Na Cracolândia, atriz trans proporciona Dia da Mulher àquelas que sempre foram esquecidas

Constantemente invisibilizadas e marginalizadas, frequentadoras da Cracolândia puderam se sentir mais mulher neste 8 de março graças a uma tocante iniciativa de uma pessoa que sente-se mais empoderada do que nunca: Leona Jhovs, atriz...

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Constantemente invisibilizadas e marginalizadas, frequentadoras da Cracolândia puderam se sentir mais mulher neste 8 de março graças a uma tocante iniciativa de uma pessoa que sente-se mais empoderada do que nunca: Leona Jhovs, atriz trans da companhia Pessoal do Faroeste

Por Ivan Longo

Quem lembra de pessoas em situação de rua ou dependentes químicas nas homenagens do Dia Internacional da Mulher? Em São Paulo, quem olhou por essa população foi ninguém menos que uma atriz trans que vem revolucionando o contato social no chamado “quadrilátero do pecado”, na região conhecida como Cracolândia, centro da capital. Leona Jhovs, atriz da companhia de teatro Pessoal do Faroeste, desenvolve inúmeros trabalhos junto à população de rua da região e protagonizou, nesta quarta-feira (8), talvez a ação mais tocante da cidade no Dia Internacional da Mulher.

Leona e as mulheres beneficiadas, com as flores artesanais confeccionadas na oficina.
Leona e com uma das beneficiadas e Natalina, moradora da região, com as flores artesanais confeccionadas na oficina.

À princípio, Leona foi convidada por Carmem Lopes, assistente social do programa de redução de danos para dependentes químicos da região “De Braços Abertos”, para ser a musa de uma ação de Dia da Mulher em que beneficiárias do programa confeccionariam flores artificiais para serem entregues às transeuntes. A atriz, que foi rainha de bateria do Cordão do Triunfo, bloco do Pessoal do Faroeste, foi além, e pensou que as mulheres da Cracolândia poderiam não só entregar flores para outras mulheres, mas também serem agraciadas e homenageadas neste dia.

“Quando eu recebi esse convite eu fiquei muito feliz, por que meu trabalho com a região não vem de hoje, desde sempre a companhia tem esse trabalho social. Eu pensei: Dia da Mulher, entregar flores, que que eu vou fazer ali? Só vou estar de corpo presente? Só um rostinho bonito? Aí comecei a movimentar isso”, contou a atriz.

O “isso” que Leona começou a movimentar se refere aos músicos, maquiadores, cabelereiros e artistas que conseguiu mobilizar junto à companhia de teatro para oferecer à essas mulheres recorrentemente invisibilizadas uma homenagem tal qual todas as mulheres, como são aquelas que frequentam a Cracolândia, deveriam receber. Um dia para perceber que há quem olhe por elas e que caminha junto na luta por espaço, direitos e oportunidades.

“Eu movimentei chamando parceiros, músicos, artistas em geral que pudessem estar performando. Maquiadores, cabelereiros… Fizemos um grande camarim. A gente conseguiu doações de diversas roupas, acessórios, sapatos, brinquedos. Elas chegaram lá [na sede do Pessoal do Faroeste] acreditando que só fariam as flores e foram surpreendidas pela gente. Aí começou a ser mais incrível do que a gente esperava”, contou Leona.

Leona com o diretor de teatro da companhia, Paulo Faria.
Leona com o diretor de teatro da companhia, Paulo Faria.

Sempre apoiada pela companhia e pelo diretor de teatro Paulo Faria, que faz questão de colocar Leona à frente das iniciativas pela sua força enquanto mulher trans, a atriz foi para essas mulheres vulneráveis no dia 8 de março uma inspiração de força, segurança e empoderamento necessária a uma minoria historicamente oprimida não só pelo machismo mas também pela severa divisão social da cidade. Enquanto mulher trans, Leona tomou a iniciativa não só por aquelas mulheres, mas também para si mesma.

“Ser uma mulher trans fazendo esse movimento é muito especial. Eu vivo em um país onde tem tudo para que mulheres como eu não se aceitem, não se gostem, não achem que tenham importância. Quando eu me vejo como uma atriz trans no meio da Cracolãndia, no meio do fluxo, aquele lugar feio, cinza, levando cor por conta das flores, eu mandei um beijo pro [prefeito João] Doria e disse: caralho, está valendo a pena. A gente trouxe cor pra esse lugar no Dia da Mulher”, contou a atriz, que diante desse trabalho disse que sente-se muito mais mulher e empoderada.

Leona percorre as ruas da região da Cracolândia para entregar flores com as mulheres.
Leona percorre as ruas da região da Cracolândia para entregar flores com as mulheres.

As mulheres da Cracolândia que até então sequer se lembravam do Dia da Mulher, receberam uma atenção e um carinho que dificilmente recebem. Foram agraciadas com música, maquiagem, cortes de cabelo e doações de roupas e acessórios. Após este momento, então, Leona saiu pelas ruas da região, com um megafone na mão, convocando outras mulheres para juntarem-se à iniciativa e receberem flores daquelas que estão acostumadas apenas a receber preconceito e repressão policial.

“As reações foram diversas: desde a pura emoção até o choque. Mas todas entraram de um jeito e saíram de outro”, contou.

Para a atriz, fazer parte e, mais do que isso, capitanear uma iniciativa como essa, representa muito mais do que algo pontual.

“Proporcionar isso para elas é muito grandioso. É uma forma da gente permancecer na história. Além de ser, permanecer”.

 

Confira abaixo o vídeo de um dos momentos da iniciativa com as mulheres da Cracolândia na sede da companhia Pessoal do Faroeste.

Conheça cada um que colaborou com essa iniciativa do 8 de março na Cracolândia:

Ale Araujo – cabelo

Claudinei Pinheiro – cabelo

Jhonny Bras – maquiagem

Priscila Soares – maquiagem

Evandro Jacinto – maquiagem

Scarlaet Araujo – maquiagem

Kesie Carvalho – maquiagem

Ricardo Fernandes – maquiagem

Flávio Sales – maquiagem

Luzia Sotero – limpeza

Músicos

Marcelle Barreto – piano

Lucca Frazão – violão

Leila Del Porto – cantora

Kátia Barone – piano

Eduardo Fonseca – percussão e Canto

Diego Summer – cantor

Produção e performances

Paulo Faria

Gabriela Caetano

Thais Dias

Ana Lima

David Guimarães

Mônica Azevedo

Nalu Liraci

Nathália Ferraz

Leandro Gomes

Tasso Corrêa

Paulo Carriel

Pablo Ginevro

Lilian Amaral

Brunner

Thayná Chagas

Ragnel Vandelli

Carlos Rosa

Clarisse Tarran

Fotógrafos

Paulo Brazyl

Adriano Choque

Assistentes Sociais

Carmem Lopes

Ana Santos

E mais 60 profissionais que estavam envolvidos direta e indiretamente

Fotos cedidas por Leona Jhovs e Companhia Pessoal do Faroeste



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