O médico que sugeriu a morte de Dona Marisa e o romance “Um Trem Noturno para Lisboa”

A partir da abjeta sugestão do médico Richam Faissal para "romper no procedimento" de Dona Marisa, vale voltar ao livro “Trem Noturno para Lisboa”. O romance nos traz um antigo dilema ético: O médico matar ou salvar o adversário, o inimigo político.

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A partir da abjeta sugestão do médico Richam Faissal para “romper no procedimento” de Dona Marisa, vale voltar ao livro “Trem Noturno para Lisboa”. O romance nos traz um antigo dilema ético: O médico matar ou salvar o adversário, o inimigo político.

Por Julinho Bittencourt

O livro “Trem Noturno para Lisboa”, de Pascal Mercier, pseudônimo de Peter Bieri, professor de filosofia em Berlim, além de um grande e instigante romance, nos traz um antigo dilema ético que voltou a nos assombrar por esses dias: O médico matar ou salvar o adversário, o inimigo político.

O neurocirurgião Richam Faissal El Hossain Ellakkis sugeriu, em um grupo de médicos no WhatsApp, um procedimento que tirasse a vida de Marisa Letícia. “Esses fdp vão embolizar ainda por cima. Tem que romper no procedimento. Daí já abre pupila. E o capeta abraça ela”, escreveu o médico.

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O neurocirurgião Richam Faissal El Hossain Ellakkis

O que sugere o neurocirurgião ninguém duvida do que seja. O assassinato de uma pessoa que, apesar de não ter tido protagonismo político, foi a primeira dama de Luiz Ignácio Lula da Silva, o primeiro presidente operário do Brasil, comprometido com os movimentos sociais e com uma tendência clara à esquerda que, ao que tudo indica, o referido doutor discorda com todas as suas forças.

De volta ao romance, um de seus protagonistas principais é um médico português em plena ditadura salazarista, que assolou o país por 41 anos. No meio da noite, a porta da sua casa é chacoalhada histericamente. Um conhecido torturador do regime estava entre a vida e a morte. Diante do dilema, o médico ouve o chamado do Juramento de Hipócrates (leia na íntegra abaixo) e resolve salvar o algoz. O médico, que até então era muito querido, passa a ser tratado como traidor perante a comunidade e a sua vida cai em desgraça.

Tanto no caso de Dona Marisa quanto no do torturador salvo pelo médico no romance de Pascal Mercier, apesar da aguda diferença entre os dois, o Juramento de Hipócrates é bem claro em um de seus trechos: “Não permitirei que considerações de religião, nacionalidade, raça, partido político, ou posição social se interponham entre o meu dever e o meu Doente”.

A defesa do referido doutor Richam Faissal provavelmente irá alegar que se tratava de um chiste, uma brincadeira, o que de fato foi, apesar do gosto extremamente duvidoso. Uma “brincadeira” que tem tudo para nos assustar. Nas mãos de quem afinal caímos nós e os nossos no momento em que mais precisamos? Quem são esses “doutores” de alegria duvidosa e como encaram a vida e as escolhas humanas?

O mundo, ainda bem, não se resume a Richam Faissal e seus congêneres. A raça humana tende a ser muito melhor do que eles, basta ver a indignação que a atitude abjeta dos mesmos provocou nas redes. Médicos excelentes e criteriosos estão por ai, se esfalfando a salvar gente em hospitais lotados e sem recursos para nos provar isso.

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Medica em manifestação contra o presidente Lula

Há, no entanto, uma chaga aberta que precisa ser extirpada e que se repete entre profissionais liberais, sobretudo médicos. As reações aos médicos cubanos, as passeatas contra o próprio governo Lula e a foto famosa fazendo alusão ao dedo do ex-presidente, revelam uma elite raivosa (um curso de medicina chega a custar R$ 10 mil reais por mês) e que está muito pouco preocupada com a saúde do resto do país.

Uma elite que, apesar de ainda representar uma exceção ruidosa, não cabe em nenhum projeto de mundo e que precisa, urgentemente, ser “operada”. A justiça deve, no mínimo, “romper o procedimento” deles, caçando os respectivos CRM’s.

O Juramento de Hipócrates (Versão de 1983)

Prometo solenemente consagrar a minha vida ao serviço da Humanidade.

Darei aos meus Mestres o respeito e o reconhecimento que lhes são devidos.

Exercerei a minha arte com consciência e dignidade.

A Saúde do meu Doente será a minha primeira preocupação.

Mesmo após a morte do doente respeitarei os segredos que me tiver confiado.

Manterei por todos os meios ao meu alcance, a honra e as nobres tradições da profissão médica.

Os meus Colegas serão meus irmãos.

Não permitirei que considerações de religião, nacionalidade, raça, partido político, ou posição social se interponham entre o meu dever e o meu Doente.

Guardarei respeito absoluto pela Vida Humana desde o seu início, mesmo sob ameaça e não farei uso dos meus conhecimentos Médicos contra as leis da Humanidade.

Faço estas promessas solenemente, livremente e sob a minha honra.



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