Movimento Cultural das Periferias debate “a cidade que queremos” no 1º Seminário Insurgências Periféricas

O Movimento Cultural das Periferias debateu, no 1º Seminário Insurgências Periféricas, pautas como racismo, sociedade patriarcal e machismo, desigualdades socioespaciais e homogenização cultural. Esteve presente no encontro a Comunidade Quilombaque de Perus (SP). Conheça...

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O Movimento Cultural das Periferias debateu, no 1º Seminário Insurgências Periféricas, pautas como racismo, sociedade patriarcal e machismo, desigualdades socioespaciais e homogenização cultural. Esteve presente no encontro a Comunidade Quilombaque de Perus (SP). Conheça

Por Luciana Pellacani, colaboradora da Rede Fórum

Colaborou com a matéria Aloysio Letra, do MCP

O final de semana dos dias 11 e 12 de março de 2017 ficará marcado, para os movimentos de periferia, como fundamental para a apresentação de resistências aos retrocessos políticos e sociais que tornaram-se crescentes nos últimos tempos. Coletivos, artistas e movimentos sociais se reuniram no Sacolão das Artes, zona sul da capital paulista, onde estabeleceram um novo marco de luta para o calendário da cidade e para a história das forças que visam romper com o ciclo de desigualdades, especialmente na região mais vulnerável do município.

Com organização exemplar e espírito coletivo, a programação do 1º Seminário Insurgências Periféricas mesclou participações de nomes importantes dentro da temática como dos professores doutores Rosane Borges e Dennis de Oliveira, com debates e grupos de trabalho envoltos em temas como racismo, sexismo e homogenização cultural – este último trata da dificuldade de construir uma identidade latino-americana que reconheça processos construtivos parecidos em países próximos em detrimento da cultura europeia e norte-americana.

Seminário discutiu pautas diversas ligadas à periferia. (Foto: MCP)
Seminário discutiu pautas diversas ligadas à periferia. (Foto: MCP)

Movimento Cultural das Periferias

O Movimento Cultural das Periferias (MCP) é uma frente ampla e supra-partidária, de organização horizontal. Reúne artistas, coletivos culturais, movimentos sociais e cidadãos de territórios situados à margem da cidade. O movimento busca difundir conceitos e práticas de participação política entre as classes populares e periféricas e tem como princípios a descentralização das verbas e das políticas públicas de cultura, entendendo esta para além do entretenimento. Busca a equidade através de articulação entre diversas coletividades dos territórios da cidade e atua com o intuito de gerar o direito à cidade, que lhes é negado historicamente.

O movimento, consolidado como tal em 2013 na 1ª Conferência de Cultura Leste, a princípio carrega, em essência, quatro pautas fundamentais:

1-    Ocupações de espaços ociosos para torná-los ocupações culturais, atuando diante da ausência do Estado / Município

2-    Criação de Lei de Fomento às Periferias e defesa desta política junto ao município. (Lei Municipal nº 16.496/2016)

3-    Transferência de gestão das Casas de Cultura do Município das subprefeituras para a Secretaria Municipal de Cultura, acabando com o monopólio de vereadores sobre as verbas e atividades destes espaços

4-    Articulação e trocas de experiências de coletividades da cidade toda, criando uma rede forte de combate à desigualdades e retrocessos

O encontro com a cultura resgatou no indivíduo periférico uma relação de autoafirmação com as suas raízes e trouxe à tona a memória dos migrantes. Hoje, a maior parte dos coletivos é composta por netos ou filhos de migrantes, mas a pauta vai além da diáspora africana de negras e negros. Indígenas e nordestinos também sofrem, em grandes metrópoles, micro diásporas através dos tempos. São pessoas que foram e são expulsas por processos perversos de “higienização” e gentrificação, além de outros processos que afastam as pessoas dos grandes centros da cidade.

A Comunidade Quilombaque

Conversamos com um coletivo que integra e foi um dos principais articuladores na construção do Movimento Cultural das Periferias: a Comunidade Quilombaque, situada em Perus, na zona noroeste da capital.

A Fábrica de CImentos de Perus. (Foto: acervo de Ana Cristina Vellard)
A Fábrica de CImentos de Perus. (Foto: acervo de Ana Cristina Vellard)

Até hoje a cultura do bairro se espelha na luta dos Queixadas, pautada pela não violência inspirada em Gandhi e Martin Luther King. “Queixadas” foi o termo atribuído aos operários da Fábrica de Cimento Perus que, durante 7 anos, a partir de 1958, promoveram a maior greve da história do Brasil na tentativa de implementar a autogestão. Hoje, a conexão das várias gerações se dá na utilização do lema de luta e no conceito de paz “Firmeza Permanente”, utilizado desde aquela época pelos trabalhadores.

Criada em 2005 por iniciativa de jovens artistas do bairro, a comunidade é uma espécie de quilombo urbano, um centro cultural que fomenta, articula e apoia iniciativas políticas, sociais e culturais para a promoção de inclusão social, principalmente de jovens negros e mulheres da periferia. A comunidade oferece cursos, oficinas, residências artísticas e apoio para a produção e desenvolvimento de iniciativas culturais. Outra frente de atuação do grupo é a promoção de ocupações de espaços públicos abandonados ou degradados como forma de resignificar o território e proporcionar o desenvolvimento local.

Comunidade Quilombaque em ação (Reprodução)
Comunidade Quilombaque em ação (Reprodução)

Confira, abaixo, uma breve entrevista com Cleiton Fofão e José Soró, representantes da comunidade.

Fórum – A Pauta principal hoje para o Movimento Cultural das Periferias é o descongelamento imediato das verbas orçamentárias previstas para a cultura, que foram contingenciadas pelo atual prefeito no início de fevereiro. A Quilombaque e o MCP integram a Frente Única – Descongela a cultura já – que no dia 27 promoverá mais um ato em frente ao Teatro Municipal. Como tem sido a resposta do atual secretário de Cultura e do prefeito quanto à reivindicação?

Cleiton Fofão – Ele não traz propostas concretas de encaminhamento e não tem a especificidade das prioridades que existe dentro da cidade. Ele fez um corte de orçamento de 43% e falou que vai passar a égua em tudo. Então, não tem prioridade”.

Fórum – No que diz respeito ao orçamento da Cultura, desde 2015 o MCP pleiteia 3% para a pasta, sendo metade para os territórios da periferia já que estes tem menos espaços culturais e precisam de mais investimentos…

José Soró – Ainda não conseguimos definir um nome para esta lógica. O que é visível, num contexto muito maior, é que intencionalmente [o congelamento] quebra toda o programa e a estrutura de política pública que vinham sendo construídas nos últimos 12 anos. Quebra fomentos e investimentos na programação. A gente acha, acha com certeza, que isto tem a ver com quebrar resistências, além de quebrar com toda a estrutura construída, porque essa é uma característica que a gente já acompanhou no governo do estado e tem acompanhado no âmbito federal. É assim: você desconstrói depois privatiza. Então o comportamento deles tem sido desonesto porque eles só enrolam e enrolam. Fingem uma participação, que estão dialogando com as linhas e os lugares e tal, mas na realidade a única coisa que permanece nessa papagaiada toda é o congelamento.

Fórum – O Plano Municipal de Cultura da Cidade de São Paulo, resultado de três conferências municipais e instituído pelo decreto nº 57484 em novembro de 2016 prevê, entre suas metas, a gestão colaborativa dos equipamentos culturais através da ampliação da participação e redistribuição de atribuições e responsabilidades junto à sociedade civil. Vocês conseguem enxergar este desafio sendo posto em prática com esta atual gestão? Vocês gostariam de esclarecer, na visão de vocês, quais são as vantagens de uma gestão participativa popular e cidadã ?

José Soró – Não há nenhuma relação do plano elaborado com o que o governo vem apresentando. Uma política participativa consegue garantir o olhar para as múltiplas e diferentes formas de manifestações culturais em São Paulo. Esta é a primeira vantagem. Segundo, você vai democratizando a cultura dentro da cidade e no orçamento, por exemplo, com a alocação justa dos recurso. Hoje a concentração se dá 70% centro e 30% periferia.O Plano Municipal de Cultura é inegociável. É o que representa uma construção de dez ou doze anos e representa o modelo de cidade que a gente defende.

Fórum – Queria que vocês nos colocassem alguns encaminhamentos do 1º Seminário Insurgências Periféricas ocorrido há dois finais de semana

José Soró – O seminário estava dentro da perspectiva de compreender a complexidade desse novo momento da cidade e de se fortalecer em articulação. Lutar pela garantia, pela preservação desse modelo de cidade que a gente quer e que está escrita no Plano. Foi o momento de pensar estratégias de como resistir.

Há uma decisão de permanecer construindo a base do “Nóis por Nóis”. Aumentar, a despeito da contramão, as produções de atividades artísticas e culturais nos espaços públicos e apoiar as ocupações. No nosso projeto contemplado com a Lei de Fomento às Periferias temos como objetivo fortalecer a construção e tentar consolidar o que a gente chama de território de interesse da cultura e da paisagem que abrange Perus, Jaraguá e Anhanguera.

Cleiton Fofão – Fazendo um enfrentamento direto contra esse genocídio do jovem negro e da violência contra a mulher.

José Soró – A relação direta desses retrocessos com esse fascismo, na periferia, aumenta muito mais. O genocídio que era grave tende a ficar pior,  a violência contra a mulher, contra a criança, tendem a ficar pior. Então, talvez a estratégia seja essa: a gente tem que aumentar as atividades para confrontar e disputar ideias.



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