Mecânico morre após ser agredido por policial militar em São Paulo

O mecânico Eduardo Alves dos Santos, 42 anos, morreu às 19h de segunda-feira (16), em Itapevi, na Grande São Paulo, três horas depois de ser agredido por um policial militar. A declaração de óbito informa que a causa da morte foi “hemorragia interna traumática,...

1411 0

O mecânico Eduardo Alves dos Santos, 42 anos, morreu às 19h de segunda-feira (16), em Itapevi, na Grande São Paulo, três horas depois de ser agredido por um policial militar. A declaração de óbito informa que a causa da morte foi “hemorragia interna traumática, agente contundente”.

Da Redação com Informações do G1

O mecânico Eduardo Alves dos Santos, 42 anos, morreu às 19h de segunda-feira (16), em Itapevi, na Grande São Paulo, três horas depois de ser agredido por um policial militar. A declaração de óbito informa que a causa da morte foi “hemorragia interna traumática, agente contundente”.

A polícia foi chamada pela própria esposa de Eduardo, Fernanda Camargo, 36 anos, que precisava de apoio para buscar pertences pessoais e trocasse o carro com o marido. Apesar disso, ela declarou que “este policial tem de entender que ele matou um pai de família”.

Fernanda chamou a polícia por temer que o marido ficasse irritado com sua saída de casa. “Ele estava com meu carro e eu estava com o dele. Como ele tinha problema de alcoolismo, eu fiquei preocupada que ele pudesse dificultar as coisas. Era para os policiais darem apoio, não para espancar e matar meu marido.”

“Eu cheguei em casa e ele estava trabalhando na oficina, no andar de baixo, e ele me disse que não iria deixar levar nada, que só faria isso na Justiça. Foi aí que eu chamei uma viatura. Os policiais chegaram e eu expliquei a situação. Um dos policiais ficou conversando comigo e o outro ficou com ele lá dentro da oficina”, disse Fernanda.

Os policiais que atenderam ao chamado dela foram Adriano Soares de Araújo e Rafael Francisco de Vasconcelos. O primeiro ela descreve como “agressivo e descontrolado”. O segundo ela descreve como “calmo e quem tentou conter o colega policial”.

Fernanda disse que “meu marido estava trabalhando com o funcionário dele, pois tinham de entregar um carro naquele dia, Ele virou o rosto para olhar o carro e aí o policial Araújo bateu no ombro do meu marido dizendo: ‘Eduardo, estou falando com você’. E enfiou o dedo na cara do meu marido.”

Farda Rasgada

Em seguida, ela relatou que o marido tentou argumentar, dizendo que resolveria tudo com ela ou na Justiça. “Meu marido disse: ‘mas moço, porque você está fazendo isso comigo? Eu não sou bandido, sou trabalhador, estou na minha casa e preciso entregar esse carro hoje’. Foi quando o policial Araújo pegou meu marido pelo pescoço e o jogou em cima do carro. Ele deu uma rasteira no meu marido, que pegou a farda do policial, que acabou rasgando.”

Ela disse que o policial ficou transtornado quando viu que sua farda estava rasgada. “O Araújo gritava ‘Olha o que você fez na minha farda, olha o que você fez na minha farda. Você está preso’. Ele depois deu um chute no rosto do meu marido, que ficou com o olho roxo e inchado. Eu fui até o policial e pedi para ele não fazer isso com meu marido. O Araújo gritou: ‘não foi você que chamou a gente? Eu respondi que tinha chamado, mas não para agredir meu marido.”

Depois disso, Fernanda disse que o policial “saiu chamando reforço pelo celular e voltou com um cassetete na mão. Ele entrou e voltou a agredir meu marido de novo, bem na hora que meu marido, já mais calmo, sentado no chão com dores e conversando com o outro policial. O Araújo chegou e deu umas cacetadas nas pernas, no braço, na cabeça e na barriga”.

Abstinência de cachaça

De acordo com as imagens da câmera de segurança da oficina, que estava virada para a rua. É possível ver que o policial volta para a viatura, pega o cassetete e entra novamente na oficina.

O trecho seguinte das imagens mostra outras viaturas chegando e, cerca de cinco minutos depois, o mecânico sendo retirado da oficina e levado, algemado, para o carro de polícia.

Foram cerca de sete minutos até que o mecânico fosse levado para a delegacia de Itapevi. O trajeto demora cerca de dez minutos. “Lá, ele foi colocado numa sala sozinho. Eu consegui entrar na salinha e vi que tinha muito sangue no chão. Ele estava cuspindo sangue pela boca e pelo nariz. Ele pedia muita água. Ele estava morrendo e eu gritei pedindo ajuda para todos que estavam ali.”

Fernanda relata em seu depoimento à Ouvidoria da Polícia, que policiais chegaram a duvidar que o marido estivesse passando mal e ainda teriam dito para ela que “aquilo era abstinência de cachaça”.

A viúva reclama que o marido poderia estar vivo se tivesse recebido atendimento médico a tempo ou sido levado ao hospital ao invés de ser levado para a delegacia. “Eles demoraram para chamar o SAMU. Quando meu marido estava praticamente morto, toca um telefone na mesa e o Araújo pede para eu atender. Achei estranho que na tela do celular dele apareceu “amor SAMU”. Só depois soube que era a mulher do policial”.

Fernanda disse que a mulher do policial falou com ela pelo telefone e passou instruções para os primeiros socorros. “Achei estranho que ele ligou primeiro para a mulher do que para o atendimento do SAMU mesmo. A mulher pediu para eu enfiar o dedo no olho do meu marido. Como ele não reagiu, ela disse que meu marido estava em parada cardiorrespiratória. Ninguém ali ajudou, eu mesmo fiz a massagem cardíaca no meu marido. Só depois, muito tempo depois, que o Araújo, vendo a gravidade do que ele tinha feito, que foi ajudar.”

A viúva disse que a ambulância do SAMU demorou cerca de 25 minutos para chegar até a delegacia. “Ele praticamente morreu nos meus braços. Eu quero só a Justiça, quero que a Justiça seja feita. Não consigo viver com isso, que ele foi morto na minha frente, que eu chamei a viatura, me sinto também culpada. Eu chamei, mas eu não chamei para matar, era para dar um apoio naquela hora. Se ele sofria de alcoolismo, que levassem ele para um hospital, mas não ser agredido e morto.”

Dois Boletins de Ocorrência

Foram registrados dois boletins de ocorrência sobre o caso. O primeiro é de resistência. O segundo é de morte suspeita. Agora, a Ouvidoria da Polícia pediu que o caso seja investigado pelas corregedorias das polícias Civil e Militar e também pediu providências ao Ministério Público.

“O policial agressor precisa ser investigado por tortura seguida de morte. Os policiais militares e civis precisam ser investigados por omissão de socorro. Os policiais civis também precisam ser investigados por prevaricação, já que o abuso de autoridades, as lesões corporais não foram registradas no primeiro BO”, disse Ariel de Castro Alves, membro do Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana do Estado de São Paulo (Condepe).

Outro lado

Em nota, a Secretaria da Segurança Pública (SSP) de São Paulo informou que o inquérito policial foi instaurado na Delegacia de Itapevi e o delegado aguarda o laudo do exame necroscópico para apontar a causa da morte. A pasta informou ainda que Fernanda e a mãe já prestaram depoimento.

Ainda segundo a SSP, o comando do 20º Batalhão instaurou inquérito policial militar.

A SSP informou, na mesma nota, que apresentou uma ocorrência de violência doméstica após ser acionada pela própria mulher, que denunciou o marido por agressão.

No entanto, o próprio boletim de ocorrência não cita violência doméstica, nem agressão sofrida por Fernanda, que descartou fazer qualquer denúncia sobre isso.

Ainda segundo a PM, não houve omissão de socorro e que a vítima recebeu os primeiros socorros ainda na delegacia, com massagem cardíaca na hora que o homem passou mal e que o SAMU foi acionado e o socorreu com vida.



No artigo

x