Aplicativo conta quantas vezes uma mulher tem a sua fala interrompida

A ideia dos desenvolvedores do Woman Interrupted – nome do app – é que ele seja usado em situações como reuniões de trabalho ou debates de ideias, quando as interrupções sem motivo ou bom senso podem aparecer.

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A ideia dos desenvolvedores do Woman Interrupted – nome do app – é que ele seja usado em situações como reuniões de trabalho ou debates de ideias, quando as interrupções sem motivo ou bom senso podem aparecer.

Da Redação com Informações da Folha

Um aplicativo dará a elas o poder de contar as interrupções em sua fala. O dispositivo é gratuito e está disponível nas plataformas de programas para aparelhos celular. A inspiração para a ideia veio das ostensivas interrupções que Donald Trump fazia nas falas de Hilary Clinton durante debates nas eleições americanas.

A ideia dos desenvolvedores do Woman Interrupted – nome do app – é que ele seja usado em situações como reuniões de trabalho ou debates de ideias, quando as interrupções sem motivo ou bom senso podem aparecer.

Em breve, a ferramenta vai possibilitar gerar relatórios, que vão mostrar em que países do mundo a mulher está mais sujeita a interrupções, em que situações, por quantas vezes em média. As conversas não ficam gravadas.

PROBLEMA MUNDIAL

“A interrupção é ato quase involuntário, despercebido e inserido na cultura, mas é um problema mundial e grave. O objetivo é jogar luz sobre o tema. Só de colocar a discussão no ar, o comportamento de alguns homens já muda. A ficha, às vezes, só cai com o conhecimento”, afirma Gal Barradas, uma das idealizadoras do app e sócia-fundadora da agência BETC em São Paulo.

A colunista da Folha Mariliz Pereira Jorge achou válida a iniciativa do app, mas avalia que apenas contar interrupções não basta.

“A questão principal é o que será feito com isso, além de mostrar que o mundo é machista, o que já estamos carecas de saber. Junto com o aplicativo haverá dicas de como se posicionar, de como não deixar outra pessoa te interromper?”, diz.

“Individualmente, uma mulher ao perceber que vive isso no seu dia a dia precisa mudar o próprio comportamento, quem sabe até com ajuda de profissionais para entender por que permite que seja violentada dessa forma”.

A colunista afirma ainda que já teve de lidar com “brucutus” no ambiente de trabalho, “mas sempre foi mais uma questão de hierarquia do que de gênero. Chefes, em geral, acham que são deuses e não deixam os outros falar, independentemente se são homens ou mulheres”.

Bianca Pedrina, do coletivo Nós, Mulheres da Periferia, falou com ironia do app.

“Acho um absurdo precisarmos de um aplicativo para comprovar que, sim, nós, mulheres, somos interrompidas a todo momento por homens ou até mesmo não somos ouvidas, o que é até mais grave. Vão criar um aplicativo para isso também? Estamos precisando!”, disse.

Estudiosa do feminismo e doutoranda em antropologia social pela Universidade Federal de Santa Catarina, Anahi Guedes de Mello afirma que a interrupção masculina da fala da mulher é ponto importante nas discussões de gênero e é considerada uma forma de violência.

“Por uma questão de poder, o homem tende a suplantar a autoridade feminina negando-lhe ou interrompendo-lhe a fala”, diz.

Segundo a pesquisadora, “um homem que interrompe foi socializado assim, aprende desde cedo a tratar as mulheres como sua propriedade e, por isso, não aceita ser mandado por mulheres. Mas, se ensinarmos a respeitá-las, podemos ter o efeito contrário, uma justiça de gênero”.

 



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