Padilha: São Paulo for sale? Aqui não, Playboy!

O médico, ex-ministro da Saúde e ex-secretário de Saúda da prefeitura de São Paulo, Alexandre Padilha, é o novo colunista da Revista Fórum.

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O médico, ex-ministro da Saúde e ex-secretário de Saúde da prefeitura de São Paulo, Alexandre Padilha, é o novo colunista da Revista Fórum. Todas as segundas-feiras, Padilha publicará textos por aqui. No desta semana, ele alerta para que ao invés de combater o marketing do atual prefeito de São Paulo, João Doria Jr., a cidade e os militantes progressistas deveriam debater os fatos concretos que podem levar São Paulo a perder projetos sociais importantes e ver sufocados  movimentos de ocupação de espaço público e entregues sem debate equipamentos municipais importantes. Bem-vindo, Padilha.

Por Alexandre Padilha

E foram exatos 45 dias, com o novo prefeito da cidade de São Paulo produzindo a imagem do dia para câmeras, selfies e lives, para que, enfim, o real plano de governo dos próximos quatro anos fosse apresentado. Em um vídeo, com narrativa em inglês, como caça compradores: o Maior Programa de Privatização de São Paulo. Enfim, mais do que a fantasia do dia de amanhã, ficou claro para onde o prefeito quer levar a cidade.

Até então, o novo prefeito vinha cumprindo a risca certo perfil de celebridades e políticos: a produção diária de factoides. Sinceramente, não desprezo a importância disso para uma gestão nos tempos de hoje. No mundo do instantâneo, da profusão de informações, da capilaridade das redes, onde cada um se conecta com pautas muitas vezes diversas, é sim importante que o ator político seja capaz de produzir acontecimentos, mobilização de prós e contras a sua opinião, disputa de valores e ocupação da pauta da mídia (tendo condescendência aos tucanos paulistas).

Para este perfil, não importa se, segundo o jornal Folha de S. Paulo, retirou-se menos lixo das ruas em janeiro de 2017 do que em 2016, mas ninguém vai esquecer a foto do homem de gari. Não importa se a estratégia adotada para realizar exames de saúde na cidade tenha retirado pessoas da fila sem serem atendidas – 210 mil – porque não conseguiram chegar ao local ou pelo horário do exame, do que as que de fato realizaram – 128 mil -, mas ficou ótima a entrevista de uma senhora pós-exame em reportagem para o programa SPTV da TV Globo.

Por isso, embora entenda a indignação e a vontade ativista, sempre considerei um erro correr atrás de cada factoide do novo prefeito. O que é preciso é analisar, criticar e se contrapor, propondo alternativas, ao plano de governo real, não a produção diária de cenários e vestuários.

E enfim, ele nos foi apresentado. Não em uma das ruas ou avenidas da cidade, com o prefeito vestido de algum uniforme dos humildes, mas num momento onde ele estava de terno e gravata, no ar condicionado nos hotéis de luxo de gosto discutível, a muitas milhas distante de onde, um dia Padre Anchieta ergueu um colégio. Do outro lado do oceano, em Dubai, Abu Dhabi e Doha.

A São Paulo em promoção antes de tudo revela uma imagem que o grupo que hoje nos governa tem da nossa cidade.

Para que tenham ideia, vou contar uma história que presenciei. Um secretário do governo tucano, em reunião com o atual prefeito, empresários e técnicos diante de uma foto clássica da cidade e seu emaranhado de prédios centrais, tendo como ângulo central a bandeira paulista em cima da torre do prédio do antigo Banespa, afirmou: “Não é essa São Paulo que queremos, a que cresceu demais, cheia de gente”.

Fiquei surpreso com a crítica, porque São Paulo de fato tem um problema histórico de planejamento urbano. Mas um instante após a troca de foto, o interlocutor do atual secretário acordou-me de qualquer ilusão. Diante de uma nova foto afirmou: “É nessa São Paulo que queremos chegar”. E surgiu a foto daquela Ponte Estaiada, cenário da TV Globo, com o skyline envidraçado ao longo da Berrini, que se não fossem a exposição quase diária, poderíamos dizer que estávamos em…Abu Dhabi.

Quem governa hoje a cidade projeta uma São Paulo para ser vista em fotos de PowerPoint, com imagem e identidade que se confunda com outras cidades do mundo, onde o que mais o governo que a comanda faz é facilitar negócios. Um fenômeno típico da pós-globalização, onde as grandes cidades passam a ser vistas como plataforma de negócios – locais para hotéis, centro de convenções, ativos a serem vendidos ou que gerem retorno lucrativo ao investir-se, pessoas e rotas que facilitem a conexão com outros centros de facilitação de negócios no mundo. E para isso, pouco precisam participar, seus cidadãos são secundários.

Ai vem à segunda dimensão deste plano de governo, um plano para poucos e não para os 12 milhões de paulistanos, muito menos para aqueles que mais precisam de políticas públicas de um governo municipal. Não à toa, o vídeo não revela políticas públicas que serão adotadas, expõe ativos a serem comprados. Poucos, comparativamente a imensidão de equipamentos públicos da cidade, mas o suficiente para, dando certo, gerarem uma boa grana. E a lógica do investimento privado é clara: quer o retorno o mais rápido possível onde o esforço de qualidade ou universalização está exatamente no limite, isso é essencial para garantir-se retorno.

Em uma cidade desigual, mas enorme como São Paulo, com muita gente pobre e excluída, mas também tendo muita gente com padrão de vida similares a outras metrópoles do mundo economicamente desenvolvido, há muito a se buscar de retorno sem se preocupar em atender a maioria da população, principalmente aquela que vive nos locais mais distantes, mais violentos, mais vulneráveis, justamente aqueles que não estão no vídeo.

Um bom exemplo disso é a proposta do atual governo em fechar as farmácias das unidades de saúde da rede municipal espalhadas por toda cidade que, em 2016, entregaram medicamentos para 30 milhões de receitas, com orientação das equipes de saúde, e transferir esse atendimento para as farmácias privadas, que se concentram em centros comerciais. Um excelente retorno para o parceiro privado, um case a ser exibido, mesmo que afete a vida de milhões que vivem em subprefeituras, onde não passam de uma dezena os postos privados.

A terceira dimensão, até por ser uma política voltada para poucos e promotora de negócios internacionais, é uma imagem da cidade sem seus atores e suas identidades. O vídeo não revela nenhuma das histórias de superação por qualquer cidadão que tenha sido beneficiado por uma política pública. Não revela nenhuma transformação social, econômica e ambiental de qualquer uma das iniciativas possíveis. Não aponta quais vidas, que organizações, quais novos mundos serão beneficiados com tamanho programa. Não estabelece a relação dos nossos traçados, dos nossos prédios, das nossas intervenções urbanas com a nossa história, com nossa cultura, com nossa identidade. Até porque ao final do sucesso dos investimentos, teremos mais imagens que podem ser de qualquer lugar, até da cidade de São Paulo.

E, nesta São Paulo, nem cabem o nome das marcas das empresas que doaram insumos para os primeiros dias da lua de mel do novo prefeito, a não ser que sejam marcas globais. Esta cidade não produziria o movimento antropofágico da semana de 22 e nem tem espaço para os saraus e manifestações culturais da Cooperifa, da Zona Sul,  ou do Instituto Pombas Urbanas, da Zona Leste, passando pelos novos usos públicos do Centro.

Sou daqueles que acredita que só se impõe um plano de governo como este em cidades que não convivem com qualquer estrutura democrática ou com as desigualdades que temos.  Aqui não, playboy. Foi dada a oportunidade de confrontarmos qual o projeto de cidade que queremos.

 

alexandre padilha

 

Alexandre Padilha é médico, foi secretário municipal da saúde na gestão de Fernando Haddad e ministro nas gestões Lula e Dilma.

 

 



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