Relato de uma viagem: Águas de Março no Cariri da Paraíba

“Começa aqui uma viagem, uma chuva de esperança…”. Confira o emocionante diário de viagem do colaborador Gleber Naime, que acompanhou de perto a inauguração da Transposição do Rio São Francisco com Lula e Dilma...

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“Começa aqui uma viagem, uma chuva de esperança…”. Confira o emocionante diário de viagem do colaborador Gleber Naime, que acompanhou de perto a inauguração da Transposição do Rio São Francisco com Lula e Dilma e pode registrar a emoção da população local. Leia, assista e se emocione também

Por Gleber Naime de Paula Machado

[Confira, ao final da matéria, vídeos de depoimentos e da cerimônia de inauguração]

caririParto do aeroporto de Brasília no vôo da Gol, sexta, 17 de março às 9:45h, rumo a João Pessoa.

O destino final será Monteiro, cidade encravada no Cariri paraibano quase divisa com Pernambuco. Região chamada de meio do mundo.

A expectativa é grande, pois há tempos alimentava a ideia de percorrer os trechos da transposição do Rio São Francisco cortando o Cariri e o sertão nordestino castigados pela seca.

A oportunidade é única agora. Quando soube que Lula estaria lá em Monteiro, junto com Dilma, para comemorar a chegada da água, não resisti e decidi ir também. Vou com um propósito: ver de perto a reação dos nativos e moradores com a chegada da água. Ver nos olhos das pessoas. Sentir suas emoções. Ouvir suas opiniões sinceras. Afinal, a transposição do São Francisco é a maior obra dessa natureza no mundo atual. Seu gigantismo não está só no porte grandioso e peculiaridades da engenharia, mas também na decisão de realizá-la.

A ideia de transpor água do Velho Chico para o semiárido nordestino remonta ao período colonial. Nenhum governo ao longo de todo esse período tomou a iniciativa de botar a ideia no papel e executá-la. A decisão do Presidente Lula de fazer o projeto e executar a obra é histórica. Não fosse a retidão do propósito e o compromisso com o desenvolvimento do Nordeste e do país, Lula não teria dado conta de levar a decisão adiante.

Enfrentou muitos adversários da obra. Uns porque temiam que sua aprovação popular ficasse ainda maior. Outros porque sempre ganharam com a indústria da seca. Outros porque, em defesa do Rio, achavam que o povo era menos importante. Na prática o projeto de Transposição, se levado a termo, tem uma grande parte de recursos para a revitalização do Rio e seus afluentes desde Minas em São Roque, passando pela Bahia até desaguar no mar banhando também o Sergipe.

Lula enfrentou críticas ferozes contra a obra. Os adversários não perdoavam. Ataques de todos os lados nas redes sociais. Jornais, rádios e TVs davam voz aos contra. Até greve de fome  de um Bispo teve que superar. Com diálogo e respeito, o governo Lula seguiu em frente na determinação histórica.

Em Minas, enfrentou uma feroz oposição feita pelo Governo Aécio por meio da Secretaria de Meio Ambiente, articulada a algumas ONGs ambientalistas. Lula soube conduzir com sabedoria o debate e atender demandas que eram justas como, por exemplo, a elevação dos recursos para saneamento nas cidades ribeirinhas e recomposição de mata ciliar do Rio e seus afluentes.

E restou provado que a transposição de parcela mínima de água para o semiárido nordestino (1,4% da vazão de 1.850m³/s) era perfeitamente compatível com a preservação do Rio São Francisco.

9:45h – O avião decola

Vôo muito tranquilo. Aproveitei para ler sobre os desafios da Transposição desde a elaboração do projeto básico. E aviao1também sobre a dimensão da obra de engenharia em seus números e estatísticas. Anotei alguns dados que considerei bastante significativos, como:

  • 390 municípios do Nordeste setentrional serão beneficiados (12milhõesde pessoas);
  • A Transposição vai recuperar 23 açudes;
  • Constrói: 27 novos reservatórios;
  • 4 túneis;
  • 14 aquedutos;
  • 9 estações de bombeamento;
  • Tem 477 km de extensão (eixo Norte) e 220Km (eixo Leste);
  • Passa pelos estados de PE, PB, RN CE, em dois eixos da obra;
  • Em 1847 Dom Pedro II pensou na possibilidade de levar a água do S. Fco para o semiárido;
  • Em 1943, após grande seca, Getúlio Vargas retomou a ideia, mas não conseguiu levar adiante;
  • Em 2004 Lula inicia o Projeto com os trâmites para o RIMA (Relatório de Impacto Ambiental).
Comparando preços de transporte no aeroporto: táxi 85,00. Clandestino: 50,00. Uber: 40,00. Ônibus: 3,00. Pronto. Ônibus na hora.
Comparando preços de transporte no aeroporto: táxi 85,00. Clandestino: 50,00. Uber: 40,00. Ônibus: 3,00. Pronto. Ônibus na hora.

Até aqui tudo bem. Calor forte. O ônibus vai serpenteando pelas ruas esburacadas de Bayeux na busca de passageiros e vai lotando. Logo chegamos em Manaíra, bairro de João Pessoa. O mar está verde hoje e um sol radiante.

A estrada até Campina Grande está uma maravilha. Toda duplicada. Obra concluída  no governo Lula, que fez sua maior parte. A paisagem está toda verde após a primeira chuva que anuncia o inverno no Nordeste.
A estrada até Campina Grande está uma maravilha. Toda duplicada. Obra concluída  no governo Lula, que fez sua maior parte. A paisagem está toda verde após a primeira chuva que anuncia o inverno no Nordeste.

Alojado, rápido banho e bora na Tábua de Carne, restaurante que já conhecia, comer uma carne de sol espetacular.

À noite encontro com meu amigo Anselmo Castilho e Sandra, sua esposa. Sou caroneiro deles até o Cariri amanhã. Colocamos a prosa em dia e acertamos detalhes da nossa viagem. Muita movimentação aqui na organização do evento. E todo mundo na cidade sabendo que Lula estará em Monteiro.

 

 

 

 

Sábado, 18/03, 11:30 – Partiu Monteiro

monteiro113:30monteiro2

Chegamos à Campina Grande, metade do caminho. Pausa para o almoço no Manoel. Logo chegam Tarcísio, Juliana sua mulher e Bruna sua filha. A partir de agora seremos dois carros a andar juntos na estrada.

 

 

 

 

 

 

Sobre o Manoel: Lá, sempre coordenando o atendimento da melhor qualidade aos clientes, está Chico, filho do Manoel. Num intervalo ele nos conta como esse sucesso internacional começou. Seu pai, com o dinheiro de um acerto trabalhista da Sorveteria Pinguim, onde era garçom, alugou um espaço e abriu a Carne de Sol do Manoel, em 1961. Em pouco tempo se transferiu para um espaço maior quase ao lado, onde está até hoje. Os preços são razoáveis e a comida nordestina é espetacular mesmo.
Sobre o Manoel:
Lá, sempre coordenando o atendimento da melhor qualidade aos clientes, está Chico, filho do Manoel. Num intervalo ele nos conta como esse sucesso internacional começou. Seu pai, com o dinheiro de um acerto trabalhista da Sorveteria Pinguim, onde era garçom, alugou um espaço e abriu a Carne de Sol do Manoel, em 1961. Em pouco tempo se transferiu para um espaço maior quase ao lado, onde está até hoje. Os preços são razoáveis e a comida nordestina é espetacular mesmo.

15:00

Seguimos em frente e pegamos a estrada rumo à cidade de Sumé, que fica próxima a Monteiro. A paisagem do Cariri parece que se aproxima da gente, agora que a estrada não é duplicada. Com um trânsito maior, o carro seguiu mais devagar e a gente pôde observar melhor as palmas, as algarobas, os currais de bode, as casas e fazendas características do Cariri.

Chegamos à Praça do Meio do Mundo, onde os estudantes de Campina Grande se encontram para animadas festas.

Uma particularidade desse trecho da obra é que o canal que traz a água desemboca no leito do rio Paraíba. Esse rio não era perene. Era seco na maior parte do tempo, só tendo alguma água no inverno nordestino, tempo de chuva. Se chovesse tinha alguma água. Mas já passou inverno seco também.

Para compreender a emoção e reação dos moradores da região é assim: Ganharam um rio perene!

riopereneA noite em Sumé foi muito interessante. Ficamos na Pousada Sumé que fica logo na entrada da cidade. Simples. Preço baixo. Uma boa recepção do Dinho, o proprietário e a recepcionista, super agradável.

A conversa aqui é outra. Atenção ao que se fala. Acerto de detalhes da acomodação. Troca de quarto. Adequação à necessidade de cada um. E pronto! Como se diz muito por aqui. Todos hospedados.

Como a Pousada fica na beira da BR, ficamos vendo o movimento de carros se intensificar. Em frente há um Posto com Lanchonete/ Restaurante onde muita gente parava.

Ônibus, vans, carros de passeio. Animação geral para o dia de amanhã em Monteiro. Aos poucos foram chegando conhecidos dos meus amigos de jornada paraibanos e virou uma festa só. O vereador Betinho, de Bayeux, um ex-petista que ama Lula e o PT (isso existe!) com sua esposa e filho Rafael se juntaram a nós. Histórias e mais histórias. Lembranças, relatos, anedotas. E todos descemos para a praça da Cidade.

Estava bem movimentada. Música diferente em cada quiosque disputava o ouvido da gente. Uma feira a céu aberto, rodeada pelos quiosques e suas mesas. Escolhemos um e fomos pra lá. Agregou mais gente. A proprietária atendeu e desligou o som.

praça

Aí ouvimos uma só música e pudemos conversar. Carne de sol da casa e macaxeira frita, irreparável! Chega mais gente de João Pessoa, de Campina, do Rio Grande do Norte. De todo lado. E relatam suas histórias, emoções com o momento histórico e as expectativas para o dia de amanhã. De repente, chega um pessoal de João Pessoa, Almir, Lígia, Arimatéia, com um saco de camisetas e bonés alusivos ao Ato. A praça inteira veio para ver. Vendeu quase tudo. Camiseta R$ 10,00 e boné a 5. Rapidamente, vem a dona do quiosque correndo para salvar suas peças. E ela disse: “Não perco essa festa amanhã com Lula em Monteiro de jeito nenhum! ”
Aí ouvimos uma só música e pudemos conversar. Carne de sol da casa e macaxeira frita, irreparável! Chega mais gente de João Pessoa, de Campina, do Rio Grande do Norte. De todo lado. E relatam suas histórias, emoções com o momento histórico e as expectativas para o dia de amanhã.
De repente, chega um pessoal de João Pessoa, Almir, Lígia, Arimatéia, com um saco de camisetas e bonés alusivos ao Ato. A praça inteira veio para ver. Vendeu quase tudo. Camiseta R$ 10,00 e boné a 5.
Rapidamente, vem a dona do quiosque correndo para salvar suas peças. E ela disse: “Não perco essa festa amanhã com Lula em Monteiro de jeito nenhum!”

Domingo, 19 de março de 2017, dia em que se homenageia São José

9h

destacarJá na Lanchonete em frente à Pousada. Água de coco, tapioca, cuscuz com ovo e café com leite. Casa abarrotada. Vários ônibus parados, vindos de todos os cantos do Nordeste. Povo que saiu de madrugada de suas cidades. “Vermelhou” tudo. Preço por passageiro variava de R$ 40,00 a R$ 200 por pessoa. Depende de onde vinha o ônibus. Todos arcando com seus custos, há de se destacar.

Monteiro fica a 35Km de Sumé. Saímos às 10:30.

A estrada já estava muito movimentada.

Mas quando chegamos a um certo ponto, faltando uns 10 Km, congestionou tudo e os carros começaram a se emparelhar em três pistas. A de ida, a de volta e a do acostamento de quem ia. Quem vinha de Monteiro passou a usar a pista de acostamento, mesmo assim ainda tinha um abusado que ousava avançar na contra mão.

congestionadaBuzinas, bandeiras, filmagens, fotos. Os passageiros foram descendo dos carros. E iniciou uma carreata que não andava e uma passeata que tomava conta de tudo até a ponte do Rio Paraíba.

De repente a porta de um carro se abre e desce alguém com um tanto de bandeiras. Parecia um enxame de gente para garantir a sua. Muita festa mesmo!

voltaqueridosEu saí do carro e fui ter uma visão de cima de uma camionete que vinha atrás. Coisa mais linda. Carro a perder de vista ocupando todas as pistas pra trás e prá frente. De repente se vista a entrada de Monteiro sinalizada por um arco que fica sobre a ponte do Rio Paraíba. Uma multidão já se aglomerava. Grupos diversos faziam suas peripécias, uns com palavras de ordem, outros cantando, um grupo se apresentava com sombrinhas vermelhas abertas que diziam “Voltem Querid@s”. Era um grupo de Recife.

Atravessando o arco, a maravilha: o Rio Paraíba recebendo e levando a água do São Francisco. Gente de todas as idades tomando banho no Rio e ocupando suas margens. Era um verdadeiro formigueiro humano, visto de cima da ponte.

maravilhaDa ponte também se via algumas tendas localizadas bem na chegada do canal. Lotada de gente. E abaixo na encosta uma faixa bem grande: Fora Temer.

(Nesse mesmo lugar, dias antes, o presidente usurpador fizera um Ato de Inauguração. Vazio. Mais segurança que gente. E muita vaia do povo).

É muita gente mesmo. Calculam-se umas cinquenta mil pessoas. Imagina comida pra esse tanto de gente. Os bares e restaurantes esgotaram seus estoques. Já não havia vaga em Pousadas e Hotéis desde sexta-feira. Mas todo mundo se virou.

O sol já estava muito quente e procuramos uma sombra debaixo da ponte do rio Paraíba, onde os espaços já estavam bem disputados. Mas com jeito achamos um cantinho que deu para forrar o chão e colocar o bolo. Era aniversário do Dr. Tarcísio. E sua noiva Juliana e filha Bruna prepararam a surpresa. Comemoramos ali. Todos em volta, admirados, cantaram os parabéns. Acho que nunca teve tanta gente no aniversário dele em 52 anos! E o melhor, terminou com o grito Lula guerreiro do Povo brasileiro, puxado por ele.

De repente, por volta de 12:30, um helicóptero sobrevoa por ali. A multidão grita: Painho chegou! Um corre-corre danado e muita palavra de ordem. Mas não era Lula ainda. A Celebração das Águas, nome do evento da Inauguração Popular da chegada da água do São Francisco no Rio Paraíba, tinha dois momentos. Primeiro, à beira do Rio, Lula, Dilma e o governador Ricardo Coutinho, plantariam uma árvore e seguiriam pouco mais de 1Km até o palanque, onde a Assembléia Legislativa do Estado entregaria um título a Lula e Dilma e haveria os discursos das lideranças.

Por volta das 15h chegou o ônibus vindo de Campina Grande com Lula, Dilma e comitiva. Imaginem o alvoroço. Não foi possível plantar a árvore. A multidão envolveu a comitiva de tal forma que Lula, para simbolizar o Ato, encheu seu chapéu da água da transposição e jogou para o alto como se abençoasse a todos e todas pela conquista inédita.

Em seguida conseguiram colocá-los numa camionete que puxou o cortejo. O povo acompanhou em passeata até o palanque, onde milhares de pessoas já aguardavam na praça principal da cidade.

O palanque vergava de tanta gente. Os discursos foram breves. Falaram o Padre Djacir Brasileiro, que teve destaque no apoio ao Projeto, os representantes da CUT e da Via Campesina/MST, o Presidente da Assembléia Legislativa, o Padre Luiz Couto pelos Deputados Federais, Humberto Costa pelos Senadores, a Presidenta Dilma, o governador Ricardo Coutinho e seu Secretário de Recursos Hídricos. Todos queriam ouvir o Lula. Chico César deu uma palhinha que marcou a presença da cultura nordestina e da luta do povo. Lula foi brilhante. Transmitiu emoção, confiança e muita força e disposição. Deu seu recado sobre o momento atual de tentativa de reforma da previdência pelo governo golpista: Não prejudiquem o povo brasileiro. “Não prejudiquem a aposentadoria do povo, não mexam na legislação trabalhista”.

palanqueE àqueles que tentam impedir uma possível candidatura. “Eles pedem a Deus para eu não ser candidato, porque se eu for é para ganhar as eleições”.

E ficou marcado em nossos corações: “Tenho muito orgulho de ter tido a coragem de iniciar esse projeto. Se eles têm vergonha, nós não temos. Dilma e eu, nós temos orgulho de dizer: somos pai, mãe, irmão, primo, tio e sobrinho da Transposição das águas do São Francisco”, afirmou.

Mais de 50 mil pessoas entoaram as palavras de ordem já conhecidas: Olê, Olê, Olê, Olá… Lula… Lula. Ou, Lula – guerreiro do povo brasileiro.

Fim do Ato. Já dava 18h e a multidão começou a se dispersar. Voltar não foi nada fácil. Só para sair de Monteiro gastamos mais de uma hora até pegar a BR. Trânsito forte até chegarmos às duas da manhã em João Pessoa.

O Ato foi marcado pela emoção e participação popular.

Valeu demais essa experiência. Pelo que vi, senti e ouvi, como diz o povo de lá:

Não tem pra outro em 2018!

Agradecimentos especiais:

*À minha companheira Aninha, pelo estímulo, apoio à viagem e ajuda na diagramação e revisão desse texto.
*Ao amigo Edivaldo Assis, pela ajuda com os vídeos.
*Ao Paulo Cabral, Raif e seu pai Sr. Mariano, Dr. Tarcísio e família pela caminhada que fizemos juntos no dia de São José, em Monteiro-PB.
*Aos amigos Anselmo Castilho e Sandra, que, além da carona me hospedaram em João Pessoa, no retorno de Monteiro.

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