos sentimos transformadores do local porque aqui era um lixão. Agora falta apoio dos órgão públicos. Mandamos vários ofícios solicitando melhorias, mas não tivemos respostas”, explica.

Segundo o presidente da Associação dos Patinadores do RN, o Governo  Estado não disponibiliza melhorias para local. A estrutura mínima dada para os frequentadores e o diálogo com os organizadores -que arcam muitas vezes com recursos próprios para  manter o espaço – não existe.

“Nós que mantemos o local para os eventos. Não temos banheiro químico para trazer mais conforto. Fizemos convênio  com empresas por alguns meses, mas para manter a nossa competência vai até certo ponto. Queríamos ter mais organização. Limitar a entrada de carros e motos. Ter mais segurança”, destaca ainda Cristiano que vem, por meio da Associação dos Patinadores e apoiadores, patrocinando eventos na região.

Ele ainda denuncia a falta de respeito por parte da Secretaria de Estado do Trabalho, da Habitação e da Assistência Social (SETHAS), que tenta se promover às custas do movimento, utilizando estratégias de marketing, com outdoor às margens da avenida, informando da revitalização do monumento.  “O pessoal veio pintar a obra e não avisou a ninguém. Um desrespeito muito grande. Tínhamos várias obras de grafiteiros e eles simplesmente pintaram. Além do mais, desconhecem a dinâmica do espaço. É tanto que na placa colocada aqui tem um esqueitista como representação, mas nós sabemos que o local, em sua grande maioria, é frequentado por patinadores”, desabafou.

Governo não investe, mas se aproveita da iniciativa da população. (Foto: Francisco Júlio Xavier)
Governo não investe, mas se aproveita da iniciativa da população. (Foto: Francisco Julio Xavier)

O bom convívio entre as tribos para uso do local

Os organizadores também temem a presença de grupos que frequentam a região aos sábados, principalmente. Em sua maioria formado por adolescentes, de 12 a 16 anos, que marcam encontros através das redes sociais. O “Rolezinho do Beijo”, é assim que são chamados por outros frequentadores, tem incomodado os patinadores.

Segundo alguns relatos e o observado no local, o  uso de drogas e substâncias químicas, por parte dos adolescentes, tem afastado aos poucos pais e mães que frequentam o local com seus filhos. No espaço destinado à patinação, o grupo se reúne em círculo para uma “rodada de beijos”, em meio a gritos e brincadeiras.

Michael Ximenes, que visita o local pela primeira vez, observou a desorganização na área de patinação, mas vê que é possível uma convivência saudável entre os grupos desde que haja o respeito entre as tribos. “Deveria ser mais organizado. Com áreas para patins e skate. Não tenho nada contra o rolezinho, mas acho até que dá movimento ao local. mas que a pista fosse determinada para o esporte. Não convém outras atividades na área de patinação,” ressaltou o visitante.



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