Dois de fevereiro em tempos de golpe: gentrificação e resistência

Diante das ameaças aos direitos e à democracia, o dia de entrega de oferendas a Yemanjá, em Salvador, evidenciou os contrastes sociais e políticos e a resistência à gentrificação, ao autoritarismo, às privatizações, reafirmando...

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Diante das ameaças aos direitos e à democracia, o dia de entrega de oferendas a Yemanjá, em Salvador, evidenciou os contrastes sociais e políticos e a resistência à gentrificação, ao autoritarismo, às privatizações, reafirmando as conquistas e lutas da população afrodescendente

Por Daniel Souza, colaborador da Rede Fórum

Diante das “requalificações” executadas em Salvador (BA) pela gestão de ACM Neto, a festa da Colônia de Pescadores do Rio Vermelho para entrega de oferenda a Yemanjá, no dia 2 de fevereiro, foi marcada pela resistência aos retrocessos. Trata-se da festividade popular negra de maior dimensão da cultura soteropolitana. A gentrificação promovida pela administração nos bairros do Rio Vermelho e Barra, dentre outros, inclusive através de modificações no trânsito e nas linhas de ônibus, afetou a participação popular, priorizando a frequência da elite.

A aridez do cimento, em substituição às tradicionais pedras portuguesas e às árvores, intensificou a sensação térmica. O desenvolvimento cultural e econômico do bairro, conhecido pela boemia e eventos alternativos à indústria cultural, foi bloqueado pelas recentes intervenções, gerando mudanças no público, quedas das receitas, fechamento de bares e restaurantes. O restaurante Red River, aberto há poucos anos, opção de cultura e gastronomia, de um bairro espontaneamente vicejante, não resistiu às recentes intervenções.

O caso mais notório e preocupante foi a transformação do “Mercado do Peixe” na “Vila Caramuru”. O espaço público era caracterizado pelos bares de baixo custo, com grande público. A Vila Caramuru é elitizada, de alto custo, “gourmetizada”. No dia dois de fevereiro, esse espaço público foi privatizado para um show de Carlinhos Brown: Enxaguada de Yemanjá, com participação de Luiz Caldas, Danilo Caymmi, Margareth Menezes e Vanessa da Mata, cujos ingressos custam R$ 60 (pista) e R$ 120 (área vip).

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Foto: Daniel Souza

Contudo, há resistência. O protoganismo das religiões de matrizes africanas é afirmado pela forte presença de fiés e seus signos. A festa tem origem na oferenda entregue todos os anos, no mar, pelos pescadores do local. A tradição se mantém vigorosa, com muitas filas para agregar itens ao ritual. No mar, um barco se destacava com bandeiras do Partido dos Trabalhadores e a faixa: “Salve Yemanjá. Por mais diretos e mais democracia”. O SINDPETRO esteve presente no Largo da Dinha com faixas e camisas exigindo “FORA TEMER”, em repúdio às propostas de privatizações. Grupos com faixas e camisas azuis reivindicava “DIRETAS JÁ”, divulgando a hashtag #FéNasDiretas e o portal www.plataforma.cc/eleicoesgerais.

Embora o prefeito ACM Neto, um dos mais influentes artífices do golpe de 2016, seja conhecido pelas decisões elitistas, foi reeleito com mais de 70% dos votos válidos no primeiro turno. A administração é caracteriza pela prioridade ao entretenimento turístico e às reformas urbanas de “maquiagem”. Para tanto, contou com o apoio da Rede Bahia, de propriedade de sua família e afiliada à Rede Globo. A Rede Bahia atua na mídia impressa, na televisão, na rádio, na internet e na produção de eventos de entretenimento.

Diante das ameaças aos direitos e à democracia, o Dois de Fevereiro de 2017 em Salvador evidenciou os contrastes sociais e políticos e a resistência à gentrificação, ao autoritarismo, às privatizações, reafirmando as conquistas e lutas da população afrodescendente.



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