Macron: o “candidato camaleão” que conquistou a França

Após um ano liderando pesquisas, Marine Le Pen deve perder a eleição – ao que tudo indica – para o novo “queridinho” das elites européias Por Vinicius Sartorato*, colaborador da Rede Fórum...

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Após um ano liderando pesquisas, Marine Le Pen deve perder a eleição – ao que tudo indica – para o novo “queridinho” das elites européias

Por Vinicius Sartorato*, colaborador da Rede Fórum

Faltando pouco menos de um mês para a eleição presidencial na França, que acontece em 23 de abril, o receio de uma vitória de Marine Le Pen (Frente Nacional) parece ter perdido força.

Em janeiro, foi publicado pela Rede Fórum de Jornalismo o artigo “Será a França o novo país a assustar o mundo?”, em que foi introduzido o sistema político do país, o processo eleitoral, sua importância para Europa e o mundo, bem como o cenário de crescimento da Frente Nacional diante da queda de popularidade dos partidos tradicionais.

Em 11 de fevereiro, no artigo “Dúvidas e populismo dominam eleições na França”, foram explorados os perfis dos quatro principais candidatos, suas propostas e contradições. Naquele momento, o candidato independente, do movimento “Em marcha!”, Emmanuel Macron, já aparecia em segundo lugar nas pesquisas, valendo-se dos escândalos que atingiram a campanha do candidato republicano, François Fillon.

Desde então, os temas centrais da corrida eleitoral se mantiveram: economia, relações com a UE, imigração, terrorismo, secularismo, Estado de Bem-Estar Social e corrupção.

Com o tempo, o “fenômeno” Emmanuel Macron, ganhou ainda mais força, conquistando o eleitorado de direita e esquerda. Aproveitando-se de escândalos que atingiram Fillon e Le Pen, Macron, com seu “discurso camaleão”, ganhou as graças de todos, apresentando-se como a “3ª via”, “nem direita, nem esquerda”, defensor da paz, ecologia, de uma França forte, aberta, do livre-mercado e da solidariedade coletiva. Nesse quadro, o candidato independente conquistou no último mês o primeiro posto nas pesquisas eleitorais – para o 1º e 2º turno.

Em um cenário político que claramente pendeu às pautas tradicionais da direita, restou à esquerda um papel coadjuvante. François Hamon, candidato socialista, viu sua candidatura ter um “vôo de galinha”, acabando por ser boicotada, inclusive por lideranças do seu partido. De quarto lugar passou ao quinto posto, perdendo espaço até para Jean-Luc Melenchon, eurodeputado, que reclama um programa “verdadeiramente de esquerda” e que tem um discurso aberto a referendos voltados para um FREXIT e uma saída da OTAN.

Com o quadro eleitoral se afunilando a favor de Macron, os jornais tradicionais passaram a atacar mais Le Pen e poupar o candidato da 3ª via. Em resumo, em um consenso silencioso, as entrelinhas apresentam uma unidade. Uma das exceções tem sido o jornal L’Humanité, ligado ao Partido Comunista Francês, que faz campanha aberta contra a Frente Nacional ao mesmo tempo que denuncia Macron. Contra o voto útil de eleitores à esquerda, o jornal classificou favorito como “o candidato dos patrões” (29/3/2017).

*Vinicius Sartorato é sociólogo, mestre em Políticas de Trabalho e Globalização pela Universidade de Kassel (Alemanha)



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