A união das esquerdas na eleição francesa é possível?

Pela primeira vez em muito tempo, o cenário previsível das eleições francesas não ocorrerá: uma candidatura do Partido Socialista contra outra do LR (Lés Republicains), partidos que elegeram os últimos dois presidentes, tendo a Frente Nacional de Marine Le Pen como a terceira força

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Por Leonardo Aragão, da Rede Fórum de Jornalismo

Um dos principais esteios da União Europeia como a conhecemos hoje, a França observa a aproximação da reta final de sua eleição presidencial com muitas interrogações sobre o que poderá ocorrer e quais os rumos que o país pode embarcar a depender dos resultados finais.

Com cinco candidaturas que apresentam relativa densidade eleitoral, os franceses podem ser liderados por um projeto de matizes fascistas, notadamente contrário à imigração, nacionalista e inimigo feroz dos valores da União Europeia. Ou por um projeto progressista crente no Estado de Bem-Estar Social, que caracteriza a política europeia desde os tempos do pós-guerra.

Pela primeira vez em muito tempo, o cenário previsível das eleições francesas não ocorrerá: uma candidatura do Partido Socialista contra outra do LR (Lés Republicains), partidos que elegeram os últimos dois presidentes, tendo a Frente Nacional de Marine Le Pen como a terceira força, não se constituindo como uma ameaça real, mas demarcando uma posição à direita no espectro político. O surgimento dos partidos En Marche!, de Emmanuel Macron, ex-ministro de Hollande que rompeu com o governo, e A França Insubmissa, de Jean-Luc Mélénchon, o mais à esquerda no espectro político, embaralharam as opções e trouxeram novos projetos à pauta.

A própria classe política francesa é responsável por boa parte da imprevisibilidade da disputa. Os fracassos dos governos de Nicolas Sarkozy e François Hollande (que sequer ousou ser candidato) causaram surpresas nos próprios partidos tradicionais, que em suas prévias indicaram nomes tidos como azarões dentro das siglas, casos de Benoît Hamón, do PS, e François Fillon, do LR.

Não entrarei no mérito do programa de cada um dos candidatos, pois aqui nesta mesma Revista Fórum, o amigo Vinícius Sartorato escreveu um artigo sobre os perfis colocados na disputa. A reflexão que cabe suscitar é qual o papel da esquerda francesa neste processo, e se ela está ciente do significado para a conjuntura europeia de uma eventual ascensão da Frente Nacional de Marine Le Pen ao poder.

As duas candidaturas colocadas à esquerda aparentemente caminham para disputar separadamente a preferência do eleitor no primeiro turno de 23 de abril. Segundo a última pesquisa divulgada pelo Instituto Opinion Way, Hamon tem 14% das intenções de voto, contra 11 de Mélénchon. É fato que uma unificação das duas forças à esquerda, ainda que não signifique uma transferência automática de votos, colocaria o “cabeça de chapa” com chance real de avançar ao segundo turno.

Será que vale a pena correr o risco de ver duas opções à direita disputando a segunda etapa da eleição, obrigando aos que estão à esquerda optar pelo nome que se opor a Marine Le Pen? Confirmando o que apontam as pesquisas, Emmanuel Macron, citado como candidato de centro-esquerda, mas que na economia se alinha aos neoliberais (há quem diga que seu rompimento com Hollande se deu porque o atual mandatário não guinou à direita o suficiente), seria aquele que teria a responsabilidade de evitar a vitória do fascismo, com o salvo conduto para implementação de um programa recessivo e com potencial de piorar a vida da já combalida classe trabalhadora francesa.

Na melhor tradição internacionalista, será renovador do ponto de vista simbólico para toda a esquerda mundial ver os socialistas (radicais ou moderados) tendo chances reais de vencer a eleição, apesar de todas as críticas que possam ser feitas ao péssimo governo de François Hollande. Benoît Hamon conseguiu resgatar o protagonismo da ala à esquerda do Partido Socialista e demarcou politicamente de forma contrária aos planos recessivos que Hollande tentou impor. Portanto, a possibilidade real de contrapor o fascismo de Le Pen apresentando um programa de esquerda, com saídas para a crise econômica no continente europeu que já dura quase dez anos, e em defesa do papel do Estado como indutor do desenvolvimento e da garantia de condições mínimas de subsistência ao povo francês deve ser priorizada em detrimento da busca por espaços institucionais e pelo título de “vanguarda” dos marxistas, comunistas e socialistas da França.

Manter a divisão da esquerda e jogar para o segundo turno duas candidaturas da direita, uma fascista versus outra liberalóide, pode levar o eleitor, em estágio de rejeição da política, e que pode ver em Macron e Fillon o “mais do mesmo”, a apostar em Marine Le Pen, provocando o golpe derradeiro na União Europeia, com a execução do “Frexit”, a saída da França da UE, e consequentes resultados catastróficos no arranjo global.

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(Fotomontagem: Revista Fórum/Divulgação)



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