Como o trabalho de voluntários tem feito a diferença nos cursinhos populares de BH

A troca de experiência e o vínculo mais pessoal entre professor e estudante são características das iniciativas na capital mineira

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A troca de experiência e o vínculo mais pessoal entre professor e estudante são características das iniciativas na capital mineira

Por Alessandra Dantas e Luana Pedra, da Rede Fórum de Jornalismo

redeforum-logo“A melhor hora da semana é quando estou em sala de aula, pondo à prova meus conhecimentos e sendo correspondido. Isso faz a gente se manter aqui, mesmo sem ganhar nada financeiramente.” Quem compartilha a experiência comum entre voluntários de cursinhos populares é Lucas Madsen. Formado em História e recente mestre na área, ele é diretor pedagógico e professor do cursinho popular Equalizar. O projeto foi criado há 5 anos na Universidade Federal de Minas Gerais, em Belo Horizonte.

A iniciativa de três estudantes de Engenharia Química tinha como primeiro objetivo retribuir a educação que receberam. Para isso, buscaram o departamento do próprio curso com a intenção de ajudar outras pessoas a terem uma experiência universitária. A proposta se tornou um projeto de extensão da UFMG.

Quem se matricula no Equalizar tem a opção de se preparar para o Enem ou para o ensino técnico. São selecionados cerca de 120 alunos por ano, 90 para cursar o pré-Enem e 30 para o pré-técnico.

O Equalizar é estruturado para atender pessoas que estudem ou tenham estudado em escola pública. Uma das características do cursinho é a interação entre professores e estudantes (Foto: Alcindo Neto, professor de geografia do Equalizar)
O Equalizar é estruturado para atender pessoas que estudem ou tenham estudado em escola pública. Uma das características do cursinho é a interação entre professores e estudantes (Foto: Alcindo Neto, professor de geografia do Equalizar)

Outra iniciativa que se destaca no estado é a Educafro. O projeto foi criado em Salvador, na Bahia, e atua em território mineiro há quase 20 anos. O baixo número de negros nas universidades foi o que motivou um grupo de voluntários a criar um cursinho que priorizasse as camadas populares.

A Educafro Minas recebe em média 150 alunos por ano. Para conseguir atender à demanda, o cursinho conta com professores e gestores voluntários. “O voluntariado é um dos nossos princípios. Todo projeto da Educafro só acontece porque existem pessoas que encontram na educação uma saída para ter uma melhor condição de vida”, explica a coordenadora de projetos da Educafro Minas, Noeli Carolina.

A Educafro também está nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Bahia. Em Minas, se situa em Belo Horizonte e região metropolitana, além de cidades do interior como Passos, Poços de Caldas e Ipatinga (Foto: Reprodução/Facebook)
A Educafro também está nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Bahia. Em Minas, se situa em Belo Horizonte e região metropolitana, além de cidades do interior como Passos, Poços de Caldas e Ipatinga (Foto: Reprodução/Facebook)

A iniciativa acolhe principalmente alunos de periferia, mas não se restringe a atender apenas pessoas negras.  A assistente social Noeli Carolina faz parte da instituição há 3 anos e já foi questionada várias vezes sobre sua  representatividade. “As pessoas esperam encontrar uma negra nessa posição, então eu fui muito desafiada. Eu tive que parar e repensar minha identidade. Minha mãe é negra, meu pai é branco, então o que eu sou? Eu passei a reconstruir esse processo junto com os estudantes”, explica.

Noeli Carolina é também assistente social da Educafro Minas e responde pelos projetos da instituição como referência técnica. (Foto: Luana Pedra / Rede Fórum de Jornalismo)
Noeli Carolina é também assistente social da Educafro Minas e responde pelos projetos da instituição como referência técnica. (Foto: Luana Pedra / Rede Fórum de Jornalismo)

A história de Lucas com o Equalizar começou em 2013, quando ainda era estudante de História. Mesmo no final do curso à época, ele afirma ter aprendido a dar aula efetivamente no projeto. O professor havia deixado o trabalho no setor administrativo de um colégio quando decidiu buscar outras experiências. “Por coincidência, caiu no meu e-mail a divulgação do Equalizar como cursinho de voluntários. Eu já tinha feito voluntariado na adolescência e tinha me afastado. Quando vi essa oportunidade, decidi: eu quero!”, explica Madsen.

Lucas Madsen é diretor pedagógico do Equalizar, que recebeu cerca de 600 inscrições para as turmas de 2017. (Foto: Alessandra Dantas / Rede Fórum de Jornalismo)
Lucas Madsen é diretor pedagógico do Equalizar, que recebeu cerca de 600 inscrições para as turmas de 2017. (Foto: Alessandra Dantas / Rede Fórum de Jornalismo)

Um desafio recorrente para os cursinhos populares é a evasão escolar. Os motivos são diversos e, segundo o professor, um dos principais é a necessidade de trabalhar para ajudar a família. Outro fator é a falta de dinheiro para transporte. “Há desistências das quais a gente nunca soube o motivo. Temos que investir mais nesse acompanhamento psicopedagógico, motivar mais o aluno”, desabafa Madsen.

Uma das principais barreiras enfrentadas pela Educafro Minas, além da evasão, é o preconceito de quem julga a qualidade do cursinho baixa por não ter um alto custo para os estudantes, que contribuem mensalmente com 5% do salário mínimo. “Mas, para os alunos da Educafro, esse é o diferencial do curso, que não pensa no comercial, porque a  prioridade é exercer um trabalho social”, detalha a assistente social Noeli Carolina.

Há 15 anos, Marcelo Alves de Oliveira é professor de matemática na região metropolitana de Belo Horizonte. Sua preparação para entrar na universidade pública foi em um cursinho popular. “Era minha única opção, por isso, sou grato até hoje e voltei lá para dar aula para outros alunos”, declara.

Marcelo comemora o aniversário em uma festa surpresa feita por estudantes em Vespasiano, região metropolitana de Belo Horizonte. “Se você pegar o professor que eu era há 15 anos e o professor que eu sou hoje, é totalmente diferente” (Foto: Arquivo Pessoal)
Marcelo comemora o aniversário em uma festa surpresa feita por estudantes em Vespasiano, região metropolitana de Belo Horizonte. “Se você pegar o professor que eu era há 15 anos e o professor que eu sou hoje, é totalmente diferente” (Foto: Arquivo Pessoal)

O docente não descarta a possibilidade de criar um projeto desse tipo no futuro. “Há seis anos tenho refletido sobre isso. Quem sabe, um dia consigo reunir um grupo legal e fazer um cursinho popular”, planeja Alves, empolgado.

Ouça a reportagem

Esta matéria faz parte da série de reportagens sobre cursinhos populares produzida pelo Primeiro Módulo da Rede Fórum de Jornalismo.

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Confira abaixo mapa dos cursinhos populares no Brasil. Conhece algum cursinho popular? Escreva pra gente: redacao@revistaforum.com.br

Serviço:

Equalizar

Onde: Sala 5608 do Bloco 2 da Escola de Engenharia da UFMG. Av. Presidente Antônio Carlos, 6627, Campus Pampulha – 31270-901 – Belo Horizonte, MG.
Contato: cpequalizar@gmail.com

Educafro Minas

Onde: Av. Amazonas, 314 – sala 310 – Centro Belo Horizonte/MG – CEP – 30180-001 – Tel: (31) 3271-3038
Contato: https://www.facebook.com/educafrominas/

 



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