Juca Ferreira, ao recordar Jango Goulart, pergunta: “Cadê o fio da meada?”

Para o ex-ministro da cultura, Jango Goulart é um grande injustiçado, um democrata sensível ao sofrimento do povo brasileiro, comprometido com as reformas que dariam ao Brasil as condições para seu desenvolvimento com justiça social.

1350 0

Para o ex-ministro da cultura, colunista da Fórum, Jango Goulart é um grande injustiçado, um democrata sensível ao sofrimento do povo brasileiro, comprometido com as reformas que dariam ao Brasil as condições para seu desenvolvimento com justiça social.

Por Juca Ferreira*

CADÊ O FIO DA MEADA?

Um grande injustiçado! João Goulart, um democrata sensível ao sofrimento do povo brasileiro, comprometido com as reformas que dariam ao Brasil  as condições para seu desenvolvimento com justiça social, foi duramente atropelado pelo golpe civil-militar de 1964.

Seu programa de governo, em muitos aspectos, continua atual. As Reformas de Base: agrária, trabalhista, administrativa, bancária e educacional pretendiam reformar o Brasil  para enfrentar as desigualdades sociais e não para aprofundar a exploração de nossas riquezas humanas e naturais, como tem sido feito hoje.

Olhando para esta foto histórica lembro que daqui a dois dias será o quinquagésimo terceiro aniversário  do golpe militar que depôs o presidente Goulart. Lembro ainda que estamos às voltas com outro golpe, em muitos aspectos diferente do anterior, mas em outros muito parecido.

Reforço minha convicção de que a velocidade frenética dos tempos atuais e a forma como corremos atrás do tempo sem refletir sobre o vivido, para não nos atrasarmos, acabam sacrificando nossa capacidade de assimilação e compreensão dos fatos e da história.

Essa corrida sem memória impede que venhamos a ter uma compreensão profunda do processo político e histórico que determina de forma tão imperiosa o nosso presente.

A inteligência requer construção de referências, desenvolvimento da consciência crítica e percepção dos processos históricos que nos envolvem. Por isso os intelectuais e os partidos são tão importantes. Por terem o papel de provocar a reflexão na sociedade e gerar os processos de compreensão da vida.

Não se pode simplesmente passar a página, como se a vida pudesse ser vivida como um piscar de olhos, como se bastasse uma leitura ligeira, apressada e superficial. Como se o presente não tivesse relação com o passado.

Não, para avançar e superar nossas mazelas é preciso sempre percorrer o fio da história. Compreender que tudo ao nosso redor provém da mesma meada.

Os golpistas de 1964 se esforçaram para apagar a memória e as referências daquela  época. Mentiram, caluniaram e criaram fantasmas para ter a população ao seu lado. Construíram uma narrativa e a impuseram ao país. Simplesmente deletaram a memória social! Queimaram os arquivos!

A oposição e o movimento operário que se articulou anos depois, pouco sabiam daquele período. As novas gerações tiveram que recomeçar quase que do zero. O golpe e os anos de ditadura conseguiram essa façanha. A crítica que se fez desse período é superficial por ignorância.

Mesmo representando a superação dos limites do trabalhismo, o novo movimento operário e depois o PT ganhariam em densidade se tivessem tido um pouco mais de contato com as lutas populares e operárias, com as demandas e agruras da geração de lutadores que os antecederam. Lembro de Bertold Brecht que em um poema da época do nazismo dizia algo assim “vocês, que virão na crista da onda, pensem com simpatia em nós, que vivemos esses tempos sombrios”.

Minha geração poderia ter sido um pouco mais generosa com esses companheiros e companheiras que viveram esses tempos de 64. O povo brasileiro ganharia muito se pudesse construir uma linha narrativa que viesse desde Getúlio Vargas.

Aí sim, estaríamos preparados para dar um passo em direção ao futuro. Olhe que, em nenhum momento, estou pensando que deveríamos passar a mão na cabeça de Getúlio ou do trabalhismo. O populismo e a relação autoritária com o movimento social e outros limites daquela época devem ser sempre criticados e denunciados.

Se tivéssemos tempo e interesse para analisar as forças antagônicas que veem se enfrentando historicamente no Brasil, a evolução das classes sociais, as inclinações antidemocráticas das nossas classes dominantes, a natureza do estado brasileiro, teríamos uma compreensão melhor dos interesses em jogo no golpe de 2016 e assim mais chance de sucesso político.

Se tivéssemos memória dos anos 40/50, saberíamos que desde então, se construiu uma agenda da classe trabalhadora e do povo pobre que foi abatida com violência toda vez que ousou se afirmar.

Se olharmos para 45 e 64, dois momentos de conquistas sociais relevantes bruscamente interrompidos, perceberemos que a imprensa brasileira estava lá, como está agora, conspirando, fabricando ódios e farsas, manipulando a opinião pública; reproduzindo preconceitos e subestimando nosso povo e nosso país.

Minhas simpatias para o nosso presidente João Goulart.

juca ferreira

*Juca Ferreira é sociólogo e ambientalista. Foi ministro da Cultura nos governo Lula e Dilma Rousseff

 

Leia mais artigos da coluna de Juca Ferreira na Fórum:

Que país é esse onde a carne é podre e o agro é pop?

“Nosso futuro entre o céu e o inferno”

A agenda das mulheres é a agenda do Século 21

Democracia, Já

Carnaval de rua é festa da cidadania

Silêncio ensurdecedor e boca aberta



No artigo

x