Após opressão policial, reintegração de posse no Grajaú é adiada

Moradores da Ocupação Clube Aristocratas passaram a noite em claro com medo que a desocupação pudesse ocorrer.

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Moradores da Ocupação Clube Aristocratas passaram a noite em claro com medo que a desocupação pudesse ocorrer

Por Felipe Ribes, Hélen Freitas e Natália Scarabotto, colaboradores da Rede Fórum de Jornalismo

Medo e incerteza estavam presentes nos moradores da Ocupação Clube Aristocratas – situada na região do Grajaú, no extremo sul de São Paulo – na manhã da última quinta-feira (9). Sentimentos que vieram à tona devido a uma possível reintegração de posse marcada pela Prefeitura. A retomada do local havia sido anunciada há menos de um mês, mas um acordo firmado na quarta-feira adiou a saída por 60 dias.

Os moradores passaram a noite acordados em volta de uma fogueira à espera da ação da Polícia Militar (PM), que não aconteceu. De acordo com relatos, diversos oficiais foram às casas ontem, oprimindo e ordenando às pessoas que deixassem o local. Segundo os moradores, a PM afirmava que não estava ciente de nenhuma suspensão e que a ordem era cumprir a reintegração de posse.

Para evitar possíveis prejuízos, cerca de 100 das 200 famílias acabaram desfazendo seus barracos e levando os objetos para outro local. “As pessoas ficaram com medo e saíram. Isso não significa que abandonaram o grupo, mas que apenas quiseram garantir que não perderiam seus pertences. Elas continuam participando”, nos conta Eliude Araújo, coordenador geral da ocupação.

A diarista Joelma Maria dos Santos, 31 anos, por exemplo, foi uma das pessoas que acharam prudente sair do local ontem. “A gente fica preocupado, não consegue nem dormir à noite. Eu até aluguei um espaço em uma garagem para colocar as minhas coisas e passar a noite com meus filhos pequenos, mas, agora, vou trazer o fogão e a geladeira de volta. Do meu barraco eu não saio, não”, afirmou.

O drama de não ter para onde ir se repete em cada uma das famílias. O apelo é para que seja feito um plano de moradia para abrigá-los. “A gente não queria viver nessa situação. Ninguém quer viver em casa de alvenaria, mas é o que temos agora. Entre pagar aluguel e dar comida para os meus três filhos, eu escolho dar comida para os meus filhos. Com a minha renda e a do meu marido, não dá pra pagar o aluguel de um imóvel e ainda colocar três crianças. Eu bem que gostaria, mas não é uma escolha minha”, disse a vendedora Andreza Santana, de 29 anos.

Não é possível dizer que o movimento de luta por moradia obteve uma vitória. Mesmo assim, os moradores do Clube Aristocrata têm motivos pra comemorar: viram o dia amanhecer com a segurança de que ali permanecem por, pelo menos, mais 60 dias, tempo previsto para que a população saia voluntariamente. “Nesse tempo, vamos discutir com a Prefeitura um projeto de moradia para nós. A maior parte das pessoas não têm para onde ir. Então, não vamos sair daqui. Vai ter resistência se for necessário”, afirma Araújo.

Marici Meni, de 42 anos, declarou estar revoltada com a forma com que o Estado está intervindo na vida de sua família e dos outros moradores. “Desde que meu filho estava no meu útero, ele já paga imposto. O leite que ele tomou tinha imposto, a fralda, o ultrassom. Agora, com 16 anos, ele tem direito de votar, mas não tem direito a moradia. Nunca nos deram nada. Vocês podem ver por aqui como está, e agora é assim que nós somos tratados? Eu sou uma cidadã brasileira e meu filho também, é correto isso?”, questiona.

Reivindicações

Além de lutarem pelo direito à habitação, os moradores do Clube Aristocrata desejam que a comunidade tenha um sistema de esgoto melhor, coleta de lixo planejada, iluminação, água encanada e, principalmente, acesso à educação – por meio da construção de uma escola -, e à saúde.

Cintia Castilho, presidente da Associação União Comunitária Novo Aristocrata, há falta de postos de saúde na região. “Só tem um posto de saúde para atender todo o Jardim Lucélia, Vila Nascente e Parque São Miguel. É muito pouco”, afirma.

Segundo o coordenador da ocupação, outros problemas graves da região estão relacionados à falta de assistência da Prefeitura. Araújo comenta que muitas vielas alagam quando chove, devido à ineficiência do sistema de esgoto instalado pela Sabesp. Além disso, o lixo se acumula facilmente, pois há falta de caçambas e, como os fios de energia são baixos, o caminhão não consegue ter acesso a diversas ruas.

Os moradores afirmaram que já tentaram diversos acordos para solucionar todos os problemas, contudo não houve diálogo. A Prefeitura somente diz que eles devem deixar a ocupação para que lá seja construído um parque linear. Além disso, afirmam que o Parque Aristocrata está localizado em cima de um manancial e, sendo assim, não seria possível que eles permanecessem.

Próximos passos

Ainda na manhã de ontem, os moradores da ocupação Clube Aristocrata se reuniram para decidir as alternativas para a comunidade. Segundo Araújo, o desejo de todos é que possam permanecer na área. Contudo, afirma também que, se não houver escolhas, querem ao menos sair com dignidade e tendo um lugar para morar.

Com relação ao processo judicial envolvendo a ocupação, a juíza Mônica Senise Ferreira de Camargo, na quarta-feira, determinou que a Secretaria Municipal de Habitação (SEHAB) instituirá uma Comissão de Mediação de Conflitos Fundiários que irá facilitar o diálogo entre a Prefeitura e os moradores, com o objetivo de encontrar uma solução que agrade ambas as partes.

Em 60 dias, os moradores deverão sair de forma voluntária, sendo que, para isso, a Prefeitura deve buscar alternativas habitacionais a médio e longo prazo para a população, sendo dada prioridade às pessoas em situação de maior vulnerabilidade social. Segundo a decisão, caso haja descumprimento do acordo, a reintegração de posse já tem nova data para ocorrer: dia 6 de abril, às 6 horas.

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