Eduardo Guimarães, sobre Moro dizer que ele não é jornalista: “O tiro saiu pela culatra”

Em entrevista à Fórum, o blogueiro disse que a condução coercitiva a mando de Moro e a tentativa de desqualificar seu trabalho apenas lhe conferiu mais visibilidade enquanto jornalista, mas revelou também que a...

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Em entrevista à Fórum, o blogueiro disse que a condução coercitiva a mando de Moro e a tentativa de desqualificar seu trabalho apenas lhe conferiu mais visibilidade enquanto jornalista, mas revelou também que a ação prejudicou outros aspectos da sua vida no âmbito pessoal, como a demissão de uma das terapeutas que cuidam de sua filha, portadora de paralisia cerebral. Guimarães também fala sobre as investigações e mídia independente. Leia

Por Isabelle Grangeiro, colaboradora da Rede Fórum

O blogueiro Eduardo Guimarães, que foi levado na última terça-feira (21) pela Polícia Federal para depor sobre o suposto vazamento da também condução coercitiva do ex-presidente Lula, participou neste sábado (25) do 1° Encontro de Blogueiros e Ativistas Digitais de Campinas e Região. No evento, o responsável pelo Blog da Cidadania contou aos participante sobre a sua experiência com a Polícia Federal e por quais as dificuldades passam os movimentos de mídia independente hoje no Brasil. Em entrevista exclusiva para a Rede Fórum, o blogueiro fala sobre o que mudou após a sua condução coercitiva, o apoio que recebeu dos de seus colegas jornalistas e explica a importância da democratização dos meios de comunicação no país.

Rede Fórum – O que mudou após sua condução coercitiva e ampla exposição na mídia?

Eduardo Guimarães – A exposição que eu tive por conta das ações do juiz Sérgio Moro contra mim têm dois efeitos: um efeito é conferir maior visibilidade para o meu trabalho, como jornalista. Agora, eu não vivo só de jornalismo, ou melhor, eu tenho uma outra atividade que é a principal da minha vida, que é trabalhar como representante. Essa parte fica extremamente representada por aquilo que aconteceu, porque a gente sabe que no meio empresarial as empresas não gostam de pessoas de esquerda, pessoas que fazem militância política. Eu nunca escondi nada de ninguém, até porque seria impossível ter um site e querer esconder esse site, mas quando você é acusado de um crime em rede nacional, como eu fui, muitas pessoas não entendem do que se trata e começam a dizer que você é um criminoso. A maioria que pensa diferente do ponto de vista ideológico, ou que não tem ideologia, ou que não se interessa pelas coisas simplesmente diz: “aquele sujeito fez alguma coisa errada, a polícia não vai levar alguém preso se ele não tiver cometido algum crime”, e isso vai impactar, aliás já impactou. Eu tenho uma filha muito doente, ela tem 18 anos e 26 quilos, ela tem homecare em casa e possui terapeutas que frequentam a minha residência todo dia. Duas dessas terapeutas se desligaram da atividade e não querem mais ir à minha casa. Do ponto de vista do meu trabalho como jornalista e blogueiro eu acho que o tiro saiu pela culatra, a não ser que me prendam.

Rede Fórum – Qual a sua posição sobre a declaração do juiz Sérgio Moro, que não o reconheceu como jornalista?

Guimarães – O que o juiz Sérgio Moro disse que eu não sou jornalista, mas a ONG dos Repórteres Sem Fronteira, o Sindicato dos Jornalistas do Estado de São Paulo, a Federação Nacional de Jornalistas (Fenaj) dizem o contrário. Até colunistas da grande imprensa que, inclusive, não comungam das minhas convicções políticas, como Reinaldo Azevedo, Ricardo Noblat e tantos outros dizem ao contrário. O Supremo Tribunal Federal decidiu em 2009 que é o contrário, que não é necessário ter diploma de jornalista para exercer a profissão. Então, me desculpe, mas ele disse uma besteira.

Rede Fórum – Qual é a importância da democratização da mídia no Brasil?

Guimarães – Eu costumo dizer que o Brasil precisa de uma legislação para imprensa que pode se basear em países “comunistas” [ironia] como os Estados Unidos e a Inglaterra, que são legislações duras, que estabelecem limites. O jornalismo deve ser livre para informar, mas ele não pode ser livre para usar, por exemplo, concessões públicas para fazer política partidária. A maior emissora de televisão de um país não pode ser usada para combater um grupo político e favorecer outro grupo, porque aquela emissora pertence a todos, então ela deve ser equilibrada. A mídia atuar como partido político só é cabível nas ditaduras, e aí a gente tem uma ditadura privada. Tanto que o juiz Sérgio Moro recuou da sua opinião estapafúrdia de me desqualificar como jornalista quando a Globo disse a ele que não concordava com sua posição, pois estava pegando mal no exterior. O mais sério em relação a mídia é o que eles chamam de propriedade cruzada, mais uma vez uma “nação marxista” como os Estados Unidos têm um marco regulatório que impede a concentração da propriedade dos meios de comunicação. Então, nos Estados Unidos, se você tem uma televisão, você não pode ter na mesma cidade um jornal, uma coisa dos “comunistas americanos”. Eu estou sendo irônico, mas no Brasil, a Globo têm todas as plataformas de mídias. Não existe uma sociedade civilizada no mundo, nos países desenvolvidos e democráticos, que permite que uma só família, ou um só grupo empresarial tenha todas as plataformas de mídias possíveis e imagináveis. Daí se transformam em ditadores como a família Marinho. Então é necessário ter um marco regulatório que impeça a concentração de propriedade de meios de comunicação.

Rede Fórum – Como está a sua situação agora perante as investigações da Polícia Federal?

Guimarães – Há duas investigações que podem se transformar em processos. Uma é por obstrução de justiça porque eu supostamente teria alertado o ex-presidente Lula que ele seria alvo de uma operação de busca e apreensão e de sua condução coercitiva para depor, que já é por si uma ilegalidade. No outro processo o juiz Sérgio Moro me acusa de ameaçá-lo, porque eu em 2015 escrevi um tuíte sobre economia onde eu dizia que aquilo que o Sérgio Moro estava fazendo com a condução da Lava jato iria acabar com o “seu emprego e a sua vida”, mas eu estava me dirigindo aos leitores. existe um contexto nos tuítes, mas o juiz entendeu como ameaça a ele.



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