Blocos de São Paulo também resolvem abolir marchinhas machistas e homofóbicas

Depois de alguns blocos do Rio de Janeiro anunciarem o veto às marchinhas machistas e preconceituosas, agora é a vez dos blocos de São Paulo. O primeiro a declarar que não vai tocar canções como “Cabeleira do Zezé”, “O Teu Cabelo Não nega” e...

1116 0

Depois de alguns blocos do Rio de Janeiro anunciarem o veto às marchinhas machistas e preconceituosas, agora é a vez dos blocos de São Paulo. O primeiro a declarar que não vai tocar canções como “Cabeleira do Zezé”, “O Teu Cabelo Não nega” e “Maria Sapatão” é o bloco MinhoQueens.

Da Redação com Informações da Coluna de Mônica Bérgamo

Depois de alguns blocos do Rio de Janeiro anunciarem o veto às marchinhas machistas e preconceituosas, agora é a vez dos blocos de São Paulo. O primeiro a declarar que não vai tocar canções como “Cabeleira do Zezé”, “O Teu Cabelo Não nega” e “Maria Sapatão” é o bloco MinhoQueens.

Pela primeira vez na história da internet, não houve polêmica. O público do grupo (ao menos os que opinaram) apoiou em massa.

“A gente tem preocupação de não fazer nada que vá machucar ninguém. Sempre pensamos nisso, então quem vai no bloco tá com a gente”, diz o organizador Willians Medeiros à repórter Letícia Mori.

O bloco, que tem temática drag queen, sai no dia 25, no largo do Arouche, e é um dos 495 que vão desfilar em SP. É ainda um dos que questionam as velhas marchinhas, movimento também visto no Rio. O MinhoQueens não tocará “A Cabeleira do Zezé”, “Maria Sapatão” nem “Dá Nela”. Já “Mamãe Eu Quero” e “Ó Abre Alas” seguem no repertório, assim como hits de pop e funk.

Biel também está de fora

“Mas as músicas do Biel, depois de tudo que aconteceu, vão ficar de fora”, diz Willians. O funkeiro caiu em desgraça no ano passado, quando foi acusado de assédio.

Já quando Thiago França, do bloco Charanga do França, resolveu expor sua opinião, as reações não foram os unânimes “arrasa!” que o pessoal do MinhoQueens ouviu.

Declarando aberta a temporada de problematizações carnavalescas, o músico escreveu que se recusaria a tocar “O Teu Cabelo Não Nega”. “O verso ‘mas como a cor não pega, mulata’ é racismo demais pro meu gosto”, disse o líder do bloco, que sai no dia 27 em Santa Cecília. Apesar do tom bem-humorado do post, seguiu-se discussão enorme.

“Algumas pessoas concordam comigo”, diz França. “Por outro lado, tem uma corrente que acha que não se deve mexer nisso, que tira o foco de questões mais urgentes, o racismo no ambiente de trabalho, a violência doméstica”, afirma ele, que não se irrita com a maioria das outras marchinhas. “Essa me incomodava há muito tempo. Como artista, não quero falar coisas que não me representam.”

Tiago Abravanel não quer preconceito

Em uma madrugada, alguns dias depois de França levantar a discussão, outro Tiago —o Abravanel— fazia o esquenta de seu bloco na Audio Club. Desde a época do espetáculo “Tim Maia”, o cantor e ator faz um acréscimo na música “Vale Tudo”. Na parte da letra que diz “só não pode dançar homem com homem, nem mulher com mulher”, ele ressalva: “Pode sim!”.

“Não tenho vergonha de dizer, pelo amor de Deus, para que as pessoas deixem de ser preconceituosas”, explica depois Abravanel, que comanda o bloco Gambiarra no dia 19 na avenida Faria Lima. Apesar da brincadeira, ele diz ser contra procurar “pelo em ovo”. “Importa mais a atitude do intérprete do que a letra em si.”

O bloco Domingo Ela Não Vai (que toca axé dos anos 1990 e sai dia 26 no centro) toma cuidados, mas não lima músicas. “O axé sempre foi criticado pela alta carga de machismo”, diz o organizador Alberto Pereira Jr. “Aqui quem canta é um gay, uma transexual. A gente não altera letras, mas ressignifica.”

Vocalista do bloco, Candy Mel se diz feliz com a onda de questionamentos. “Se a gente não identificar pequenas coisas que são extremamente machistas, contra trans, contra LGBTs, contra negros, se não fizer nem essas pequenas mudanças, como vai fazer as grandes?”, pergunta a cantora, que é transexual.

“É uma babaquice, uma falta de assunto”, opina Ivo Meirelles, que se apresenta no Gueri-Gueri, no dia 18, no Cidade Jardim. “Vou cantar tudo. As marchinhas, por mais que as letras estejam fora do politicamente correto de hoje, foram sucesso”, diz o cantor. “O público quer ouvir ‘Deu Onda’, ‘Maria Sapatão’, ‘Baile de Favela’. É Carnaval, é diversão, é pula-pula.”

“Tem que parar de achar que questionar as músicas é uma chatice”, diz Candy Mel. “Chatice é a gente sofrer preconceito.” Sem posição fechada sobre a polêmica sonora, o Acadêmicos do Baixo Augusta (que sai no dia 19 na Consolação) optou por não tocar as músicas vistas como preconceituosas. “Nosso espírito é de diversidade e respeito”, diz Simoninha, o puxador.

“Eu entendo que é uma reflexão necessária. Só que certas músicas têm que ser observadas de um ponto de vista histórico. Precisa debater mais, mas não num momento em que ânimos estão exaltados, no calor da discussão.”



No artigo

x